Na pesquisa de NPS automatizada da clínica, o que fazer com o paciente que deu nota 7 ou 8 e não é nem promotor nem detrator?
O paciente que dá 7 ou 8 no NPS não entra na conta do score e, segundo o Net Promoter System da Bain, tem taxas de recompra e de indicação até 50% menores que as do promotor. Veja o fluxo automatizado próprio para o neutro na clínica odontológica: pergunta aberta de diagnóstico, os três tipos de neutro, quem responde, modelos de mensagem, o que o Google proíbe e o que medir.
Dê ao 7 e ao 8 um fluxo próprio de diagnóstico: uma pergunta aberta ("o que faltou para ser 10?"), motivo categorizado e levado a quem gerou a experiência, porque o neutro tem taxas de recompra e indicação até 50% menores que as do promotor (Bain).
- Pela régua da Bain & Company, onde o NPS nasceu, 9 e 10 são promotores, 7 e 8 são neutros e 0 a 6 são detratores, e o score é só a porcentagem de promotores menos a de detratores: o neutro some da conta, mas o site oficial do Net Promoter System diz que as taxas de recompra e de indicação dele chegam a ser até 50% menores que as do promotor.
- Na régua odontológica publicada, 7 ou 8 fica abaixo da média: no estudo do British Dental Journal (Busby et al., 2015) com 64 consultórios do Reino Unido, os consultórios próximos da média tinham NPS entre 80 e 89, e o atributo que mais separou NPS baixo de NPS alto foi o valor percebido pelo dinheiro.
- O neutro pede pergunta aberta, não pedido de desculpas: na revisão sistemática da Health Expectations (Adams et al., 2022, 12 estudos sobre NPS em saúde), o campo de comentário livre foi visto positivamente por pacientes e equipe em 4 dos 12 estudos, e a política do Google proíbe solicitar avaliações positivas de forma seletiva (convidar só o 9 e o 10).
Faz parte do guia: O que é uma IA de atendimento para clínica odontológica e como ela funciona?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- O que é o paciente neutro no NPS (e por que ele some da conta)
- Por que 7 ou 8 não é "nota boa": o satisfeito por enquanto
- Na régua odontológica publicada, 7 ou 8 fica abaixo da média
- Os três tipos de neutro da clínica odontológica
- O fluxo automatizado do 7 e do 8, passo a passo
- Linguagem de oportunidade, não de recuperação: modelos de mensagem
- Quem responde ao neutro e como fechar o loop com a equipe
- Quando disparar a pesquisa e quando repetir com o mesmo paciente
- O que o Google proíbe: filtrar o convite de avaliação pela nota e dar brinde
- Não transforme o neutro em meta de bônus da CRC
- O que o NPS não resolve sozinho em saúde (e por que o campo aberto vale mais)
- A conta do dono: quanto custa deixar o neutro sumir
- Como medir se o fluxo do neutro está funcionando
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Na pesquisa de NPS automatizada da clínica, o que fazer com o paciente que deu nota 7 ou 8 e não é nem promotor nem detrator?"
Você automatizou o NPS. O detrator vira alerta, o promotor vira pedido de indicação.
E o 7 e o 8?
Se no seu fluxo eles recebem só um "obrigado pela resposta", eles somem. Não reclamam, não indicam com entusiasmo e nem aparecem no score.
A resposta direta: o 7 e o 8 precisam de um fluxo próprio, de diagnóstico. Uma pergunta aberta ("o que faltou para ser 10?"), o motivo categorizado, alguém da equipe dono da ação e uma nova pesquisa no próximo marco do tratamento.
O motivo é econômico. Segundo o site oficial do Net Promoter System, da Bain & Company, as taxas de recompra e de indicação do neutro chegam a ser até 50% menores que as do promotor.
Neste guia você vai ver:
- O que é o neutro na régua oficial e por que ele some da conta do NPS
- Por que, na régua odontológica publicada, 7 ou 8 fica abaixo da média e não é "nota boa"
- Os três tipos de neutro da clínica e o que cada um pede
- O fluxo automatizado completo, com modelos de mensagem e quem responde
- O que o Google proíbe, o erro do bônus da CRC e o que medir
O que é o paciente neutro no NPS (e por que ele some da conta)
Na definição da Bain & Company, onde o NPS foi criado, a pergunta "de 0 a 10, quanto você recomendaria" separa três grupos:
- Promotores: notas 9 ou 10
- Neutros (passives): notas 7 e 8
- Detratores: notas 0 a 6
E a conta, nas palavras da própria Bain, é "simplesmente" a porcentagem de promotores menos a porcentagem de detratores.
