Vale a pena cobrar o PRF (fibrina rica em plaquetas) à parte em cirurgia de enxerto e implante ou embutir no orçamento?
Cobrar o PRF à parte ou embutir no preço do enxerto e do implante depende de uma coisa: se ele é parte do seu protocolo ou um adjuvante opcional. Veja o que a evidência sustenta em cada indicação, o que a Resolução CFO-158/2015, o CDC e o Código de Ética exigem, como calcular o custo real por cirurgia e os 5 jeitos de colocar o item no orçamento.
Inclua no preço e mostre a linha quando o PRF é parte do seu protocolo, e cobre à parte só quando ele é adjuvante opcional: em implantodontia, a evidência é moderada só em preservação de rebordo e osseointegração inicial (Strauss, 2018), e o CDC exige orçamento prévio discriminado.
- O enquadramento sai da evidência, que muda por indicação. A revisão de [Strauss, Stähli e Gruber](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6221166/) (Clinical Oral Implants Research, 2018; 12 ensaios randomizados) encontrou evidência moderada de benefício do PRF na preservação de rebordo e na fase inicial da osseointegração. Já a meta-análise de [Babich et al.](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11318657/) (2024; 112 levantamentos de seio em 84 pacientes) não viu impacto significativo na altura óssea.
- O preço tem que estar no papel antes da cirurgia. O [CDC](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078compilado.htm) (art. 40) obriga o fornecedor de serviço a entregar orçamento prévio discriminando mão de obra, materiais e equipamentos, e o [Código de Ética Odontológica](https://website.cfo.org.br/wp-content/uploads/2018/03/codigo_etica.pdf), que alcança também a pessoa jurídica (art. 1º), trata como infração submeter o paciente a tratamento de custo inesperado (art. 20, V).
- Separar o item só ajuda em condições certas. A meta-análise de [Abraham e Hamilton](https://doi.org/10.1177/0022243718800724) (Journal of Marketing Research, 2018; pesquisa de consumo em geral, 149 observações em 27 artigos, N = 12.878) mostra que o consumidor reage melhor ao preço particionado quando o total não aparece, quando o nível de preço sobe, quando a sobretaxa é típica da categoria, quando ela é percebida como de alto benefício e em categorias utilitárias.
Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- A resposta direta: a regra de decisão em três linhas
- O que é PRF e em que ele difere do PRP
- O que a Resolução CFO-158/2015 permite, e a quem ela se dirige
- O que a evidência sustenta, indicação por indicação
- Quanto o PRF custa de verdade para a sua clínica
- Os critérios para escolher como o PRF entra no orçamento
- Os 5 jeitos de colocar o PRF no orçamento
- Por que separar o preço às vezes ajuda e às vezes derruba o aceite
- O que o orçamento precisa trazer, por lei e por ética
- O erro clássico: decidir o PRF na cadeira e cobrar depois
- Como o dentista e o CRC apresentam o PRF sem prometer resultado
- Como saber se a decisão deu certo: o painel de 4 números
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Vale a pena cobrar o PRF (fibrina rica em plaquetas) à parte em cirurgia de enxerto e implante ou embutir no orçamento?"
Você comprou a centrífuga, o cirurgião fez o curso de venopunção e o PRF entrou na rotina das cirurgias.
Agora vem a pergunta que nenhum curso responde: quem paga por isso?
Se você separa o item, o paciente pergunta "precisa mesmo?". Se embute, a margem do enxerto encolhe em silêncio e ninguém percebe o valor do que foi feito.
A resposta curta: a forma de cobrar depende do papel do PRF no seu protocolo, não do que a clínica vizinha faz.
Quando ele é parte do protocolo daquela indicação, inclua no preço e mostre a linha no orçamento. Quando é adjuvante que o caso dispensa, ofereça como opcional, com preço e indicação escritos.
E nos dois casos a decisão vai para o papel antes da cirurgia. O Código de Defesa do Consumidor obriga o fornecedor de serviço a entregar orçamento prévio discriminando mão de obra, materiais e equipamentos (art. 40).
Neste guia você vai ver:
- A regra de decisão em três linhas, e por que ela começa na evidência clínica
- O que a Resolução CFO-158/2015 permite e a quem ela se dirige
- O que os estudos sustentam (e não sustentam) em cada indicação
- A fórmula para achar o custo real do PRF por cirurgia
- Os 5 jeitos de colocar o PRF no orçamento, comparados lado a lado
- O que o CDC e o Código de Ética exigem na linha do orçamento
- Como o dentista e o CRC apresentam o item sem prometer resultado, e como medir se você acertou
A resposta direta: a regra de decisão em três linhas
Antes de qualquer tabela, a regra. Ela cabe em três linhas:
- O PRF é parte do seu protocolo para aquela indicação? Você usa em todo caso daquele tipo, porque a evidência e a sua técnica sustentam. Então inclua no preço do procedimento e mostre a linha discriminada no orçamento.
