Gestão da Clínica

Quantas clínicas no Brasil já usam scanner intraoral e CAD/CAM e o fluxo digital virou padrão ou ainda é diferencial?

O fluxo digital ainda é minoria no Brasil: só 15% dos dentistas titulares de consultório têm scanner intraoral e a Key-Stone estima que 8% das moldagens do país sejam digitais. Veja os números de scanner, fresadora e impressora 3D, a comparação com os EUA, o que a evidência clínica sustenta, o sinal do SUS e o veredito para a clínica de alto ticket.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 9 de outubro de 2026 · 19 min de leitura
TL;DR

Ainda é diferencial: só 15% dos dentistas titulares de consultório têm scanner intraoral, a Key-Stone estima em 8% as moldagens digitais do país e fresadora e impressora 3D ficam em 3% e 8% (Key-Stone para ABIMO, com apoio do CFO, 2024).

Pontos-chave
  • A adoção ainda é minoria. Em pesquisa da Key-Stone para a ABIMO, com apoio do CFO (relatório de setembro de 2024, questionário online enviado a todos os dentistas titulares de consultório inscritos no CFO, 1.882 respondentes), 15% declararam possuir scanner intraoral e 85% não. É percentual de dentistas donos de consultório, não contagem de clínicas.
  • Ter scanner não é moldar tudo no digital. Na mesma pesquisa, quem usa o scanner faz em média 53% das moldagens no digital, e a Key-Stone estima que no mercado total do Brasil 8% das moldagens sejam digitais, contra 68% com elastômero e 24% com alginato. Fresadora (3%) e impressora 3D (8%) são exceção nos consultórios.
  • O sinal é de virada lenta. Nos EUA, 53% dos 369 dentistas do painel ACE da ADA usavam scanner, segundo relatório publicado em 2021; no Brasil, o Ministério da Saúde informou em setembro de 2026 que 316 municípios já receberam combos de fluxo digital, de um total de 500 kits previstos para 409 municípios.

Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Quantas clínicas no Brasil já têm scanner intraoral?
  4. Ter scanner não é usar scanner: quanto da moldagem já é digital
  5. CAD/CAM e impressora 3D dentro da clínica: ainda exceção
  6. Laboratório x chairside: o modelo dominante é scanner mais laboratório
  7. Brasil x EUA: o que as pesquisas lá fora mostram (e por que 78,8% engana)
  8. Quem adota no Brasil: porte pesa mais que idade
  9. Intenção de compra x barreiras: por que muitos querem e poucos compram
  10. O que a evidência clínica sustenta (e onde ela para)
  11. Experiência do paciente: o que as metanálises mostram
  12. Quanto custa um scanner intraoral (e por que falta referência neutra no Brasil)
  13. Sinal de virada: o SUS já distribui fluxo digital
  14. Veredito: o fluxo digital é padrão ou diferencial?
  15. Scanner não enche cadeira: onde o faturamento realmente trava
  16. Seu próximo passo
  17. Perguntas frequentes

"Quantas clínicas no Brasil já usam scanner intraoral e CAD/CAM e o fluxo digital virou padrão ou ainda é diferencial?"

Você vê scanner intraoral em todo congresso, em todo anúncio de fornecedor e no perfil de muitos colegas.

Parece que todo mundo já migrou. E que quem não migrou ficou para trás.

Os números contam outra história.

Em pesquisa da Key-Stone para a ABIMO, com apoio do CFO (relatório de setembro de 2024), só 15% dos dentistas titulares de consultório declararam ter scanner intraoral. E a própria Key-Stone estima que só 8% das moldagens feitas no Brasil sejam digitais (relatório publicado pelo CFO).

Resposta curta: o fluxo digital ainda é diferencial no Brasil.

Mas a janela está fechando: a intenção de compra é alta, as clínicas maiores estão na frente e o SUS começou a distribuir kits com scanner e impressora 3D para os municípios.

