Gestão da Clínica

Paciente aceitou só parte do plano de tratamento: conto como orçamento fechado ou perdido na taxa de aceitação da clínica?

Aceite parcial não é orçamento fechado nem perdido. Veja como contar nas duas réguas (por paciente e em valor), o que conta como aceito, os 7 desfechos que um percentual único esconde, o que o CDC e o Código de Ética Odontológica dizem sobre orçamento e alternativas, e como montar o painel e a retomada do saldo em aberto.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 12 de outubro de 2026 · 26 min de leitura
TL;DR

Nenhum dos dois: aceite parcial é um terceiro estado, medido em duas réguas, aceite por paciente e aceite em valor (R$ aceito ÷ R$ apresentado), e a parte não aceita vira saldo em aberto com data de retomada, não perda.

Pontos-chave
  • Um percentual único mistura desfechos que pedem ações opostas. Num estudo com 200 pacientes de prótese de uma faculdade de odontologia em Nagpur, na Índia (Journal of the Indian Prosthodontic Society, 2016), 82% não aceitaram o plano proposto ou aceitaram um tratamento alternativo, e só 18% aceitaram o plano do dentista.
  • Custo do bolso é o fator mais citado na decisão do paciente. Numa revisão sistemática da BMC Oral Health (2025), com 233 artigos de 49 países, o pagamento do próprio bolso ficou em primeiro lugar, e a PNS 2019 do IBGE mostra que 75,0% dos atendimentos odontológicos no Brasil ocorreram em consultório particular ou clínica privada.
  • Aceite não é receita realizada. Num estudo com 775 prontuários de uma clínica-escola em Serra Talhada (PE), de 2017 a 2023 (Lima e colegas, periódico da UFF), o tratamento proposto foi concluído em 69% dos casos: o painel precisa medir conclusão por fase, além do aceite por paciente e em valor.

Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Resposta curta: aceite parcial é um terceiro estado, não fechado nem perdido
  4. As duas réguas: aceite por paciente e aceite em valor
  5. O que conta como "aceito" na sua clínica
  6. Os 7 desfechos que um percentual único esconde
  7. Aceite por fase não é aceite por alternativa mais barata
  8. O saldo em aberto: o que fazer com a parte que o paciente não aceitou
  9. O que o CDC diz sobre orçamento aprovado (e por que o aceite parcial pede orçamento próprio)
  10. Fasear e oferecer alternativas é dever ético, não truque comercial
  11. Por que o paciente aceita só parte do plano
  12. Por que no Brasil o aceite parcial é estrutural, não exceção
  13. Aceite não é receita: a distância entre aceitar e concluir
  14. Benchmarks de aceitação: por que a régua americana não serve para a sua clínica
  15. Como montar o painel de aceitação (colunas, fórmulas e cortes)
  16. Régua de retomada do saldo em aberto pelo CRC
  17. Onde o aceite parcial entra no funil inteiro da clínica
  18. Erros que distorcem a taxa de aceitação
  19. Seu próximo passo
  20. Perguntas frequentes

"Paciente aceitou só parte do plano de tratamento: conto como orçamento fechado ou perdido na taxa de aceitação da clínica?"

O paciente aprovou a raspagem e as restaurações. Os implantes ficaram "para depois".

No fim do mês, alguém precisa marcar o status no sistema: fechado ou perdido.

As duas opções estão erradas.

Se você marca como fechado, a taxa de aceitação fica bonita e o valor que ficou na mesa some do relatório. Se marca como perdido, a taxa despenca e ninguém liga de volta para retomar o resto do plano.

A resposta direta: aceite parcial não é fechado nem perdido. É um terceiro estado, e a sua taxa precisa de duas réguas: aceite por paciente (quem aceitou ao menos um procedimento) e aceite em valor (R$ aceito dividido por R$ apresentado). O que não foi aceito vira saldo em aberto, com dono e data de retomada.

Não é detalhe de planilha. Num estudo com 200 pacientes do Departamento de Prótese e Implantodontia de uma faculdade de odontologia em Nagpur, na Índia, publicado em 2016 no Journal of the Indian Prosthodontic Society, 82% (164) não aceitaram o plano ou aceitaram um tratamento alternativo, e só 18% (36) aceitaram o plano proposto pelo dentista.

Recusa e troca por tratamento alternativo caíram no mesmo número. É exatamente isso que um percentual único faz com a sua clínica.