Repare no detalhe: o neutro não soma nem subtrai. Ele só entra no total de respostas.
Veja o que isso esconde. Exemplo hipotético, duas clínicas com 100 respostas cada:
| Exemplo hipotético | Clínica A | Clínica B |
|---|---|---|
| Promotores (9 e 10) | 60 | 45 |
| Neutros (7 e 8) | 20 | 50 |
| Detratores (0 a 6) | 20 | 5 |
| NPS | 40 | 40 |
O mesmo score. Mas na clínica B metade da base está "satisfeita por enquanto", e o painel não acende nenhum alerta.
Por isso a primeira regra do fluxo do neutro é olhar a distribuição das notas, não só o número final.
Por que 7 ou 8 não é "nota boa": o satisfeito por enquanto
É tentador ler 8 como aprovação. A Bain lê como risco.
O Net Promoter System chama esse grupo de "passivamente satisfeito", porque ele está satisfeito "por enquanto". E descreve o comportamento sem rodeio:
- As taxas de recompra e de indicação chegam a ser até 50% menores que as dos promotores.
- Quando indicam, as indicações tendem a vir com ressalvas e menos entusiasmadas.
- Se o anúncio de um concorrente chamar a atenção dele, ele pode ir embora.
A própria Bain voltou ao tema num artigo sobre churn. Em Breaking the Back of Customer Churn (Springer, Kim, Azzarello e Melton, fevereiro de 2014), os autores registram que muitos clientes que vão embora tinham sido classificados antes como satisfeitos, e que quem se diz satisfeito pode ser um neutro facilmente atraído pela concorrência.
O que isso significa na prática da clínica?
O neutro não tem motivo forte para reclamar, então não reclama. Também não tem motivo forte para indicar com entusiasmo. Na prática, ele pode fazer a manutenção com você e o implante com a clínica que apareceu no feed dele.
Esse é o paciente que some em silêncio.
Na régua odontológica publicada, 7 ou 8 fica abaixo da média
Numa escala de 0 a 10, 8 parece nota alta. Em saúde, e em odontologia especialmente, a régua publicada é bem mais exigente.
Odontologia. O estudo do British Dental Journal (Busby et al., 2015) analisou 64 consultórios odontológicos do Reino Unido que usavam a mesma pesquisa de pacientes (Denplan Excel Patient Survey). Os consultórios próximos da média tinham NPS entre 80 e 89.
Faça a conta com a fórmula da Bain. Exemplo: para um consultório chegar a NPS 80, promotores menos detratores precisam dar 80, então pelo menos 80% das respostas têm de ser 9 ou 10. Num consultório "médio" daquele estudo, o 7 e o 8 são resposta de minoria.
Hospitais. A pesquisa oficial de experiência hospitalar dos EUA, a HCAHPS, do CMS, classifica a resposta "7 ou 8" na nota geral do hospital como "medium" (meio da escala). O top-box, a faixa de cima, é só 9 ou 10.
No relatório público de julho de 2026 (altas de outubro de 2024 a setembro de 2025, 3.949 hospitais dos EUA), na média dos hospitais, 72% dos pacientes deram 9 ou 10 na nota geral do hospital.
| Régua | Como trata o 7 e o 8 | Referência de "normal" | Escopo |
|---|---|---|---|
| Net Promoter System (Bain) | Neutro, fora da conta | Não fixa um valor | Régua geral de NPS |
| HCAHPS (CMS) | "Medium", abaixo do top-box | Média de 72% de notas 9 ou 10 entre os hospitais (relatório de julho de 2026) | Hospitais dos EUA |
| British Dental Journal (2015) | Não classifica a nota individual | Consultórios próximos da média com NPS entre 80 e 89 | 64 consultórios odontológicos do Reino Unido |
Uma ressalva honesta: nenhuma dessas réguas é brasileira. Este guia não usa média de NPS de clínica brasileira porque não encontramos fonte primária pública que a sustente. E a revisão sistemática da Health Expectations (Adams et al., 2022) lembra que normas culturais mudam a leitura da nota: em algumas culturas um 8 é considerado muito bom, mas o NPS o classifica como neutro.