Neste guia você vai ver:

  • Quantos dentistas têm scanner, fresadora e impressora 3D no Brasil (e o que esses números não dizem)
  • Por que ter scanner não significa moldar tudo no digital
  • Como o Brasil se compara aos EUA e por que a pesquisa global de 78,8% engana
  • O que a evidência clínica sustenta sobre tempo, desfecho e conforto do paciente
  • O veredito para a clínica de alto ticket e onde o faturamento realmente trava

Quantas clínicas no Brasil já têm scanner intraoral?

A melhor fotografia pública é a pesquisa Análise da Demanda de Serviços Odontológicos no Brasil, feita pela Key-Stone para a ABIMO (Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos), com apoio do CFO, e publicada em setembro de 2024.

O método importa. O questionário foi enviado por mailing do CFO a todos os dentistas titulares de consultório, as entrevistas foram feitas online e a amostra foi ponderada pelo número de titulares inscritos no CFO em cada estado.

O resultado sobre o scanner, segundo o relatório da Key-Stone publicado no site do CFO:

Posse de scanner intraoral para moldagem digital % dos dentistas titulares de consultório
Possui 15%
Não possui 85%

Base: 1.882 respondentes. Fonte: Key-Stone para ABIMO, com apoio do CFO (setembro de 2024).

O que esse número não diz

Repare nestes pontos antes de repetir o dado numa reunião de sócios:

  • É percentual de dentistas, não de clínicas. A unidade da pesquisa é o dentista titular de consultório. Uma clínica com vários dentistas e um scanner não aparece como "uma clínica com scanner".
  • Não há contagem pública de clínicas com scanner no Brasil. Quem fala em "tantas mil clínicas digitais" está estimando sem base aberta.
  • É declaração, não auditoria. O dentista informa que tem o aparelho; ninguém conferiu.
  • Posse não é uso. Ter o scanner na sala não significa moldar todo caso nele, como você vai ver a seguir.

Ter scanner não é usar scanner: quanto da moldagem já é digital

Esse é o dado que muda a leitura.

Entre os dentistas que declaram usar o scanner (base: 243 usuários), as moldagens digitais são em média 53% do total de moldagens que eles fazem, segundo a mesma pesquisa da Key-Stone.

Ou seja: mesmo quem tem o aparelho continua usando elastômero e alginato em boa parte dos casos.

Quando a Key-Stone estima o mercado total de moldagens do Brasil, o digital vira nicho:

Tipo de moldagem Participação estimada no mercado total
Elastômero 68%
Alginato 24%
Digital 8%

Fonte: estimativa da Key-Stone na pesquisa para a ABIMO, com apoio do CFO (setembro de 2024). Na amostra total, a média semanal é de 6,9 moldagens por respondente.

E a expectativa dos próprios dentistas confirma a inércia.

Só 10% acreditam que os materiais de moldagem de precisão serão completamente substituídos pelo digital, enquanto 58% não preveem diminuição significativa no uso desses materiais.

O relatório ainda observa que quem tem scanner, mas usa pouco, tende a dizer que vai continuar com os materiais convencionais. Os autores atribuem isso, possivelmente, a uma insatisfação com o desempenho atual do aparelho.

Lembre: a pergunta certa não é "quantos têm scanner". É "quantos casos passam pelo scanner". No Brasil, a resposta ainda é a minoria.

CAD/CAM e impressora 3D dentro da clínica: ainda exceção

Se o scanner é minoria, a produção da peça dentro do consultório é exceção.

Equipamento Possui Base da pergunta
Scanner intraoral 15% 1.882 respondentes
Impressora 3D 8% 1.584 respondentes
Fresadora 3% 1.584 respondentes

Fonte: Key-Stone para ABIMO, com apoio do CFO (setembro de 2024).

O relatório descreve fresadora e impressora 3D como tecnologias ainda pouco difundidas nas clínicas brasileiras, mas com uma enorme intenção de compra no futuro próximo.

A intenção de comprar impressora 3D aparece com mais força em cinco perfis:

  1. Consultórios que tiveram um ligeiro aumento de pacientes no último ano.
  2. Consultórios que esperam aumento no número de pacientes.
  3. Consultórios abertos após 2018.
  4. Consultórios com mais dentistas.
  5. Quem já planeja comprar um scanner.