Neste guia você vai ver:

  • Como contar o aceite parcial nas duas réguas, com fórmula e exemplo calculado
  • O que conta como "aceito" (e por que o status marcado depois de uma conversa boa infla a taxa)
  • Os 7 desfechos que um número único esconde, e a diferença entre aceite por fase e por alternativa mais barata
  • Quando o saldo vira perdido de verdade, e o que o CDC e o Código de Ética Odontológica dizem sobre orçamento, custos e alternativas
  • Por que o paciente aceita só parte, como montar o painel e como o CRC retoma o saldo

Resposta curta: aceite parcial é um terceiro estado, não fechado nem perdido

O erro começa no sistema. Se o seu software ou planilha só tem dois status para orçamento, aprovado ou reprovado, ele obriga a recepção a escolher um lado.

O aceite parcial não cabe em nenhum dos dois. Ele tem uma parte que virou tratamento e uma parte que ainda pode virar.

Há sistema brasileiro que já prevê o caso. A central de ajuda da Codental orienta que, quando o paciente não realiza todo o tratamento de uma vez ou prefere fazer em etapas, é possível aprovar apenas parte do orçamento: os procedimentos desmarcados ficam de fora e o sistema segue somente com os itens marcados. Registrar a aprovação parcial resolve o cadastro. Como ela entra na taxa é o que as réguas abaixo definem.

Veja como cada régua trata o mesmo paciente:

Régua Como o aceite parcial entra O que ela responde
Aceite por paciente Conta como aceite (o paciente aceitou ao menos um procedimento) Quantos pacientes avaliados viraram paciente em tratamento?
Aceite em valor Conta só o R$ aceito, sobre o R$ do plano inteiro apresentado Quanto do diagnóstico apresentado virou tratamento contratado?
Aceite integral Não conta (só entra quem aceitou o plano todo) Quantos planos completos você fecha de primeira?
Saldo em aberto A parte não aceita entra na carteira, com data de retomada Quanto ainda está na mesa para o CRC buscar?

Repare que nenhuma linha usa a palavra "perdido". Perdido é um desfecho que você declara com critério, não o lugar onde a sobra cai por padrão.

Lembre: a pergunta "fechado ou perdido?" está mal formulada. A pergunta certa é: quanto foi aceito, por quem, e qual é o plano para o resto?

As duas réguas: aceite por paciente e aceite em valor

A fórmula de base é a mesma nas duas: aceito ÷ apresentado × 100.

O que muda é a unidade.

  • Por paciente (contagem): pacientes que aceitaram ao menos um procedimento ÷ pacientes que receberam plano × 100.
  • Em valor (R$): soma do valor aceito ÷ soma do valor apresentado × 100.

A separação não é invenção desta conta. A central de ajuda da Dental Intelligence, ferramenta de indicadores usada com sistemas de consultório como o Open Dental, mede as duas coisas em separado: se 5 procedimentos foram adicionados ao plano do paciente e ele agendou 1, o aceite por paciente é de 100%; se esses 5 somavam US$ 1.000 e o agendado custava US$ 200, a aceitação do tratamento em valor é de 10%.

O erro clássico é misturar as duas no mesmo número. Por exemplo: contar o paciente como "fechado" (contagem) e somar o plano inteiro no faturamento previsto (valor).

Aí o relatório diz que você fechou um tratamento que o paciente não contratou.

Por que um número só mente

Taxa alta não significa diagnóstico tratado. Pense em dois dentistas da mesma clínica:

  • O primeiro apresenta só o que o paciente pediu: a restauração, a limpeza, a queixa principal. Quase todo mundo aceita, e a taxa por paciente fica alta.
  • O segundo apresenta o diagnóstico completo, inclusive a reabilitação que o paciente vai precisar. Menos gente aceita tudo, mas o valor tratado por paciente é muito maior.

Pela taxa por paciente, o primeiro parece melhor. Pela taxa em valor e pelo faturamento, o segundo é quem sustenta a clínica.

Por isso você precisa das duas réguas lado a lado. A por paciente mostra se a avaliação converte. A em valor mostra se o diagnóstico grande está sendo tratado ou só arquivado.

Se a sua equipe ainda não apresenta o diagnóstico completo, comece por como montar e apresentar o plano de tratamento completo.