Lembre: numa clínica odontológica, trate o 8 como sinal, não como "quase 10". Muitas vezes é o paciente dizendo, com educação, que alguma coisa ficou abaixo do que ele esperava. O fluxo do neutro existe para descobrir o quê.
Os três tipos de neutro da clínica odontológica
A nota não diz por que o paciente parou no 8. A resposta aberta diz. E, na clínica odontológica, em geral ela cai numa de três famílias.
1. O neutro de valor percebido (preço x entrega)
É o paciente que achou o atendimento bom, mas não sentiu que valeu o que pagou.
O mesmo estudo do British Dental Journal mostra por que esse é o neutro mais importante. Entre os dez atributos de qualidade percebida da pesquisa, a maior diferença entre os consultórios de NPS abaixo de 80 e os de NPS acima de 89 estava no valor percebido pelo dinheiro.
E a conclusão dos autores: a percepção de valor "ideal" pelo dinheiro é o aspecto mais correlacionado a um NPS alto.
Sinais na resposta: "achei caro", "pensei que estava incluso", "não entendi o orçamento".
A ação certa não é desconto. É explicar o que está incluído, deixar a forma de pagamento clara e revisar como o plano é apresentado. Se o problema de preço vier de um paciente de tratamento caro que já deu nota baixa, o caminho é outro: veja o que fazer com o detrator por preço em clínica de alto ticket.
2. O neutro de atrito operacional (espera, recepção, agenda)
O tratamento foi bom. O caminho até ele, não.
Sinais na resposta: "esperei muito", "difícil remarcar", "ninguém me retornou", "a recepção estava confusa".
Esse neutro é o mais fácil de resolver e o mais fácil de ignorar, porque a nota não separa o dentista da recepção. Se a sua automação ainda mistura as duas coisas, veja como separar a nota do dentista da nota da recepção.
3. O neutro de expectativa clínica (resultado x o que ele imaginava)
É o caso mais traiçoeiro: o resultado clínico pode estar ótimo e a nota parar no 7.
A literatura fora da odontologia mostra bem o padrão. Um estudo retrospectivo no Journal of Patient-Reported Outcomes (2026), numa prática cirúrgica privada dos EUA (pesquisas de 2021 a 2024), encontrou NPS geral de 88,2 (400 promotores, 26 neutros e 13 detratores em 439 respostas).
Mas os pacientes de prótese total de joelho ficaram com NPS 71 (n = 14), enquanto os outros três procedimentos analisados chegaram a NPS 100. Os autores escrevem que a discrepância pode indicar desalinhamento entre o resultado clínico e a expectativa do paciente, e reforçam a importância de gerenciar a expectativa da recuperação em procedimentos mais complexos.
Outro estudo, no BMC Musculoskeletal Disorders (2023), acompanhou 1.243 pacientes de artroplastia de quadril num único centro na Alemanha. Aos 12 meses da cirurgia primária, 75,4% foram promotores e 8,9% detratores na pergunta A do estudo, e os promotores sempre tiveram desfecho reportado pelo paciente significativamente melhor que os detratores.
Os dois estudos são de ortopedia, não de odontologia. A lição transfere: a nota acompanha o resultado que o paciente percebe, não o que o dentista mede.
Em implante, protocolo, ortodontia e lente, o 7 pode esconder frases como "achei que ia ficar mais branco", "não sabia que doía tanto depois" ou "pensei que terminava antes".
Resumo dos três neutros
| Tipo de neutro | Frase típica na resposta aberta | Quem resolve | Ação certa | Ação errada |
|---|---|---|---|---|
| Valor percebido | "Achei caro", "não entendi o orçamento" | CRC e gestor | Explicar o que está incluso, revisar a apresentação do plano | Dar desconto pela nota |
| Atrito operacional | "Esperei muito", "difícil remarcar" | Recepção e gestor | Corrigir o processo e contar ao paciente o que mudou | Pedir desculpas genéricas |
| Expectativa clínica | "Achei que ia ficar diferente" | Dentista responsável | Conversa clínica sobre a fase do tratamento e o que esperar | CRC responder sobre assunto clínico |
O fluxo automatizado do 7 e do 8, passo a passo
O erro de desenho que apaga o neutro é tratar a pesquisa como dois caminhos (bom e ruim). Ela precisa de três.