O que isso significa na prática? O CAD/CAM completo dentro da clínica é, hoje, uma marca de minoria. Quem tem, tem um diferencial real de prazo. Quem não tem, não está atrasado em relação à média.

Laboratório x chairside: o modelo dominante é scanner mais laboratório

Vale separar os dois fluxos digitais, porque o mercado mistura os nomes.

Modelo Como funciona O que exige Quando faz sentido
Scanner + laboratório Você escaneia na clínica e envia o arquivo ao protético Scanner, laboratório que trabalhe com arquivo, rotina de envio Volume de prótese e alinhador sem estrutura de produção própria
Chairside Você escaneia, desenha e fresa ou imprime a peça na clínica Scanner, software, fresadora ou impressora, equipe treinada Entrega em sessão única como parte do posicionamento
Convencional Moldagem com elastômero ou alginato e modelo de gesso Material de moldagem e laboratório analógico Casos em que o escaneamento perde precisão, como você vai ver adiante

Agora a conta que os dados permitem fazer.

Com 15% dos titulares com scanner e só 3% com fresadora, a maior parte de quem escaneia depende de um laboratório para produzir a peça. A leitura é nossa, a partir de duas perguntas da pesquisa que têm bases diferentes, mas a ordem de grandeza é clara.

Nos EUA, o padrão se repete. Entre os dentistas do painel da ADA que não têm impressora 3D, um dos principais motivos citados foi que os dispositivos clínicos deles são feitos por laboratório dental (ADA News, 2023).

Dica: se você ainda não tem scanner, pergunte primeiro ao seu laboratório se ele já trabalha com arquivo digital. A resposta diz se o seu próximo investimento é o aparelho ou a troca de parceiro. Para quem não tem fresadora, o fluxo digital começa e termina nessa parceria.

Brasil x EUA: o que as pesquisas lá fora mostram (e por que 78,8% engana)

Quando alguém diz que "o mundo já é digital", vale olhar o que cada pesquisa de adoção realmente mede:

Pesquisa Onde e quando Quem respondeu Resultado
Key-Stone para ABIMO, apoio do CFO Brasil, relatório de setembro de 2024 Mailing a todos os dentistas titulares de consultório, amostra ponderada por estado (1.882) 15% têm scanner intraoral
Painel ACE da ADA EUA, publicado em 2021 369 dentistas membros da ADA inscritos no painel 53% usam scanner intraoral
Painel ACE da ADA EUA, publicado em 2023 277 dentistas membros da ADA inscritos no painel 17% usam impressora 3D
Questionário transnacional (International Dental Journal) 109 países, outubro e novembro de 2022 1.072 respondentes recrutados pela newsletter de um instituto de odontologia digital e redes sociais 78,8% usam scanner no dia a dia

O que a ADA mediu nos EUA

O relatório do painel de avaliadores clínicos (ACE Panel) da ADA, publicado na edição de agosto de 2021 do Journal of the American Dental Association, ouviu 369 dentistas: 53% usavam scanner intraoral e 47% não (ADA News, 2021).

Em 2023, outro relatório do mesmo painel, com 277 dentistas, encontrou 17% usando impressora 3D (ADA News, 2023).

Mas tem um detalhe: o painel ACE é formado por membros da ADA que se inscreveram para responder pesquisas curtas sobre produtos. É um painel de voluntários, não uma amostra aleatória de todos os dentistas americanos.

Por que os 78,8% não servem de régua

O questionário transnacional publicado no International Dental Journal em 2023 ouviu 1.072 respondentes de 109 países e encontrou 78,8% usando scanner intraoral no trabalho diário (Al-Hassiny e colaboradores, 2023).

Veja como ele foi distribuído: pela newsletter do Institute of Digital Dentistry e pelas redes sociais, entre outubro e novembro de 2022.

Pensa assim: quem lê a newsletter de um instituto de odontologia digital já é, em grande parte, usuário de odontologia digital. É viés de seleção. O número descreve o público daquela newsletter, não os dentistas do mundo.

Então, quando alguém usar esse número como prova de que "todo mundo já usa scanner", pergunte de onde veio a amostra.