O que conta como "aceito" na sua clínica

Antes de calcular qualquer taxa, defina o evento que faz um orçamento virar "aceito". Existem quatro candidatos, e cada um mede uma coisa diferente:

Definição de "aceito" O que comprova Risco
Concordância verbal ("vamos fazer") Intenção Infla a taxa: o paciente sai animado e não volta
Primeira sessão agendada Compromisso de agenda O paciente marca e falta, ou desmarca depois
Orçamento assinado com acordo financeiro (entrada, parcelamento ou financiamento aprovado) Contratação É o critério mais defensável para a taxa de aceite
Procedimento concluído Receita realizada Mede execução, não decisão, e chega com atraso

A recomendação prática: "aceito" é orçamento assinado, com a condição de pagamento definida e a primeira sessão na agenda. Concordância verbal entra como "em negociação", não como aceite.

Ferramentas de indicadores usam definições próprias. Na mesma central de ajuda da Dental Intelligence, um procedimento é considerado aceito quando o paciente o agenda ou quando ele é feito no mesmo dia, um critério próximo da segunda linha da tabela. Antes de comparar o seu número com o de um software ou relatório externo, confira qual definição ele usa.

O status marcado no sistema logo depois de uma conversa boa é o atalho que mais infla a taxa. O paciente disse "gostei, vou fazer", a recepção marcou aprovado, e ele nunca mais apareceu.

Esse caso tem causa e tratamento próprios: veja o paciente que aceitou o plano e sumiu.

Dica: escreva a definição de "aceito" num documento de uma página e mostre para todo mundo que mexe no status: dentistas, CRC e recepção. Se cada um usa um critério, a taxa mede o humor de quem preencheu.

E a regra mais importante: não mude a definição no meio do mês. Taxa calculada com dois critérios no mesmo período não compara com nada, nem com você mesmo.

Os 7 desfechos que um percentual único esconde

"Taxa de aceitação alta" pode esconder sete histórias diferentes. Separe cada uma no seu registro:

Desfecho O que aconteceu Por paciente Em valor O que fazer com o resto
1. Aceite total Aceitou o plano inteiro Aceite O plano inteiro Nada: executar
2. Aceite faseado Aceitou o mesmo plano, em etapas Aceite Só a fase contratada Saldo em aberto, retomar ao fim da fase
3. Só a queixa principal Tratou o que incomodava, deixou o resto Aceite Só a queixa Saldo em aberto, retomar no retorno
4. Alternativa mais barata Trocou o plano por outro de menor valor Aceite Só o valor da alternativa Diferença em linha própria, não é saldo de curto prazo
5. Adiamento "Vou pensar", sem recusa Não aceite (ainda) Zero Orçamento inteiro em aberto, com data
6. Recusa total Disse não, com motivo Não aceite Zero Perdido, com motivo registrado
7. Levou o plano para outra clínica Tratou em outro lugar Não aceite Zero Perdido, motivo "tratado fora"

Os desfechos 2, 3 e 4 são todos "aceite parcial". Mas pedem ações diferentes do CRC.

Mesmo a pesquisa acadêmica costuma juntar categorias. No estudo de Nagpur (Índia, 2016, 200 pacientes de prótese), os 82% somam quem recusou e quem aceitou um tratamento alternativo. Para a pergunta do estudo, faz sentido.

Para gerir a sua clínica, não: recusa e troca pedem respostas opostas.

Aceite por fase não é aceite por alternativa mais barata

Os dois parecem iguais no relatório. São negócios diferentes.

Aceite por fase: o paciente aceita o mesmo plano, mas parte o cronograma. Faz a periodontia e as restaurações agora e deixa a prótese para quando puder pagar. O diagnóstico continua de pé, e o saldo é recuperável porque o paciente já concordou com o plano.

Aceite por alternativa mais barata: o paciente troca o plano. Foi indicada uma prótese fixa e ele escolheu a removível. O tratamento acontece, mas o plano original foi rebaixado.

A substituição aparece quando o bolso aperta. No mesmo estudo indiano de 2016, cerca de 71,05% dos pacientes que alegaram gasto alto tinham indicação de prótese fixa e optaram pela removível, uma alternativa mais barata.

E isso num ambiente institucional em que, segundo os próprios autores, o preço da prótese já era menor do que nos centros odontológicos privados.

Na sua contagem, isso muda três coisas:

  1. O denominador não muda. O valor apresentado continua sendo o do plano original. Se você refaz o orçamento com a alternativa e usa o novo valor como "apresentado", a taxa em valor desse paciente vai ao máximo e esconde o rebaixamento.
  2. A diferença ganha uma linha própria. Ela não é saldo de retomada de curto prazo (o paciente escolheu outra solução) e também não é perdido (o tratamento aconteceu). É uma oportunidade de reabilitação futura, quando a removível pedir troca ou o paciente tiver outra condição.
  3. O motivo vai para o registro. Se a troca foi por preço, o gargalo pode estar na condição de pagamento, não no diagnóstico. Parcelamento e financiamento entram aqui como ferramenta, antes de rebaixar o plano.