| Faixa | Objetivo do fluxo | Primeira mensagem | Quem age |
|---|---|---|---|
| 0 a 6 (detrator) | Recuperar | Reconhecer o problema e abrir contato humano | Gestor ou responsável pelo setor |
| 7 e 8 (neutro) | Diagnosticar | Pergunta aberta: "o que faltou para ser 10?" | O dono do motivo |
| 9 e 10 (promotor) | Ativar indicação | Agradecer e convidar a indicar | Automação, com apoio da CRC |
O convite para avaliar no Google fica fora dessa tabela de propósito: ele vai igual para todo paciente atendido, independente da nota (a regra está mais abaixo, na seção sobre o Google). O fluxo do detrator, com o alerta para a equipe agir antes da avaliação pública, está em como automatizar a coleta de NPS e interceptar o insatisfeito.
Veja como fica o ramo do neutro:
- Ramifique pela nota. Resposta 7 ou 8 cai num ramo próprio, nunca no "obrigado" genérico do fim da pesquisa.
- Faça uma pergunta aberta, uma só, na hora. "Obrigado pela nota. Uma pergunta só: o que faltou para ela ser 10?" Nada de segundo questionário longo.
- Categorize o motivo automaticamente. A IA lê a resposta e marca a família: valor percebido, atrito operacional, expectativa clínica ou "sem motivo acionável" (o paciente que diz "eu nunca dou 10").
- Roteie para quem gerou a experiência. Valor vai para CRC e gestor, operação para recepção e gestor, expectativa clínica para o dentista responsável.
- Responda com o que muda. Um humano agradece, diz o que vai ser feito e, quando for clínico, o dentista conversa sobre a fase do tratamento. Sem desconto e sem roteiro de desculpas.
- Agende a repesquisa no próximo marco. O neutro recebe a pergunta de novo no fim da fase, na entrega ou na manutenção seguinte.
Mas tem um detalhe: o passo 2 tem que acontecer enquanto a experiência está fresca. A mesma IA que já conversa com o paciente no WhatsApp pode fazer a pergunta aberta no instante em que a nota chega, sem esperar a recepção ter tempo.
Privacidade e saída da conversa (LGPD)
Continuar conversando com o neutro é tratar dado pessoal, e a resposta dele pode falar de saúde.
A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) classifica o dado referente à saúde como dado pessoal sensível, e quem responde pelo tratamento é a clínica, como controladora (a pessoa jurídica que decide como o dado é usado).
Na prática do fluxo:
- Use a resposta só para o que ela foi pedida (melhorar o atendimento daquele paciente e da clínica).
- Deixe uma saída simples na conversa: quem não quer mais mensagens precisa conseguir parar com uma resposta curta.
- Não insista. Se o neutro não respondeu à pergunta aberta, registre e siga.
Linguagem de oportunidade, não de recuperação: modelos de mensagem
O neutro não reclamou. Se você responde como se ele tivesse reclamado, ele se sente processado.
| Linguagem de recuperação (detrator) | Linguagem de oportunidade (neutro) | |
|---|---|---|
| Tom | "Sentimos muito pelo ocorrido" | "Obrigado, sua opinião pesa" |
| Pergunta | "O que deu errado?" | "O que faltou para ser 10?" |
| Promessa | Resolver o problema | Mostrar o que vai melhorar |
| Canal | Contato humano rápido | Mesma conversa da pesquisa |
A mensagem também muda conforme o paciente. A American Dental Association orienta customizar a pesquisa pela experiência do paciente: um paciente novo deve receber perguntas diferentes das de quem veio para uma limpeza de rotina.
É assim que fica para o neutro:
Primeira consulta. "Obrigado pela nota, [nome]. Como foi a sua primeira vez aqui, sua opinião vale muito para a gente: o que faltou para essa experiência ser nota 10?"
Manutenção ou limpeza (paciente antigo). "Você já nos conhece, [nome], então sabe comparar. O que poderia ter sido melhor hoje para virar um 10?"
Tratamento de alto ticket em andamento (implante, protocolo, ortodontia). "Sabemos que o tratamento ainda está no meio do caminho. Até aqui, o que faltou para ser 10: algo no atendimento, na explicação do plano ou no que você esperava sentir nesta fase?"