- O PRF é adjuvante que o caso dispensa? O tratamento fecha bem sem ele e o ganho esperado é incerto. Então ofereça como opcional, com preço próprio, indicação e o que acontece sem ele.
- Em qualquer caso, a decisão é tomada no planejamento e escrita no orçamento, aceito antes da cirurgia. Nunca na cadeira, nunca cobrada depois.
Repare que a régua não é "o paciente aceita pagar mais?". É "o que o PRF é dentro do meu tratamento?".
Esse detalhe muda o risco.
Item de protocolo vendido como opcional abre a pergunta "então não precisa?". E cobrar o PRF à parte condicionando a cirurgia à compra dele encosta no que o CDC chama de prática abusiva (art. 39, I).
A decisão clínica de usar ou não é do cirurgião. O que muda o preço é como você enquadra o item no orçamento.
O que é PRF e em que ele difere do PRP
Pela definição da própria Resolução CFO-SEC-158/2015, a fibrina rica em plaquetas (PRF) é a porção do sangue que contém os componentes plaquetários sem adição de qualquer produto, inclusive anticoagulante ou coagulante.
O plasma rico em plaquetas (PRP) é a mesma porção do sangue, mas com a adição de algum produto, inclusive anticoagulante ou coagulante.
Na cirurgia, o roteiro do PRF é curto:
- Venopunção: coleta do sangue do próprio paciente no dia da cirurgia.
- Centrifugação: os tubos vão para a centrífuga, no próprio consultório.
- Preparo: o coágulo de fibrina vira membrana ou é misturado ao biomaterial e entra no sítio cirúrgico.
O uso é exclusivamente autólogo e não transfusional: o sangue volta para o mesmo paciente, nunca para outro. É o que diz o art. 1º da resolução.
Para o dono, a diferença entre PRF e PRP não é só técnica. Ela define onde o material pode ser preparado, e isso mexe no custo e na logística.
O que a Resolução CFO-158/2015 permite, e a quem ela se dirige
A norma vigente é a Resolução CFO-SEC-158, de 08/06/2015. Ela revogou a Resolução CFO-153/2015 (art. 3º). Se alguém da sua equipe ainda cita a 153, está citando norma revogada.
Veja o que ela autoriza, e para quem:
| Ponto | O que a norma diz | A quem se dirige |
|---|---|---|
| Reconhecimento | Reconhece e regulamenta o uso de agregados plaquetários autólogos (PRP e PRF), exclusivamente autólogo e não transfusional (art. 1º) | Prática odontológica |
| Venopunção | Autorizada para uso exclusivo em Odontologia (art. 1º, § 1º) | Cirurgião-dentista devidamente habilitado, ou profissional de saúde devidamente habilitado em conjunto e corresponsabilidade com o cirurgião-dentista |
| Prova de habilitação | Diplomas, declarações, certificados e congêneres (§ 2º) | Quem faz a venopunção |
| PRF, e PRP em sistema fechado | Podem ser preparados em centro cirúrgico ou consultório odontológico, conforme a RDC Anvisa 63/2011 (§ 3º) | Cirurgião-dentista devidamente habilitado |
| PRP em sistema aberto | Só em Centros de Tecnologia Celular licenciados, com terceirização comprovada por documento escrito (§ 4º) | Serviço licenciado pela vigilância sanitária |
| Infração ética | Usar em desacordo com a legislação, ou anunciar agregados plaquetários como se fossem tratamento com células-tronco (art. 2º) | Inscritos nos Conselhos de Odontologia |
Dois recados práticos para quem é dono.
A permissão é de quem tem habilitação, não da empresa. A clínica não ganha o direito de coletar sangue por ter comprado a centrífuga. Quem faz a venopunção precisa ter habilitação comprovada, e o profissional de saúde que não é dentista atua em corresponsabilidade com o cirurgião-dentista.
A responsabilidade ética alcança a clínica. O Código de Ética Odontológica regula os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos profissionais técnicos e auxiliares e das pessoas jurídicas que exercem atividade na Odontologia (art. 1º).
Na publicidade, respondem solidariamente os proprietários, o responsável técnico e os demais profissionais que concorreram para a infração (art. 45). E o capítulo de publicidade vale também para clínicas (art. 46).
Traduzindo: se o anúncio da sua clínica chamar o PRF de "tratamento com células-tronco", o problema não fica só com o dentista que aparece no vídeo. Veja quem responde quando o anúncio infringe a norma do CFO.