Quem adota no Brasil: porte pesa mais que idade

O relatório da Key-Stone traz um achado que contraria o senso comum.

Ao contrário do que ocorre em outros países, especialmente na Europa, a idade do dentista não parece ser fator determinante na adoção do scanner no Brasil.

O que pesa é o porte do consultório. O uso do scanner tende a aumentar com:

  1. O número de pacientes atendidos por semana.
  2. O número de cadeiras disponíveis.
  3. O número de dentistas no consultório.

E há um recorte regional: o relatório observa uso maior no estado de São Paulo.

Outro detalhe: são os dentistas mais jovens que manifestam maior interesse em comprar, embora normalmente tenham menos recursos financeiros (Key-Stone para ABIMO, com apoio do CFO, 2024).

O que isso significa para você? Se a sua clínica tem várias cadeiras e vários dentistas, ela está no perfil que mais adota. Os seus concorrentes diretos de mesmo porte provavelmente estão acima da média nacional, e comparar-se com o dado geral pode dar uma falsa sensação de vantagem.

Intenção de compra x barreiras: por que muitos querem e poucos compram

A demanda reprimida é grande. O problema é transformar vontade em compra.

Quanto o mercado diz que quer comprar

Na pesquisa da Key-Stone, 22% dos dentistas titulares de consultório declararam interesse em comprar o scanner intraoral pela primeira vez.

Somados aos que já têm e querem comprar outro aparelho, são 25% de potenciais compradores dentro de um ano.

O próprio relatório faz a ressalva: a intenção declarada nem sempre se traduz em compra real. Mesmo assim, os autores leem esse quarto da amostra como sinal de um negócio que ainda não expressou todo o seu potencial.

Por que a intenção trava

Veja as barreiras que as pesquisas registram:

  1. Investimento. Nos EUA, entre os dentistas que não usam scanner, a principal barreira é o alto investimento financeiro, citado por 66% dos não usuários do painel da ADA (ADA News, 2021). No Brasil, a Key-Stone nota que quem mais quer comprar, o dentista mais jovem, costuma ter menos recursos.
  2. Curva de aprendizado. A ADA orienta que o dentista pode precisar de apoio para escolher o scanner adequado à sua clínica e de treinamento para controlar as variáveis que reduzem a precisão do escaneamento (ADA News, 2022).
  3. Confiança na moldagem convencional. 58% dos dentistas brasileiros não preveem diminuição significativa no uso dos materiais de moldagem de precisão, segundo a Key-Stone.
  4. Fluxo com o laboratório. Se o laboratório parceiro não trabalha bem com arquivo, o scanner vira etapa extra, não atalho.

Nota: intenção de compra alta e posse baixa é o retrato de uma tecnologia em transição. Quem compra agora ainda se diferencia. Quem compra daqui a alguns anos provavelmente só vai empatar.

O que a evidência clínica sustenta (e onde ela para)

Agora a parte que interessa à decisão: o scanner entrega o que promete?

A resposta curta é sim para tempo e conforto, empate para desfecho protético e cautela no arco total.

Estudo Desenho O que mediu Resultado
Joda e Brägger, 2015 (Int J Oral Maxillofac Implants) Ensaio clínico prospectivo cruzado, 20 pacientes, coroa sobre implante unitário posterior Tempo total de produção e tempo de cadeira Fluxo digital 16% mais rápido no total; tempo de cadeira médio de 27,3 contra 33,2 minutos
Park e colaboradores, 2020 (Materials) Estudo clínico, 13 pacientes, coroa unitária de dissilicato de lítio Tempo de moldagem e adaptação Moldagem média de 7min16s e 7min29s nos dois scanners contra 12min41s no convencional
Siqueira e colaboradores, 2021 (Clinical Oral Investigations) Revisão sistemática, 17 estudos, 437 pacientes Tempo, experiência do paciente e desfecho protético Escaneamento mais rápido, de quadrante ou de arco total; desfechos protéticos semelhantes
Zailai e colaboradores, 2026 (Cureus) Meta-análise, 10 estudos clínicos sobre restaurações sobre implante Tempo de procedimento e precisão Redução média de 4,28 minutos no tempo de procedimento; sem diferença significativa de precisão ou adaptação

Tempo de moldagem e tempo de cadeira

No ensaio cruzado de Joda e Brägger (2015), com 20 pacientes que receberam coroa sobre implante unitário em região posterior, o tempo total de produção (clínico mais laboratório) foi em média de 185,4 minutos no fluxo digital contra 223,0 minutos no convencional. Os autores resumem: o processamento digital foi 16% mais rápido no tratamento como um todo.