Repare nestes pontos do que não escrever:
- "Sentimos muito" ou "o que fizemos de errado?" (trata elogio morno como crise)
- Oferta de desconto, brinde ou cortesia ligada à nota
- Pedido de avaliação no Google na mesma mensagem da pergunta aberta
- Segunda pesquisa longa logo depois da primeira
Quem responde ao neutro e como fechar o loop com a equipe
A automação faz a pergunta. Quem age é gente.
A Bain define fechar o loop como compartilhar o feedback do cliente, o mais rápido possível depois de recebê-lo, com os funcionários mais responsáveis por criar a experiência daquele cliente.
Traduzindo para a clínica: a CRC não deve responder sozinha a todo neutro. O comentário vai para quem gerou a experiência.
| Motivo do neutro | Quem recebe o alerta | Quem responde ao paciente | O que vai para a reunião da equipe |
|---|---|---|---|
| Valor percebido | Gestor e CRC | CRC | Como o orçamento e as condições estão sendo apresentados |
| Atrito operacional | Gestor | Recepção ou gestor | Gargalo de agenda, espera, retorno |
| Expectativa clínica | Dentista responsável | Dentista | Como a expectativa é alinhada antes do procedimento |
| Sem motivo acionável | Ninguém (só registro) | Agradecimento automático | Nada |
E o consolidado? A ADA recomenda designar uma pessoa da equipe para compilar e compartilhar os resultados da pesquisa com o dono e com o time inteiro, e usar essa informação numa discussão sobre como melhorar processos e comunicação.
Um ritual simples resolve: uma reunião curta e fixa em que a pessoa responsável traz os motivos dos neutros do período, agrupados nas três famílias, e a equipe decide uma correção por família.
Quando disparar a pesquisa e quando repetir com o mesmo paciente
Pesquisa enviada dias depois mede memória, não experiência.
Um estudo no Western Journal of Emergency Medicine (2025), num pronto-socorro de hospital comunitário dos EUA, registrou a diferença entre dois jeitos de coletar: a pesquisa feita presencialmente na alta teve 50,1% de resposta (313 de 625 pacientes abordados), contra 3,14% da pesquisa enviada pelo correio (266 respostas sobre 8.460 altas no mesmo período), que fica sujeita a viés de recordação. As bases não são iguais: a presencial abordou uma amostra de conveniência, e os próprios autores tratam o estudo como gerador de hipótese.
O cenário é de pronto-socorro, não de clínica. Mas a lição é a mesma: quanto mais perto do atendimento, mais resposta e menos distorção. Na clínica, a mensagem no WhatsApp logo depois da consulta é o equivalente mais próximo da coleta na saída.
Duas exceções pedem calma:
- Pós-cirúrgico: depois de extração, enxerto ou implante, a dor do dia pode contaminar a nota. Espere o paciente sair da fase aguda.
- Tratamento longo: em ortodontia e reabilitação, pesquise por marco (início, meio, entrega), não só no fim.
E a repesquisa do neutro? Ela é o teste da ação. O paciente que deu 7 recebe a pergunta de novo no próximo marco do tratamento. Se ele migrou para 9 ou 10, a correção funcionou para ele. Se continua no 7, o motivo não foi resolvido, ou foi resolvido sem ele saber.
Isso vale mais do que comparar o seu NPS com uma média de mercado, como explica a seção sobre os limites do NPS em saúde.
O que o Google proíbe: filtrar o convite de avaliação pela nota e dar brinde
Aqui mora um atalho tentador: mandar o link de avaliação do Google só para quem deu 9 ou 10.
A política de conteúdo do Google para avaliações, que vale para o estabelecimento que pede avaliação aos próprios clientes (a clínica), proíbe:
- Desencorajar ou proibir avaliações negativas, ou solicitar avaliações positivas de forma seletiva aos clientes.
- Oferecer incentivos, como pagamento, descontos, produtos ou serviços gratuitos, em troca de publicar uma avaliação, ou de revisar ou remover uma avaliação negativa.
Pedir avaliação ao 9 e ao 10 e esconder o convite do 7 e do 8 é exatamente solicitar avaliações positivas de forma seletiva.
O desenho correto separa as duas coisas:
- O NPS é diagnóstico interno. A nota decide qual pergunta o paciente recebe, não se ele pode avaliar.