Lembre: a Resolução CFO-158/2015 diz quem pode coletar e onde pode preparar. Ela não diz nada sobre preço. O preço é regido pelo CDC e pelo capítulo de honorários do Código de Ética, que você vê mais abaixo.
O que a evidência sustenta, indicação por indicação
Aqui está a base da regra de decisão. O PRF não tem "uma" evidência. Tem uma por indicação, e elas apontam para lados diferentes.
Cinco revisões sistemáticas cobrem o que interessa para enxerto e implante:
- Strauss, Stähli e Gruber (Clinical Oral Implants Research, 2018): 12 ensaios randomizados publicados até 31/12/2017. Nove mostraram resultado superior com PRF em alguma das variáveis avaliadas e três não mostraram benefício. O risco de viés foi classificado como moderado ou incerto, e a heterogeneidade dos desenhos impediu a meta-análise.
- Castro et al. (Journal of Clinical Periodontology, 2017): 14 ensaios randomizados sobre L-PRF em regeneração óssea e implante. A meta-análise também não foi possível, pela heterogeneidade dos dados.
- Babich et al. (Journal of Oral & Maxillofacial Research, 2024): meta-análise de 5 estudos, entre eles ensaios randomizados, com 112 levantamentos de seio em 84 pacientes, publicados entre janeiro de 2018 e janeiro de 2024.
- Miron et al. (Clinical Oral Investigations, 2017): 35 ensaios randomizados em humanos, com busca até maio de 2016.
- Xiang et al. (BMC Oral Health, 2019): meta-análise de 10 estudos com 314 pacientes em extração de terceiro molar inferior.
Mas tem um detalhe no Strauss: "nove de doze" é a proporção de estudos com algum resultado favorável, não o tamanho do efeito. Um estudo pode ter vencido em uma variável e empatado em todas as outras.
Veja o quadro por indicação:
| Indicação | O que os estudos mostram | Força da evidência | Enquadramento sugerido (nossa leitura) |
|---|---|---|---|
| Preservação de alvéolo e rebordo após extração | Evidência moderada de benefício (Strauss, 2018). L-PRF sozinho preservou melhor a largura do rebordo que a cicatrização natural, com menos reabsorção vestibular (Castro, 2017) | Moderada, nas palavras dos autores | Candidato a protocolo |
| Fase inicial da osseointegração | Evidência moderada (Strauss, 2018). Mais estabilidade do implante ao longo do tempo e menos perda óssea marginal com L-PRF (Castro, 2017) | Moderada, nas palavras dos autores | Candidato a protocolo, se for sua técnica padrão |
| Levantamento de seio maxilar | Sem impacto significativo na altura óssea; tendência não significativa em neoformação óssea; o resumo relata melhora no ISQ, mas a tabela do próprio artigo mostra ISQ menor com PRF nos dois estudos que o mediram (Babich, 2024). Relato de cicatrização óssea histologicamente mais rápida quando somado aos xenoenxertos mais comuns (Castro, 2017) | Inconclusiva para osso | Opcional, nunca vendido como "mais osso" |
| ROG e aumento ósseo horizontal ou vertical | Muito pouco ou nenhum dado direto sobre formação óssea (Miron, 2017) | Insuficiente | Opcional, com linguagem cautelosa |
| Extração de terceiro molar inferior | Menos alveolite, com razão de risco de 0,35 (IC 95% 0,16 a 0,75), e alívio de dor e edema; não previne todas as complicações (Xiang, 2019) | Favorável nesses desfechos (meta-análise) | Opcional ou protocolo, conforme sua técnica |
| Dor e tecido mole em implantodontia | Continua incerto se o PRF reduz dor e melhora a cicatrização de tecido mole (Strauss, 2018) | Incerta | Não use como argumento de venda |
Três leituras que mudam o seu orçamento.
1. ISQ não é osso, e nem o ISQ está resolvido. O resumo de Babich et al. (2024) fala em melhora notável do ISQ com PRF. Mas a tabela de resultados do próprio artigo mostra o contrário nos dois estudos que mediram o ISQ: 72,19 com PRF contra 75,56 sem PRF em um, e 60,9 contra 75,13 no outro.
E estabilidade do implante é um desfecho diferente do ganho de altura óssea, que não foi significativo. Prometer "mais osso no seio" ou "implante mais firme" com PRF não encontra apoio nessa meta-análise.
E nos estudos de seio o PRF entrou somado ao enxerto: a comparação era biomaterial com e sem PRF. Ele é adjuvante, não substituto do biomaterial.