No mesmo estudo, o tempo médio de cadeira caiu de 33,2 minutos no convencional para 27,3 minutos no digital (PubMed).

No estudo de Park e colaboradores (2020), com 13 pacientes, a moldagem levou em média 7min16s e 7min29s com os dois scanners testados, contra 12min41s no método convencional. A coroa chairside ficou pronta com tempo total de trabalho médio de 30min58s, em consulta única, e a adaptação marginal não teve diferença significativa em relação à coroa de referência (PMC).

Desfecho protético

A revisão sistemática de Siqueira e colaboradores (2021) reuniu 17 estudos (9 ensaios randomizados e 8 estudos clínicos prospectivos), com 430 escaneamentos intraorais e 370 moldagens convencionais em 437 pacientes.

A conclusão: o escaneamento foi mais rápido que a moldagem convencional, seja de quadrante ou de arco total, e os desfechos protéticos foram semelhantes nos dois fluxos (PMC).

A meta-análise de Zailai e colaboradores, publicada na Cureus em 2026, com 10 estudos clínicos (6 randomizados e 4 não randomizados) sobre restaurações sobre implante, foi na mesma linha: o fluxo digital reduziu o tempo médio de procedimento em 4,28 minutos (IC 95%: -8,40 a -0,16), sem diferença estatisticamente significativa de precisão ou adaptação (PMC).

Onde a evidência para: o arco total

Rapidez não é o mesmo que precisão.

A ADA resume que o scanner entrega moldagens precisas para coroas sobre dente e sobre implante e para próteses fixas de extensão curta. Já o escaneamento de arco total para próteses sobre dente e sobre implante, e para próteses removíveis parciais e totais, pode ser menos preciso que o método convencional (ADA News, 2022).

Para quem vive de protocolo e reabilitação de arcada inteira, essa é a ressalva que mais pesa na compra.

Leia também: o detalhamento de tempo de cadeira e refação está em scanner intraoral reduz de verdade o tempo de cadeira e a refação?

Experiência do paciente: o que as metanálises mostram

Aqui a evidência pende com clareza para o digital.

A revisão sistemática com metanálise de de Paris Matos e colaboradores (2023), no Journal of Prosthetic Dentistry, reuniu 11 estudos sobre a experiência do paciente na reabilitação protética. Os pacientes preferiram o escaneamento intraoral à moldagem convencional, com diferença significativa também em desconforto, náusea, gosto desagradável e dificuldade de respirar (PubMed).

A revisão sistemática com metanálise de Pachiou e colaboradores (2025), no Journal of Personalized Medicine, incluiu 18 estudos sobre próteses fixas sobre implante. A moldagem digital foi significativamente favorecida em:

  • ansiedade;
  • náusea;
  • gosto ruim;
  • desconforto e conforto;
  • percepção do tempo do procedimento;
  • satisfação geral.

Não houve diferença significativa em dor nem na avaliação estética, e os autores registram heterogeneidade substancial entre os estudos (PMC).

O que isso significa na prática? Para o paciente que tem ânsia, medo ou já passou por moldagem ruim, o scanner é um argumento concreto de experiência. Saiba como transformar a tecnologia em diferencial de marketing sem cair no discurso de "aparelho de última geração".

Quanto custa um scanner intraoral (e por que falta referência neutra no Brasil)

A única faixa de preço de fonte neutra que encontramos é americana.

Em 2022, a ADA indicou que um scanner intraoral custava de US$ 5.000 a US$ 23.000 para compra nos EUA (ADA News, 2022).