O saldo em aberto: o que fazer com a parte que o paciente não aceitou

O que não foi aceito não é perdido. É orçamento remanescente, e precisa de quatro campos no registro:

  1. Valor do saldo, separado do valor aceito.
  2. Motivo declarado: custo, medo, não viu necessidade, quer fazer depois, decide com outra pessoa.
  3. Gatilho de retomada: fim da fase em curso, consulta de retorno ou uma data combinada com o paciente.
  4. Dono: quem do CRC vai retomar.

Sem esses campos, o saldo vira uma linha esquecida no sistema. Com eles, vira carteira.

Quando marcar como perdido de verdade

Perdido é decisão com critério, não abandono por esquecimento. Marque como perdido quando acontecer um destes:

  • Recusa explícita: o paciente disse que não vai fazer, e você registrou o motivo.
  • Tratamento feito em outro lugar: o paciente informou, ou o retorno mostrou.
  • Régua de retomada esgotada: o número de contatos e a janela de tempo que você definiu acabaram sem resposta.
  • Mudança clínica: o quadro mudou e o plano antigo não vale mais. Aqui o certo é nova avaliação, não retomar o orçamento velho.

Mesmo perdido, o paciente continua na base. Ele pode voltar mais adiante para outro tratamento, e o histórico do que foi recusado ajuda a próxima conversa. Para trazer de volta quem já tratou com você, veja como fazer o paciente voltar e fechar um novo tratamento.

O que o CDC diz sobre orçamento aprovado (e por que o aceite parcial pede orçamento próprio)

Aqui a contagem encontra a lei.

O art. 40 do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990) se dirige ao fornecedor de serviço: a clínica, como pessoa jurídica, e o profissional que presta o serviço. Ele diz três coisas que importam aqui:

  • Orçamento prévio discriminado: o fornecedor deve entregar orçamento discriminando o valor da mão de obra, dos materiais e equipamentos, as condições de pagamento e as datas de início e término dos serviços.
  • Validade: salvo estipulação em contrário, o valor orçado vale por dez dias, contados do recebimento pelo consumidor (§ 1º).
  • Vinculação: uma vez aprovado pelo consumidor, o orçamento obriga as partes e só pode ser alterado mediante livre negociação (§ 2º).

O que isso significa na prática para o aceite parcial?

  1. Documente o que foi aprovado. Se o paciente aprovou só a fase 1, o orçamento aprovado deve descrever a fase 1, com valor, condição de pagamento e datas. Um orçamento do plano inteiro "assinado" quando o paciente só contratou uma parte cria dúvida sobre o que obriga as partes.
  2. Trate o saldo como orçamento próprio, com validade escrita. Se você quer manter o preço do saldo por mais tempo do que a regra geral, estipule o prazo no documento. Sem estipulação, vale a regra geral, e a retomada depois do prazo pede orçamento atualizado.
  3. Mudou o plano, mudou o orçamento. A troca por alternativa mais barata é uma nova negociação. Gere um orçamento novo para a alternativa em vez de riscar itens do anterior.

Nota: isto é uma leitura de gestão do texto da lei, não um parecer jurídico. Valide o modelo de orçamento e de aditivo com o advogado da clínica.

Bônus de gestão: quando cada parte aprovada tem o seu documento, a taxa em valor se calcula sozinha. Valor aceito é o que está nos orçamentos assinados. Valor apresentado é o do plano original.

Fasear e oferecer alternativas é dever ético, não truque comercial

Tem dono de clínica que vê o plano faseado como desconto disfarçado ou concessão comercial. O Código de Ética Odontológica diz o contrário.

Pelo art. 11, IV do Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012), constitui infração ética "deixar de esclarecer adequadamente os propósitos, riscos, custos e alternativas do tratamento".

E isso não é assunto só do dentista. Pelo art. 1º, o Código regula os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos profissionais técnicos e auxiliares e das pessoas jurídicas que exerçam atividades na área da odontologia. A clínica, como empresa, está dentro.