2. Razão de risco não é porcentagem de redução. O 0,35 do Xiang quer dizer que o risco de alveolite no grupo com PRF foi 0,35 vez o risco do grupo sem PRF, em extração de terceiro molar inferior. Não é dado de implante, e não vira promessa de "menos complicações" no seu material de cirurgia de implante.
3. A evidência existe, mas é pequena e heterogênea. Nas duas revisões de implante (Strauss e Castro) a meta-análise não foi possível. Castro et al. fecham dizendo que, apesar da falta de evidência forte, o L-PRF pode ter efeito positivo na regeneração óssea e na osseointegração.
Repare também na data de corte. A revisão de Miron, com busca até maio de 2016, achou pouco ou nenhum ensaio randomizado sobre manejo de alvéolo, e o benefício mais consistente que ela encontrou estava em periodontia e tecido mole. A de Strauss, com busca até dezembro de 2017, já encontrou evidência moderada em preservação de rebordo.
O que isso significa na prática? "Pode ajudar" é a frase honesta. É ela que vai para a conversa com o paciente, e é ela que separa item de protocolo de item opcional.
Quanto o PRF custa de verdade para a sua clínica
Castro et al. descrevem o L-PRF como de preparo fácil e baixo custo. Vale para o material. Para a operação, só vale se você fizer a conta.
O custo do PRF por cirurgia tem cinco componentes:
| Componente | Tipo de custo | Como calcular por cirurgia |
|---|---|---|
| Centrífuga | Investimento | (Preço de compra + manutenção na vida útil) ÷ usos esperados na vida útil |
| Tubos e kit de coleta | Variável, por caso | Soma do que é aberto em cada caso (tubos, agulha, garrote, curativo do acesso) |
| Tempo de cadeira | Variável, por caso | Minutos que o PRF acrescenta à cirurgia × seu custo por minuto de cadeira |
| Capacitação | Investimento | Curso de venopunção e protocolo ÷ usos esperados até a próxima reciclagem |
| Equipe de apoio | Variável, por caso | Minutos da auxiliar dedicados ao fluxo do PRF × custo por minuto dela |
O componente que mais engana é o tempo.
Os dois protocolos mais aceitos de preparo do L-PRF, segundo a revisão de Castro et al. (2017), são 2.700 rpm por 12 minutos ou 3.000 rpm por 10 minutos. Some a venopunção e o preparo das membranas.
Mas o que custa não é o tempo da centrífuga. É o tempo que a cirurgia ganha por causa dela.
Se a coleta acontece antes da anestesia e a centrifugação corre enquanto o cirurgião prepara o sítio, parte desse tempo se sobrepõe. Se a equipe espera a centrífuga parada, ele vira cadeira ociosa. Cronometre o seu fluxo real.
Agora a conta, só para mostrar o método.
Exemplo hipotético (valores inventados, não são preço de mercado; use os seus):
- Suponha uma centrífuga de R$ 10.000 que você espera usar 1.000 vezes na vida útil: R$ 10 por cirurgia.
- Digamos R$ 40 de tubos e kit de coleta por caso.
- Suponha que o PRF acrescente 15 minutos à cirurgia e que o seu custo de cadeira seja de R$ 6 por minuto: R$ 90.
- Digamos uma capacitação de R$ 3.000 diluída em 500 usos: R$ 6 por cirurgia.
- Nesse exemplo hipotético, o custo do PRF seria de R$ 146 por cirurgia, sem contar a equipe de apoio.
O número do exemplo não importa. Importa a estrutura: no exemplo, o tempo de cadeira pesa mais que todo o resto somado. Na sua clínica pode ser diferente, e você só sabe se medir.
Se você ainda não tem o custo do minuto de cadeira, comece por como calcular quanto custa cada hora de cadeira.
Com o custo na mão, o Código de Ética dá a base para levá-lo ao preço. Entre os critérios de fixação de honorários estão a complexidade do caso, o tempo utilizado no atendimento e o custo operacional (art. 19, IV, V e IX).
Os critérios para escolher como o PRF entra no orçamento
Antes de comparar os modelos, defina a régua. São cinco critérios:
- Coerência clínica. O PRF é parte do protocolo daquela indicação ou adjuvante? É a pergunta que manda nas outras.
- Margem por cirurgia. O custo calculado acima cabe no preço, ou come a margem do caso?
- Efeito no aceite. A linha do PRF ajuda o paciente a perceber valor, ou cria uma objeção nova?
- Risco legal e ético. O modelo respeita o orçamento discriminado, a informação clara de preço e a proibição de condicionar um serviço a outro?
- Esforço do CRC. Quanto de explicação o item exige na apresentação do orçamento?