- O convite para avaliar é universal. Uma mensagem padrão para todo paciente atendido, ou para ninguém. O neutro também recebe.
- Nada em troca. Nenhum desconto, brinde ou cortesia ligado a nota ou avaliação.
Não transforme o neutro em meta de bônus da CRC
Parece lógico: "converter neutro em promotor" vira meta, e a equipe ganha por isso. É o jeito mais rápido de estragar o dado.
A reportagem da Fortune sobre o NPS (Geoff Colvin, 2020), que registra que pelo menos dois terços da Fortune 1000 usam a métrica, traz o alerta de Nacho Deschamps, executivo do Scotiabank: se você quer uma implementação ruim de NPS, comece incentivando as notas. E a reportagem completa: quando a remuneração está em jogo, os funcionários conseguem ser "maravilhosamente criativos".
Na clínica, a criatividade tem cara conhecida: "se puder, dá um 10 pra gente, tá?". O 7 vira 9 sem nada mudar, e você perde exatamente o paciente que o fluxo existia para encontrar.
Se quiser premiar a equipe, premie o processo, não a nota: neutros com motivo categorizado, loops fechados, correções implantadas. O risco do lado do dentista está em como o NPS automatizado influencia o bônus do dentista.
O que o NPS não resolve sozinho em saúde (e por que o campo aberto vale mais)
O NPS é um termômetro. Ele não diz o que fazer.
A revisão sistemática da Health Expectations (Adams et al., 2022), com 12 estudos sobre NPS em saúde, é direta sobre os limites:
- Quatro estudos concluíram que o NPS agrega valor mínimo à melhoria assistencial.
- Num estudo com consultórios médicos de clínica geral, apenas 1 de 42 consultórios soube dar um exemplo de melhoria de qualidade que tivesse saído do resultado do NPS.
- A nota pode ser influenciada por idade, condição ou doença, tipo de intervenção e variação cultural, e por isso os autores pedem cautela ao usá-la para comparações.
E o ponto que interessa ao neutro: o campo de comentário livre, que traz detalhe e contexto, foi visto positivamente por pacientes e equipe em 4 dos 12 estudos.
Dois recados para o dono:
- A resposta aberta do neutro vale mais que a nota dele. É ela que vira correção.
- Compare a clínica com ela mesma, por tipo de paciente e de procedimento. Comparar o NPS de uma clínica de implante com a média de quem faz só limpeza é comparar populações diferentes.
A conta do dono: quanto custa deixar o neutro sumir
O neutro que some não aparece no relatório. Aparece no custo de aquisição.
Reter custa menos que conquistar. Um artigo da Harvard Business Review (Amy Gallo, outubro de 2014) registra que, dependendo do estudo e do setor, conquistar um cliente novo custa de 5 a 25 vezes mais do que reter um existente. O mesmo artigo atribui a Frederick Reichheld, da Bain & Company, a pesquisa segundo a qual aumentar a retenção em 5% eleva o lucro de 25% a 95%. São números de negócios em geral, não de odontologia, mas a direção vale.
Em odontologia, a indicação pesa muito. Num estudo do International Dental Journal (Jung et al., 2018) com 520 pacientes ambulatoriais de quatro clínicas odontológicas privadas do sudeste da Coreia do Sul, 426 deles (81,9%) chegaram à clínica por recomendação. E a qualidade da relação com o paciente teve coeficiente padronizado de 0,774 sobre a intenção de recomendar.
Lembra que o neutro indica com menos entusiasmo? É esse canal que ele deixa de alimentar.
E repor custa mídia. Segundo dados internos da Odonto Results (2026), o lead de clínica odontológica custa de R$12 a R$14 no Meta Ads (WhatsApp R$14,10 e formulário R$12,14 na mediana entre clínicas, com faixas sobrepostas). Base: cerca de 94,6 mil leads, 36 meses. Janela: agosto de 2023 a agosto de 2026.
E lead não é paciente. Segundo dados internos da Odonto Results (2026), 12% dos leads viram agendamento dentro do WhatsApp (faixa 9% a 15%), sem contar telefone. Base: 21.433 leads. Janela: 25 de março a 25 de agosto de 2026.