Traduzindo para a contagem:

  • Apresentar custos e alternativas é obrigação. Logo, o aceite parcial e o aceite por alternativa são desfechos previstos de um atendimento correto, não falhas de venda.
  • O registro detalhado protege a clínica. O que foi apresentado, quais alternativas e o que o paciente escolheu mostram que ele decidiu informado.
  • Empurrar o plano inteiro de uma vez para "fechar a taxa" vai na contramão do que o Código pede.

Na prática: apresente o plano já dividido em fases

O aceite parcial fica muito mais fácil de gerir quando é planejado, não acidental. Na apresentação:

  • Ordene o plano por prioridade clínica: o que é urgente, o que é base para o resto e o que é reabilitação ou estética. A ordem é decisão do dentista, não do comercial.
  • Dê valor e prazo sugerido para cada fase. Assim o paciente aceita a fase 1 sabendo quando a fase 2 volta à conversa.
  • Mostre as alternativas por escrito, com o que cada uma resolve e o que deixa de resolver. É o esclarecimento que o art. 11, IV pede, e é o que torna o rebaixamento uma escolha consciente.

Feito assim, o saldo em aberto já nasce com gatilho de retomada.

Por que o paciente aceita só parte do plano

Se você vai registrar motivo, vale saber quais aparecem mais. A literatura é consistente: o custo do próprio bolso lidera.

Estudo País e ano Escopo O que achou
Revisão sistemática, BMC Oral Health 49 países, publicada em 2025 233 artigos sobre a decisão do paciente Pagamento do próprio bolso ficou em primeiro na frequência de códigos (151), seguido de medo odontológico (73), estética (64) e dor (61)
Shrirao e colegas, Journal of the Indian Prosthodontic Society Índia, publicado em 2016 200 pacientes de prótese de uma faculdade de odontologia Entre quem não aceitou o plano proposto: gasto alto (23,2%), medo do tratamento (17,1%), não ver necessidade (17,1%), dependência de terceiros (15,2%) e não querer o tratamento pré-protético (11%)
Canadian Health Measures Survey, BMC Oral Health Canadá, dados de 2007 a 2009 5.586 pessoas de 6 a 79 anos (amostra analisada) 16,5% relataram ter recusado tratamento odontológico recomendado por causa do custo
ADA Health Policy Institute EUA, dado de 2023 População dos EUA 13% relataram barreira de custo para cuidado odontológico, contra 4% a 5% em outros serviços de saúde

A mesma revisão de 2025 registra que pagamentos do próprio bolso levam pacientes a adiar ou cancelar consultas odontológicas. É o desfecho 5 da tabela de desfechos (adiamento), com causa conhecida.

No levantamento canadense, além dos 16,5% que recusaram tratamento recomendado pelo custo, cerca de 17,3% relataram evitar o dentista pelo mesmo motivo.

O que isso significa para a sua contagem?

Aceite parcial costuma ser decisão financeira, não rejeição do diagnóstico. Por isso o motivo "custo" abre duas frentes: condição de pagamento (parcelamento, financiamento) e faseamento planejado.

E não ignore os outros motivos:

  • Medo e "não vejo necessidade" pedem conversa clínica, não desconto.
  • Dependência de terceiros pede trazer para a conversa quem decide junto ou paga junto.
  • Recusa do tratamento preparatório pede explicar por que a base vem antes da reabilitação.

Por que no Brasil o aceite parcial é estrutural, não exceção

O contexto brasileiro empurra ainda mais para o aceite em partes.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019 do IBGE, 75,0% dos atendimentos odontológicos no país, em 2019, ocorreram em consultório particular ou clínica privada. As Unidades Básicas de Saúde responderam por 19,1%.

Com dados da mesma pesquisa (88.531 pessoas de 18 anos ou mais), Fagundes e colegas, na Revista Brasileira de Epidemiologia (2021), encontraram que 48,2% usaram serviço odontológico no último ano. Entre esses, 24,4% usaram serviço público e 60,1% pagaram pela consulta.

Junte as duas coisas: atendimento majoritariamente privado e pago do bolso, e o custo como primeiro fator de decisão na literatura. O resultado é previsível: plano grande vira plano em partes.

Para a clínica de alto ticket, isso muda o planejamento comercial.

A carteira de saldos em aberto não é sobra. É uma parte previsível do faturamento dos próximos meses, se alguém for buscar.

Aceite não é receita: a distância entre aceitar e concluir

Mesmo o aceite total não garante que o tratamento termine.