Com essa régua, os modelos se ordenam sozinhos.
Os 5 jeitos de colocar o PRF no orçamento
Estes são os modelos que existem na prática. Cada um tem o seu lugar, e um deles tem mais risco que benefício.
1. Embutido, sem aparecer no orçamento
Como funciona: o custo do PRF entra no preço do enxerto ou do implante, e o orçamento não tem nenhuma linha que o mencione.
Diferencial: é o mais simples. Não gera pergunta, não gera objeção, e o CRC não precisa explicar nada.
Lacuna: o paciente não percebe o valor do que recebeu. E o art. 40 do CDC pede um orçamento que discrimine o valor da mão de obra, dos materiais e dos equipamentos: um item que não aparece em lugar nenhum é o mais difícil de defender se o paciente questionar.
Há ainda um problema de coerência. Se num caso você não usa o PRF, o preço é o mesmo, e isso também é difícil de explicar.
2. Incluso no protocolo, com linha discriminada
Como funciona: o PRF aparece como linha própria, com descrição e valor, marcada como "incluso no protocolo cirúrgico". O total do protocolo já o contém.
Diferencial: cumpre a discriminação do orçamento, mostra ao paciente o que ele recebe e não se apresenta como taxa extra. Na pesquisa de preço particionado, um componente percebido como de alto benefício é um dos cenários favoráveis.
Lacuna: o preço do protocolo sobe para todos os pacientes daquela indicação. E o modelo só se sustenta se você de fato usa o PRF em todo caso daquele tipo.
3. Opcional discriminado, que o paciente escolhe
Como funciona: linha separada, com valor, marcada como opcional. A linha diz a indicação, o benefício esperado e o que acontece no caso sem ele.
Diferencial: preserva o preço de entrada da cirurgia e cumpre o dever de esclarecer custos e alternativas do tratamento (art. 11, IV, do Código de Ética). Cada adesão soma margem.
Lacuna: abre a pergunta "então não precisa?". Mal apresentado, soa como venda adicional. E nunca pode virar condição: condicionar o fornecimento de um serviço ao de outro é prática abusiva vedada ao fornecedor (art. 39, I, do CDC).
4. Protocolo em dois níveis
Como funciona: o mesmo caso recebe duas opções completas, uma com o protocolo base e outra com o protocolo que inclui o PRF.
Diferencial: o paciente escolhe entre dois pacotes fechados, em vez de decidir se "adiciona uma taxa". A conversa fica mais simples de conduzir.
Lacuna: só funciona se a diferença clínica entre os níveis for real e explicável com a evidência daquela indicação. Se o PRF é parte do seu protocolo, um nível "sem PRF" é algo que você mesmo não faria: aí volte para o modelo 2.
5. Cortesia, com valor zerado ou "brinde"
Como funciona: a linha aparece com valor zero ou com a palavra "cortesia", como argumento de fechamento.
Diferencial: parece generoso na hora da negociação.
Lacuna: é o modelo de maior risco. O Código de Ética trata como infração oferecer serviços gratuitos a quem possa remunerá-los adequadamente (art. 20, I) e permitir o oferecimento, ainda que de forma indireta, de seus serviços através de outros meios como forma de brinde, premiação e sorteios (art. 20, VIII, na redação dada pela Resolução CFO-SEC-271/2025).
Além disso, você ensina o paciente que o PRF vale zero. Se quer absorver o custo, use o modelo 2: incluso, não grátis.
Os 5 modelos lado a lado
| Modelo | Margem por cirurgia | Efeito provável no aceite (análise qualitativa) | Risco CDC e ético | Esforço do CRC | Quando usar |
|---|---|---|---|---|---|
| 1. Embutido sem aparecer | Protegida, se o custo foi calculado | Neutro; o valor não é percebido | Médio: falta discriminação | Baixo | Evite |
| 2. Incluso e discriminado | Protegida; o preço do pacote sobe | Tende a ajudar quando o benefício é explicado | Baixo | Médio | PRF de protocolo |
| 3. Opcional discriminado | Soma a cada adesão | Preço de entrada menor; pode gerar dúvida | Baixo, se nunca virar condição | Alto | PRF adjuvante |
| 4. Dois níveis | Soma quando o nível com PRF é escolhido | Escolha entre pacotes completos | Baixo, se a diferença clínica for real | Alto | Adjuvante com benefício explicável |
| 5. Cortesia | Negativa | Pode ajudar no curto prazo | Alto: art. 20, I e VIII | Baixo | Não use |
Por que separar o preço às vezes ajuda e às vezes derruba o aceite
Separar um item do preço tem nome na pesquisa de consumo: preço particionado. E a literatura sobre ele é contraditória, o que explica por que cada consultor diz uma coisa.