Pensa assim: perguntar ao neutro o que faltou custa uma mensagem. Repor o paciente que ele deixou de ser custa várias conversas novas compradas, e boa parte delas nunca chega à cadeira.
Como medir se o fluxo do neutro está funcionando
Não existe benchmark público confiável de "quantos neutros viram promotores". O que circula sem fonte primária, não usamos. A referência é a sua própria linha de base, medida desde o primeiro mês do fluxo.
| Métrica | Como calcular | O que mostra |
|---|---|---|
| Resposta à pergunta aberta | Neutros que responderam ÷ neutros que receberam | Se a pergunta e o momento estão certos |
| Neutros com motivo categorizado | Neutros com família marcada ÷ total de neutros | Se o diagnóstico está acontecendo de fato |
| Distribuição dos motivos | Valor x operação x expectativa clínica | Onde a clínica perde nota (e qual correção vem primeiro) |
| Tempo até fechar o loop | Do comentário à resposta com a ação | Se o feedback chega rápido a quem gerou a experiência |
| Migração na repesquisa | Neutros que voltaram com 9 ou 10 ÷ neutros repesquisados | Se a correção funcionou para o próprio paciente |
| Retorno do neutro x promotor | Comparecimento à manutenção e novo tratamento, por grupo | Se o neutro está ficando ou sumindo |
Antes de continuar, pergunte-se: hoje você sabe quantos dos seus pacientes deram 7 ou 8 no último trimestre, e por quê? Se a resposta é não, o fluxo começa por aí.
Seu próximo passo
- Separe o ramo do 7 e do 8 na sua automação. Tire o neutro do "obrigado" genérico e coloque a pergunta aberta única ("o que faltou para ser 10?"), disparada logo depois do atendimento.
- Defina o dono de cada motivo e o ritual da equipe. Valor para CRC e gestor, operação para recepção, expectativa clínica para o dentista, e uma reunião fixa para transformar os motivos em correções. Deixe o NPS fora do bônus.
- Corrija o convite de avaliação e meça a migração. Convite do Google igual para todos, sem brinde, e repesquisa do neutro no próximo marco do tratamento para ver quantos viraram 9 ou 10.
Quer que a sua clínica atenda, pesquise e acompanhe o paciente com a mesma velocidade com que capta? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
A nota 7 ou 8 entra no cálculo do NPS?
Não entra no numerador. Pela definição da Bain & Company, o NPS é a porcentagem de promotores (9 e 10) menos a porcentagem de detratores (0 a 6). O neutro só conta no total de respostas, então o score não mostra quantos neutros você tem. Por isso olhe a distribuição das notas, não só o número final.
Devo ligar para o paciente que deu nota 7?
Não como primeira ação. Comece com uma pergunta aberta no próprio canal da pesquisa ("o que faltou para ser 10?") e deixe a ligação para quando a resposta revelar um problema concreto ou um tratamento de alto valor em andamento. Ligação de desculpas para quem não reclamou soa como gestão de crise e constrange o paciente.
Posso pedir avaliação no Google para quem deu nota 8?
Pode, e deve, se você pede para os outros pacientes. A política do Google proíbe solicitar avaliações positivas de forma seletiva, então o convite não pode depender da nota do NPS. O desenho seguro é um convite padrão para todo paciente atendido, separado da pesquisa.
Vale dar desconto ou brinde para o neutro melhorar a nota?
Não. A política do Google proíbe oferecer incentivo (pagamento, desconto, produto ou serviço gratuito) em troca de avaliação, e incentivar a nota corrompe o dado, como registra a reportagem da Fortune de 2020 sobre NPS. Corrija o motivo que a resposta aberta revelou: é o único jeito de a próxima nota subir de verdade.
Qual é um NPS bom para clínica odontológica?
Não há referência brasileira pública com fonte primária. A régua odontológica publicada mais útil é o estudo do British Dental Journal de 2015, com 64 consultórios do Reino Unido, em que os consultórios próximos da média tinham NPS entre 80 e 89. Use como direção e compare a clínica com ela mesma ao longo do tempo.
Quando pesquisar de novo o paciente que deu 7 ou 8?
No próximo marco do tratamento, não pelo calendário. Repesquise o neutro no fim da fase, na entrega da prótese ou na manutenção seguinte para ver se ele migrou para 9 ou 10. Assim você mede o efeito da ação que tomou, e não a média do mês.