Um estudo com 775 prontuários de pacientes atendidos entre 2017 e 2023 numa clínica-escola do Centro Universitário FIS (UNIFIS), em Serra Talhada (PE), mostrou conclusão do tratamento proposto em 69% (535) deles, segundo artigo de Lima e colegas em periódico da Universidade Federal Fluminense.

É uma clínica-escola, não uma clínica privada, então o número não é régua para você. Mas o recado vale: entre "aceitei" e "terminei" existe um trecho em que o paciente se perde.

O mesmo estudo identificou fatores associados a não concluir o tratamento: ter 26 anos ou mais, ser do sexo masculino, estar com tratamento médico em curso e precisar de cirurgia ou de tratamento endodôntico.

Repare no último item. Nessa clínica-escola, precisar de cirurgia ou de endodontia, justamente os casos mais complexos, esteve associado a deixar o tratamento pela metade.

Por isso, o painel completo acompanha três momentos:

  • Aceite (por paciente e em valor): o paciente decidiu.
  • Início: a primeira sessão aconteceu.
  • Conclusão por fase: cada fase contratada terminou.

Fase concluída também é o melhor gatilho para apresentar a próxima fase do plano.

Benchmarks de aceitação: por que a régua americana não serve para a sua clínica

Você vai encontrar percentuais "de mercado" para taxa de aceitação, quase sempre dos Estados Unidos. Use com muito cuidado.

Um dos mais citados vem do levantamento Dental Economics/Levin Group de 2016, com análise publicada na DentistryIQ: os dentistas dos EUA conseguiam que o paciente seguisse com o tratamento em 61% das vezes, com dados de 2015 e 2016.

O próprio artigo avisa que esse número inclui tratamento de cárie, que costuma ficar entre 95% e 100% de aceitação.

Três motivos para não usar essa régua direto:

  1. Definição diferente. Cada levantamento decide o que é "aceito" e o que entra no denominador. Se a cárie entra, a taxa sobe; se só entram casos grandes, cai. Sem a definição, o número não compara.
  2. Mercado diferente. O paciente americano decide com outra combinação de plano odontológico e pagamento. O brasileiro, como mostra a PNS 2019, é atendido majoritariamente no privado e paga do bolso.
  3. Base diferente. Boa parte dos números que circulam vem de fornecedores de software medindo a própria carteira de clientes, muitas vezes redes com várias unidades. Não é amostra da clínica brasileira de alto ticket.

O benchmark mais honesto é a sua própria série histórica, separada por profissional, com a mesma definição todo mês. Aprofunde em qual a taxa de aceitação de orçamento ideal e como saber se a sua está baixa.

Como montar o painel de aceitação (colunas, fórmulas e cortes)

Agora a parte prática. Um painel que trata o aceite parcial do jeito certo tem uma linha por plano apresentado e estas colunas:

Coluna O que registrar
Data da apresentação Dia em que o plano foi apresentado
Profissional Quem apresentou o diagnóstico
CRC Quem conduziu a negociação
Paciente novo ou da casa Primeira avaliação ou paciente que já tratou com você
Procedimento principal Implante, prótese, ortodontia, estética, clínica geral
Valor apresentado (R$) O plano completo, como foi indicado
Valor aceito (R$) Soma dos orçamentos assinados
Desfecho Um dos 7 da tabela de desfechos
Saldo em aberto (R$) O que ficou para depois, quando há retomada prevista
Diferença por alternativa (R$) Quando o paciente trocou por opção mais barata
Motivo Custo, medo, não viu necessidade, decide com outra pessoa, outro
Gatilho e data de retomada Fim de fase, retorno ou data combinada
Status de execução Iniciado, fase concluída, plano concluído

Com isso, as fórmulas saem direto:

  • Aceite por paciente = planos com desfecho 1, 2, 3 ou 4 ÷ total de planos × 100
  • Aceite em valor = soma do valor aceito ÷ soma do valor apresentado × 100
  • Aceite integral = planos com desfecho 1 ÷ total de planos × 100
  • Saldo em aberto = soma do saldo dos desfechos 2, 3 e 5
  • Conclusão = planos concluídos ÷ planos aceitos × 100

Exemplo hipotético calculado

Os números abaixo são ilustrativos, só para mostrar a conta. Não são benchmark nem dado de clínica real.

Exemplo: suponha que, num mês, a clínica apresentou 10 planos, somando R$ 200.000.