A meta-análise de Abraham e Hamilton (Journal of Marketing Research, 2018) reuniu 17 anos de pesquisa: 149 observações em 27 artigos, com N = 12.878. O consumidor reage melhor ao preço particionado do que ao preço com tudo incluído quando:
- o preço total não aparece;
- o nível de preço sobe;
- a sobretaxa é típica da categoria do produto;
- a sobretaxa é percebida como de alto benefício;
- a categoria do produto é utilitária.
Uma ressalva antes de aplicar: é pesquisa de consumo em geral, não de odontologia. Use como mapa de hipóteses, não como prova sobre o seu paciente.
Veja como cada condição se comporta no orçamento de enxerto e implante:
| Condição da meta-análise | No orçamento do PRF | Joga a favor de separar? |
|---|---|---|
| Total ausente | O total do orçamento aparece, e deve aparecer: o CDC garante informação clara sobre preço (art. 6º, III) | Não se aplica |
| Nível de preço alto | Cirurgia de enxerto e implante é ticket alto | Sim |
| Sobretaxa típica da categoria | Depende da sua praça: se os orçamentos de cirurgia da região já trazem o PRF em linha própria, ele é esperado | Depende |
| Alto benefício percebido | Depende de você explicar o benefício provável naquela indicação | Depende da apresentação |
| Categoria utilitária | Implante tende a ser compra de função (mastigar, repor dente), com componente estético | Tende a favorecer, por interpretação nossa |
O resumo prático: separar o PRF ajuda quando você consegue explicar o benefício naquela indicação.
Onde a evidência é fraca (altura óssea no seio, ROG), o item separado vira uma taxa sem justificativa. Ali, ou a linha opcional é honesta sobre o que se espera, ou o item fica de fora.
O que o orçamento precisa trazer, por lei e por ética
O preço do PRF não é só decisão comercial. Ele passa por duas camadas de regra, com sujeitos diferentes: o CDC, que se dirige ao fornecedor de serviço, e o Código de Ética Odontológica, que alcança o profissional e a pessoa jurídica.
| Norma | O que exige | A quem se dirige | O que muda no orçamento do PRF |
|---|---|---|---|
| CDC, art. 40, caput | Orçamento prévio discriminando mão de obra, materiais e equipamentos, condições de pagamento e datas de início e término | Fornecedor de serviço (a clínica) | O PRF aparece, com valor, antes da cirurgia |
| CDC, art. 40, § 2º | Aprovado, o orçamento obriga as partes e só muda por livre negociação | Fornecedor e consumidor | Não dá para acrescentar o PRF depois por conta própria |
| CDC, art. 40, § 3º | O consumidor não responde por acréscimos de serviços de terceiros não previstos no orçamento prévio | Fornecedor de serviço | Se um profissional terceirizado faz a venopunção, o custo dele precisa estar previsto |
| CDC, art. 6º, III | Informação adequada e clara, com especificação correta de composição, qualidade e preço | Direito do consumidor, dever do fornecedor | Descrever o que é o item, sem jargão |
| CDC, art. 39, I | Veda condicionar o fornecimento de um serviço ao de outro | Fornecedor de produtos ou serviços | PRF opcional não pode virar condição para fazer o implante |
| CDC, art. 39, VI | Veda executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa do consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes | Fornecedor de produtos ou serviços | PRF só entra na cirurgia com orçamento e autorização expressa do paciente antes |
| Código de Ética, art. 19, parágrafo único | Arbitrar o valor dos procedimentos comunicando previamente ao paciente os custos | Profissional; o Código alcança também a pessoa jurídica (art. 1º) | Custo comunicado antes |
| Código de Ética, art. 20, V | Infração: abusar da confiança do paciente submetendo-o a tratamento de custo inesperado | Inscritos, inclusive pessoa jurídica | Nada de PRF decidido e cobrado depois |
| Código de Ética, art. 11, IV | Infração: deixar de esclarecer propósitos, riscos, custos e alternativas do tratamento | Inscritos, inclusive pessoa jurídica | Explicar o que muda com e sem o PRF |
| Código de Ética, art. 11, V | Infração: executar ou propor tratamento desnecessário | Inscritos, inclusive pessoa jurídica | Não incluir PRF em todo caso por padrão comercial |
Um detalhe mostra como o próprio CFO enxerga o tema. Ao regulamentar o PRF, a Resolução CFO-158/2015 lembrou nos seus considerandos justamente o art. 11, V, do Código de Ética: propor tratamento desnecessário é infração.