No Brasil, não encontramos benchmark neutro e público de preço. Os valores vêm de fornecedores e distribuidores, com configurações que mudam a conta:

  • licença de software comprada ou por assinatura;
  • integração com o laboratório e com o software de desenho;
  • manutenção, garantia e troca de ponteira;
  • treinamento da equipe.

Por isso, comparar só o preço do aparelho engana. O que decide é o custo total de propriedade dividido pelo volume de casos que realmente vão passar pelo scanner. Veja como saber se a tecnologia da clínica se paga.

Sinal de virada: o SUS já distribui fluxo digital

Este é o dado mais recente e o que mais sinaliza mudança de padrão.

Em setembro de 2026, o Ministério da Saúde informou que 316 municípios já receberam os equipamentos dos combos de saúde bucal digital e que, ao todo, serão entregues 500 kits a 409 municípios, alguns com mais de um kit (Ministério da Saúde).

Os combos incluem:

  1. Scanner intraoral.
  2. Notebook e softwares de planejamento.
  3. Impressoras 3D.
  4. Equipamentos de lavagem e pós-cura.
  5. Nobreak e resinas para diferentes tipos de prótese.

As próteses vão para usuários do SUS, e dentistas e técnicos em prótese recebem qualificação em fluxo digital.

Por que isso importa para a clínica particular? Porque, à medida que o escaneamento chega à rede pública, ele deixa de ser novidade para o paciente. E o que vira comum deixa de diferenciar.

O precedente da radiologia digital

Vale olhar uma tecnologia digital que chegou ao consultório muito antes do scanner.

Num estudo transversal com 478 questionários de dentistas no Brasil (amostra de conveniência, recrutada em eventos odontológicos, por e-mail e por WhatsApp entre setembro de 2019 e junho de 2020), 51,1% usavam receptores de imagem digital, mas 48,9% ainda usavam exclusivamente filme radiográfico (Moreira-Souza e colaboradores, Odovtos, 2022).

A lição: no Brasil, a difusão de tecnologia digital no consultório é lenta, e a convivência entre o digital e o analógico pode durar anos. O scanner, com 15% dos titulares de consultório no levantamento de 2024, ainda está longe do ponto em que a radiologia digital já estava, mesmo considerando que as duas pesquisas ouviram públicos diferentes.

Veredito: o fluxo digital é padrão ou diferencial?

Com os dados na mesa, a resposta depende do tipo de caso que você vende. Esta é a nossa leitura dos números acima:

Perfil da clínica Status do fluxo digital O que fazer
Clínica geral com pouco volume de prótese Diferencial que não se paga sozinho Priorizar laboratório que aceite arquivo antes de comprar
Prótese, implante unitário e alinhador com volume semanal Tende a ser o mínimo esperado pelo paciente de alto ticket Scanner + laboratório como padrão da clínica
Reabilitação de arco total Diferencial com ressalva técnica Manter o convencional onde o arco total perde precisão
Entrega em sessão única (chairside) Exceção no Brasil, diferencial real de prazo Só com volume e equipe para operar fresadora ou impressora

A decisão de compra se resolve por volume de casos, não por modismo. Antes de assinar, responda:

  1. Quantas moldagens de prótese, implante e alinhador você faz por semana, e quantas iriam para o digital?
  2. Quanto desse volume é arco total, onde o convencional ainda pode ser mais preciso?
  3. Quem vai operar o scanner todos os dias, e com que treinamento?
  4. Você vai comunicar a tecnologia ao paciente, ou ela vai ficar escondida na sala?
  5. O custo total (aparelho, software, manutenção) cabe no volume real de casos?

Lembre: o digital deixa de ser diferencial no dia em que todo concorrente do seu porte tiver. Pelos dados da Key-Stone, esse dia ainda não chegou no Brasil, mas está mais perto nas clínicas grandes e em São Paulo.

Scanner não enche cadeira: onde o faturamento realmente trava

Pensa assim: o scanner melhora o que acontece depois que o paciente chega na cadeira. Ele não faz o paciente chegar.

E é antes da cadeira que boa parte do faturamento escapa.

Segundo dados internos da Odonto Results (2026), 46,0% dos leads de clínica odontológica chegam fora do horário comercial. Base: 16.719 leads na primeira mensagem do WhatsApp. Janela: 25 de março a 25 de agosto de 2026.