Paciente Desfecho Apresentado Aceito Saldo em aberto Diferença por alternativa Perdido
A Aceite total R$ 15.000 R$ 15.000 - - -
B Aceite total R$ 8.000 R$ 8.000 - - -
C Aceite total R$ 12.000 R$ 12.000 - - -
D Aceite faseado R$ 40.000 R$ 10.000 R$ 30.000 - -
E Aceite faseado R$ 30.000 R$ 12.000 R$ 18.000 - -
F Só a queixa principal R$ 20.000 R$ 2.000 R$ 18.000 - -
G Alternativa mais barata R$ 35.000 R$ 9.000 - R$ 26.000 -
H Adiamento R$ 10.000 - R$ 10.000 - -
I Recusa total R$ 12.000 - - - R$ 12.000
J Tratou em outra clínica R$ 18.000 - - - R$ 18.000
Total R$ 200.000 R$ 68.000 R$ 76.000 R$ 26.000 R$ 30.000

No exemplo, as réguas ficam assim:

  • Aceite por paciente: 7 de 10, ou 70%
  • Aceite em valor: R$ 68.000 ÷ R$ 200.000, ou 34%
  • Aceite integral: 3 de 10, ou 30%
  • Saldo em aberto para o CRC: R$ 76.000

Agora veja o que cada erro faria com esse mesmo mês hipotético:

  • Contar parcial como fechado: o relatório mostra 70% de "fechamento" e ninguém enxerga os R$ 76.000 de saldo nem os R$ 26.000 de rebaixamento.
  • Contar parcial como perdido: a taxa cai para 30%, o time conclui que "ninguém fecha", e os pacientes D, E e F nunca recebem a ligação da fase seguinte.
  • Refazer o denominador da alternativa: se o plano de G entra como R$ 9.000 apresentado, o total apresentado cai para R$ 174.000 e a taxa em valor sobe para cerca de 39%, escondendo a troca.

O número que mais importa para o caixa dos próximos meses não é nenhuma das taxas. É o saldo em aberto, com dono e data.

Cortes que mostram onde agir

Depois das colunas, corte o painel por:

  • Profissional: taxa por paciente alta com taxa em valor baixa sugere pouco diagnóstico apresentado. O inverso pode indicar apresentação que assusta ou que não oferece fases.
  • CRC: quem converte saldo em aberto em fase seguinte.
  • Faixa de valor do orçamento: veja se o aceite cai nos orçamentos maiores. Se cair muito, o gargalo provável é condição de pagamento ou faseamento.
  • Procedimento principal: implante, prótese e ortodontia têm dinâmicas próprias de aceite e de fase.
  • Paciente novo ou da casa: quem já confia na clínica pode decidir de outro jeito. Meça separado para não misturar efeitos.

Régua de retomada do saldo em aberto pelo CRC

Saldo sem régua de retomada vira perdido por omissão. Monte a régua com gatilhos, não com lembrete solto:

  1. Fim de fase. Na consulta em que a fase 1 termina, o dentista mostra o que foi resolvido e o que falta. O paciente acabou de ver o resultado da clínica. Apresente a fase 2 ali, com nova condição de pagamento se for o caso.
  2. Consulta de retorno ou manutenção. O paciente que tratou só a queixa principal volta para revisão. O dentista reavalia, atualiza o diagnóstico e o CRC reapresenta o saldo.
  3. Data combinada. Quando o paciente diz "depois", pergunte quando. Registre a data que ele mesmo deu e retome nela.
  4. Vencimento da validade. Antes de vencer o prazo do orçamento do saldo, o CRC faz contato: confirma o interesse ou atualiza o orçamento.
  5. Mudança de condição. Nova opção de parcelamento ou financiamento é motivo legítimo para retomar quem parou por custo.

Na conversa de retomada, comece pelo problema clínico, não pelo preço. "O doutor quer reavaliar a região que ficou para depois" abre mais porta do que "ainda tem interesse no orçamento?".

Defina a cadência e o número de tentativas antes de começar, e só marque como perdido quando a régua se esgotar. É o que separa "perdido" de "esquecido".

Onde o aceite parcial entra no funil inteiro da clínica

A taxa de aceitação é só uma etapa. O funil completo do paciente de alto ticket fica assim:

lead → agendamento → comparecimento → avaliação e plano apresentado → aceite (total, parcial ou nenhum) → início → conclusão por fase

Antes do orçamento, o volume já afunila bastante. Segundo dados internos da Odonto Results, no funil completo (IA, equipe e telefone) 20% a 40% dos leads viram agendamento e 20% a 50% dos agendados comparecem. É uma faixa da operação, não uma medição de recorte datado: o fechamento por ligação não fica registrado na conversa.