E uma nota de atualização: a Resolução CFO-SEC-271/2025 alterou os incisos VIII e X do art. 20 do Código, mas não o inciso V. A regra do custo inesperado segue com a redação de 2012.
Este quadro não substitui parecer jurídico. Leve o seu modelo de orçamento para o advogado da clínica revisar.
O erro clássico: decidir o PRF na cadeira e cobrar depois
O cenário é comum. O cirurgião abre o sítio, encontra uma situação diferente da planejada e decide usar PRF ali mesmo. A conta vai para o paciente depois.
É o pior dos mundos, por três motivos:
- É custo inesperado. O Código de Ética trata como infração abusar da confiança do paciente submetendo-o a tratamento de custo inesperado (art. 20, V).
- O orçamento aprovado já obriga. Pelo CDC, ele só muda por livre negociação (art. 40, § 2º), e negociar com o paciente anestesiado na cadeira dificilmente é livre. O mesmo CDC veda executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa do consumidor (art. 39, VI).
- A venopunção é um procedimento. Iniciar procedimento ou tratamento sem o consentimento prévio do paciente é infração ética, salvo em casos de urgência ou emergência (art. 11, X).
A saída é decidir antes.
Se o uso depende do que o cirurgião encontrar, coloque o PRF no orçamento como linha condicional: o critério de uso, o valor e a concordância do paciente, tudo antes da cirurgia.
E se o PRF entrou sem estar no orçamento? O caminho mais seguro é tratar como custo do caso e corrigir o planejamento para a próxima vez.
O raciocínio é o mesmo do enxerto ósseo não previsto no orçamento: o que não foi acordado antes vira atrito depois.
Como o dentista e o CRC apresentam o PRF sem prometer resultado
A apresentação é onde o modelo de preço vence ou perde. O princípio: benefício provável, nunca garantido.
É o que a evidência permite dizer. E é o que o Código de Ética pede quando trata como infração exagerar em diagnóstico, prognóstico ou terapêutica (art. 11, III).
Divida o trabalho:
- O dentista explica a indicação. Por que, no caso daquele paciente, o PRF entra no protocolo ou é opcional. É conversa clínica, feita na avaliação.
- O CRC explica a linha do orçamento. O que está incluso, o que é opcional, quanto custa e como pagar. Não improvisa argumento clínico.
Um roteiro curto para o CRC, no modelo opcional:
- "No seu planejamento, o doutor indicou o PRF como opcional. É um material preparado com o seu próprio sangue, coletado no dia da cirurgia."
- "Ele é usado para apoiar a cicatrização. O doutor explicou o que se espera no seu caso, e em nenhuma situação dá para garantir resultado."
- "Sem ele, a cirurgia é feita com o protocolo completo do mesmo jeito. Com ele, o valor é este, e tudo fica fechado antes da cirurgia."
- "Quer incluir? Se ficar alguma dúvida clínica, o doutor conversa com você antes de assinar."
E uma linha modelo para o orçamento, que serve aos modelos 2 e 3:
Linha modelo: Fibrina rica em plaquetas (PRF/L-PRF), obtida do seu próprio sangue no dia da cirurgia: coleta por venopunção, centrifugação e preparo das membranas. Indicação no seu caso: [preservação do alvéolo após a extração]. Benefício esperado: apoio à cicatrização; não substitui o enxerto e não há garantia de resultado. Valor: R$ ____ [incluso no protocolo cirúrgico] ou [opcional: ( ) desejo incluir ( ) não desejo incluir].
Palavras para cortar da conversa e do material da clínica:
- Qualquer número de "cicatriza X% mais rápido" que você não consegue mostrar de onde veio.
- "Mais osso", no levantamento de seio.
- "Células-tronco", em qualquer contexto (art. 2º da Resolução CFO-158/2015).
- "Cortesia", "brinde" e "grátis".
Como saber se a decisão deu certo: o painel de 4 números
Primeiro, lembre onde o orçamento de enxerto e implante aparece no funil.
Segundo dados internos da Odonto Results, no funil completo (IA, equipe e telefone) 20% a 40% dos leads viram agendamento e 20% a 50% dos agendados comparecem. É uma faixa da operação, não uma medição de recorte datado: o fechamento por ligação não fica registrado na conversa.
O orçamento só existe depois dessas duas etapas. O modelo de preço do PRF mexe na seguinte: o aceite.
Por isso não adianta julgar a decisão por custo de lead ou volume de agendamento. Meça no fim do funil:
- Taxa de aceite do orçamento, com e sem a linha do PRF. Compare o mesmo tipo de cirurgia (preservação de alvéolo com preservação de alvéolo, seio com seio). No modelo opcional, acompanhe também a taxa de adesão ao item.