Segundo dados internos da Odonto Results (2026), 12% dos leads viram agendamento dentro do WhatsApp (faixa 9% a 15%), sem contar telefone. Base: 21.433 leads. Janela: 25 de março a 25 de agosto de 2026.

Segundo dados internos da Odonto Results, no funil completo (IA, equipe e telefone), 20% a 40% dos leads viram agendamento e 20% a 50% dos agendados comparecem. É uma faixa da operação, não uma medição de recorte datado: o fechamento por ligação não fica registrado na conversa.

O recado é direto. Se quase metade dos leads chega quando a recepção já foi embora e só uma parte vira agendamento e comparece, o gargalo não é a moldagem.

É captação, resposta, agendamento e comparecimento. Veja por que a velocidade de resposta decide quem fica com o paciente.

O scanner entra depois, como argumento de experiência e de fechamento para o paciente de alto ticket que já chegou. As duas coisas se somam, mas a ordem importa: primeiro o paciente na cadeira, depois a tecnologia que encanta quem está nela.

Seu próximo passo

  1. Encaixe a sua clínica na tabela do veredito. Identifique o seu perfil e decida se, para você, o digital é diferencial a construir ou mínimo a cumprir. Sem volume de casos, o aparelho fica parado e vira custo.
  2. Feche o fluxo com o laboratório. Confirme que o seu laboratório recebe arquivo, em que prazo devolve e quanto ajuste a peça pede, antes de pensar em fresadora ou impressora própria.
  3. Resolva o funil antes da tecnologia. Meça quanto lead chega fora do horário, quanto vira agendamento e quanto comparece. É ali que nasce a cadeira vazia, com ou sem scanner.

Quer que a sua tecnologia trabalhe com a agenda cheia de pacientes que de fato comparecem? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Quantos dentistas no Brasil têm scanner intraoral?

São 15% dos dentistas titulares de consultório, segundo pesquisa da Key-Stone para a ABIMO com apoio do CFO (relatório de setembro de 2024, 1.882 respondentes). Os outros 85% não têm. O número mede dentistas donos de consultório, não clínicas, e não há contagem pública de clínicas com scanner no país.

Quanto das moldagens feitas no Brasil já é digital?

Pouco. A Key-Stone estima que, no mercado total do Brasil, 8% das moldagens sejam digitais, 68% feitas com elastômero e 24% com alginato. Mesmo entre os dentistas que usam scanner, as moldagens digitais são em média 53% do total, então o convencional continua na rotina.

Vale a pena comprar scanner intraoral para a minha clínica?

Vale quando você tem volume semanal de casos de prótese, implante ou alinhador que use o arquivo digital e um laboratório que receba esse arquivo. A evidência clínica sustenta moldagem mais rápida e mais conforto para o paciente, com desfecho protético semelhante ao convencional. Comprar por modismo, sem volume, vira aparelho parado.

Quanto custa um scanner intraoral?

Nos EUA, a ADA indicou em 2022 uma faixa de compra de US$ 5.000 a US$ 23.000. No Brasil não encontramos referência neutra de preço: os valores vêm de fornecedores, com configurações diferentes de software, licença e manutenção. Compare o custo total de propriedade, não só o preço do aparelho.

Scanner intraoral traz mais pacientes para a clínica?

Sozinho, não. Ele melhora a experiência de quem já chegou na cadeira, mas o faturamento continua travando em captação, resposta, agendamento e comparecimento. Segundo dados internos da Odonto Results (2026), 46,0% dos leads chegam fora do horário comercial (base: 16.719 leads na primeira mensagem do WhatsApp; janela: 25 de março a 25 de agosto de 2026).

O fluxo digital vai virar padrão no Brasil?

Os sinais apontam nessa direção, mas devagar. O SUS já distribui combos com scanner e impressora 3D a municípios, e 25% dos dentistas titulares de consultório se declararam potenciais compradores de scanner dentro de um ano. Só que 58% não preveem diminuição significativa no uso dos materiais de moldagem de precisão.