Ou seja: cada plano apresentado já custou captação, atendimento e uma avaliação na cadeira. Contar errado na etapa do aceite distorce a conta que decide a verba de marketing, o custo por tratamento contratado.

Se você conta aceite parcial como fechado, o custo por tratamento parece menor do que é. Se conta como perdido, parece que o marketing traz paciente que não fecha, e você corta o canal errado.

Lembre: o marketing leva o paciente até a cadeira. O que acontece depois (aceite, fase e retomada) precisa ser medido com a mesma régua todo mês, ou você vai culpar a etapa errada.

Erros que distorcem a taxa de aceitação

Os erros a evitar, em ordem de estrago:

  1. Contar aceite parcial como fechado. Infla a taxa e apaga o saldo do relatório.
  2. Contar aceite parcial como perdido. Derruba a taxa e joga fora a carteira de retomada.
  3. Misturar contagem com valor. Paciente "fechado" na contagem com o plano inteiro somado no faturamento previsto.
  4. Marcar "aceito" na concordância verbal. A taxa passa a medir entusiasmo, não contratação.
  5. Refazer o denominador quando o paciente troca por alternativa. A taxa em valor sobe e o rebaixamento some.
  6. Mudar a regra no meio do mês. O número deixa de comparar com qualquer coisa.
  7. Comparar com benchmark americano. Definição, mercado e base diferentes.
  8. Não separar por profissional. A média da clínica esconde quem apresenta pouco diagnóstico e quem apresenta bem.

Seu próximo passo

  1. Escreva a definição de "aceito" e os 7 desfechos. Uma página, distribuída para dentistas, CRC e recepção, valendo a partir do primeiro dia do próximo mês.
  2. Abra as duas réguas e o saldo no painel. Aceite por paciente, aceite em valor e saldo em aberto com dono e data. Refaça o último mês com essa regra para ter o ponto de partida.
  3. Ligue a régua de retomada. Fim de fase, retorno e data combinada como gatilhos, com o CRC responsável e critério claro para declarar perdido.

Quer que o paciente chegue à avaliação com previsibilidade e que a sua clínica meça do anúncio ao tratamento contratado? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Aceite parcial entra na meta de fechamento do CRC?

Entra, mas não como fechamento cheio. A meta do CRC deve ter duas réguas, aceite por paciente e aceite em valor, mais a conversão do saldo em aberto em fase seguinte. Assim o CRC responde por trazer o paciente para o tratamento e também por recuperar o que ficou para depois.

Por quanto tempo vale o orçamento do saldo que o paciente não aceitou?

Salvo estipulação em contrário, o valor orçado vale por dez dias a partir do recebimento, pelo art. 40, § 1º, do Código de Defesa do Consumidor, regra dirigida ao fornecedor do serviço (a clínica e o profissional). Se você quer segurar o preço do saldo por mais tempo, escreva o prazo no orçamento. Depois da validade, a retomada pede orçamento atualizado.

Como contar quando o paciente troca o plano por uma alternativa mais barata?

Mantenha o plano original como valor apresentado e registre o valor da alternativa como aceito. A diferença vai para uma linha própria, que não é saldo de retomada nem perdido. Se você usar o plano mais barato como denominador, a taxa em valor sobe e o rebaixamento desaparece do relatório.

E se o paciente fizer a segunda fase em outra clínica?

Aí o saldo vira perdido, com o motivo "tratado em outro lugar" registrado. Acompanhe com que frequência isso acontece: se cresce, o problema pode estar no intervalo entre as fases, na condição de pagamento ou na retomada do CRC, não no diagnóstico.

Qual taxa de aceitação devo usar como referência?

A sua própria, medida sempre com a mesma definição. Benchmarks americanos usam outras definições: o levantamento Dental Economics/Levin Group de 2016 apontou 61% de aceitação nos EUA, mas incluindo tratamento de cárie, que costuma ficar entre 95% e 100% de aceitação. Compare a clínica com ela mesma, mês a mês e por profissional.

Orçamento aprovado pode ser alterado depois?

Só por livre negociação entre as partes. Pelo art. 40, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, que se dirige ao fornecedor do serviço, o orçamento aprovado pelo consumidor obriga os contraentes. Por isso, quando o paciente aprova só uma parte do plano, documente essa parte num orçamento próprio e trate o saldo e qualquer troca por alternativa como nova negociação.