- Margem de contribuição por cirurgia. Com o custo do PRF calculado pela fórmula, não estimado. Veja como calcular a margem de contribuição de cada procedimento.
- Questionamentos e reclamações de custo. Peça ao CRC para registrar toda pergunta do tipo "por que estou pagando isso?" e todo atrito pós-cirurgia sobre valor.
- Tempo de cadeira real. Cronometre as cirurgias com PRF por algumas semanas. Se o acréscimo for maior que o previsto, o custo da fórmula está subestimado.
Dois cuidados de leitura.
Compare períodos com volume parecido de casos, porque poucos orçamentos produzem diferenças que são puro acaso. E troque um modelo por vez: mudar preço, roteiro e protocolo juntos impede saber o que funcionou.
Lembre: o PRF não é um problema de preço, é um problema de enquadramento. Defina o papel dele no seu protocolo, escreva no orçamento antes da cirurgia e meça o aceite. O preço certo sai daí.
Seu próximo passo
- Classifique o PRF por indicação. Com o seu cirurgião, use o quadro de evidência e marque, para cada tipo de cirurgia, se ele é protocolo ou adjuvante. Essa lista decide o modelo de preço.
- Calcule o custo real e reescreva a linha. Aplique a fórmula com os seus números, cronometre o tempo de cadeira e ajuste a linha do PRF no orçamento: incluso ou opcional, nunca cortesia.
- Treine a apresentação e meça. Passe o roteiro para o CRC, deixe toda decisão de PRF no papel antes da cirurgia e acompanhe o painel de 4 números por alguns meses.
Quer que mais pacientes de enxerto e implante cheguem até a avaliação, onde esse orçamento é apresentado? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
O PRF é obrigatório em cirurgia de enxerto e implante?
Não. A Resolução CFO-SEC-158/2015 reconhece e regulamenta o uso de agregados plaquetários autólogos na Odontologia, mas não obriga ninguém a usá-los. A evidência varia por indicação: é moderada em preservação de rebordo e na fase inicial da osseointegração (Strauss et al., 2018) e não mostrou impacto significativo na altura óssea do levantamento de seio (Babich et al., 2024). Usar ou não é decisão clínica do cirurgião, explicada ao paciente e registrada no orçamento.
Posso dar o PRF de cortesia para fechar o orçamento?
Evite chamar de cortesia, brinde ou grátis. O Código de Ética Odontológica, que alcança também a clínica como pessoa jurídica (art. 1º), trata como infração oferecer serviços gratuitos a quem possa remunerá-los adequadamente (art. 20, I) e permitir o oferecimento, ainda que de forma indireta, de seus serviços através de outros meios como forma de brinde, premiação e sorteios (art. 20, VIII, na redação da Resolução CFO-SEC-271/2025). Se quiser absorver o custo, inclua o PRF no preço do protocolo e mostre a linha como incluso.
Posso anunciar que a clínica usa PRF?
Pode informar que usa a técnica, mas nunca apresentá-la como tratamento com células-tronco: a Resolução CFO-SEC-158/2015 (art. 2º) tipifica isso como infração ética. Também não prometa resultado. Pela publicidade em desacordo com o Código de Ética respondem solidariamente os proprietários, o responsável técnico e os demais profissionais que concorreram para a infração (art. 45), e o capítulo vale também para clínicas (art. 46).
Quanto cobrar pelo PRF?
Parta do seu custo, não do preço da clínica vizinha. Some a centrífuga amortizada por uso, os tubos e o kit de coleta do caso, os minutos que o PRF acrescenta à cirurgia multiplicados pelo seu custo de cadeira e a capacitação amortizada. O Código de Ética lista a complexidade do caso, o tempo utilizado no atendimento e o custo operacional entre os critérios de fixação de honorários (art. 19).
O convênio cobre o PRF?
Depende do contrato com a operadora, então confira antes de orçar. O ponto ético que pesa é outro: o Código de Ética Odontológica trata como infração receber ou cobrar remuneração adicional de paciente atendido sob convênio ou contrato (art. 20, VI). Na dúvida sobre como o seu contrato trata o item, consulte a operadora e o seu CRO antes de apresentar qualquer valor ao paciente.
Se o cirurgião decidir usar PRF durante a cirurgia, posso cobrar depois?
Não conte com isso. Pelo CDC, o orçamento aprovado obriga as partes e só muda por livre negociação (art. 40, § 2º), e o Código de Ética trata como infração submeter o paciente a tratamento de custo inesperado (art. 20, V). Se existe chance de usar, coloque o PRF no orçamento como linha condicional, com critério e valor, aceita antes da cirurgia.