Gestão da Clínica

O que fazer quando o paciente só quer ser atendido por mim e recusa o especialista da minha clínica?

Quando o paciente recusa o especialista e exige você, o problema quase nunca é preferência pessoal: é transferência de confiança malfeita. Veja as três causas que soam iguais, o que o Código de Ética Odontológica decide por você, o roteiro da passagem de caso na cadeira e os indicadores que provam se a transferência funcionou.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 23 de setembro de 2026 · 19 min de leitura
TL;DR

Trate a recusa como falha de transferência de confiança, não como capricho: apresente o especialista na sua cadeira, com você presente, entregando o caso em voz alta, e nunca quebre a regra ética de não executar procedimento para o qual você não está capacitado.

Pontos-chave
  • Confiança se ancora em comunicação, não só em técnica. Em estudo qualitativo da Faculty of Dentistry da University of Toronto (Canadá) com 25 pacientes entrevistados entre julho de 2023 e junho de 2024, cerca de metade (52%) relatou que a decisão de confiar no dentista se baseou na percepção da habilidade de comunicação e da empatia dele, e cerca de metade (48%) na percepção de competência, incluindo habilidade técnica e reputação profissional (Journal of Dental Education, via PubMed Central).
  • O limite não é comercial, é ético. O art. 11, V do Código de Ética Odontológica tipifica como infração ética "executar ou propor tratamento desnecessário ou para o qual não esteja capacitado", e o art. 1º regula os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos profissionais técnicos e auxiliares e das pessoas jurídicas que exerçam atividades na área da Odontologia (Conselho Federal de Odontologia, Resolução CFO-118/2012).
  • Comparecimento se mede, não se presume. Segundo dados internos da Odonto Results, no funil completo (IA, equipe e telefone) 20% a 40% dos leads viram agendamento e 20% a 50% dos agendados comparecem. Base: operação de atendimento das clínicas OR. É faixa operacional, não medição de recorte datado. A consulta transferida ao especialista merece o mesmo rigor de acompanhamento.

Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. As três recusas que soam iguais e pedem respostas diferentes
  4. O que o paciente está protegendo quando diz que só quer você
  5. O que o Código de Ética Odontológica já decide por você
  6. O protocolo de passagem de caso que a clínica importa da medicina hospitalar
  7. O roteiro da consulta em que você apresenta o especialista
  8. Onde a recusa nasce antes da cadeira
  9. O gargalo de capacidade: o preço de ser o único caminho
  10. Quando ceder e atender pessoalmente, sem criar precedente
  11. Quando o problema é o especialista, e não o paciente
  12. O que registrar em prontuário e no consentimento quando o paciente insiste
  13. Decisão compartilhada não é entregar o cardápio
  14. Os indicadores que dizem se a transferência funcionou
  15. Seu próximo passo
  16. Perguntas frequentes

"O que fazer quando o paciente só quer ser atendido por mim e recusa o especialista da minha clínica?"

Você montou o time certo. Contratou o implantodontista, trouxe a endodontista, fechou com a ortodontista.

E o paciente olha pra você e diz que só faz se for com você.

Não é teimosia. É o sinal de que a transferência de confiança não aconteceu, e ela é um procedimento da clínica, não um traço de personalidade do paciente.

Repare no que a evidência sugere sobre onde essa confiança se ancora. Em estudo qualitativo da Faculty of Dentistry da University of Toronto (Canadá) com 25 pacientes entrevistados entre julho de 2023 e junho de 2024, cerca de metade (52%) relatou que a decisão de confiar no dentista se baseou na percepção da habilidade de comunicação e da empatia dele, segundo o Journal of Dental Education. É amostra qualitativa pequena e canadense, não levantamento populacional brasileiro, mas aponta o mecanismo.

O paciente não está duvidando do currículo do seu especialista. Ele está duvidando de que alguém vá entender o caso dele do jeito que você entende.

Isso é resolvível, porque é processo.

Neste guia você vai ver:

  • As três causas diferentes que produzem exatamente a mesma frase de recusa.
  • O que o Código de Ética Odontológica já decide por você (e o que ele proíbe, mesmo que o paciente peça).
  • O roteiro da consulta em que você apresenta o especialista sem parecer que está passando o caso adiante.
  • Onde a recusa nasce antes da cadeira: agendamento, CRC e o texto que oferece a agenda de outro profissional.
  • Quando ceder e atender pessoalmente, sem criar precedente para a clínica inteira.
  • Os indicadores que provam se a transferência funcionou, em vez de você achar que funcionou.

As três recusas que soam iguais e pedem respostas diferentes

Todo mundo trata "só quero com você" como uma coisa só. São três, e a resposta certa para uma piora as outras duas.

Causa 1: vínculo real de continuidade. O paciente está no meio de um caso que você conduz, já explicou a história dele duas vezes e não quer explicar uma terceira. O que ele protege é a memória do caso.

Causa 2: transferência de confiança malfeita. Você (ou a recepção) anunciou a troca como logística. "A doutora vai te atender na quinta." Nada foi transferido, só realocado.

Causa 3: insegurança sobre quem é o novo profissional. O paciente não sabe nada sobre o especialista. Sem informação, ele usa o único dado disponível: você.

Causa O que o paciente diz Sinal de que é essa O que resolve O que piora
Vínculo de continuidade "Você já conhece o meu caso" Recusa aparece no meio do tratamento, não no início Passagem de caso em voz alta, na frente dele Pedir para ele "explicar de novo" ao especialista
Transferência malfeita "Por que não é com você?" Recusa aparece logo depois do agendamento Refazer a apresentação presencialmente, com você presente Insistir pela recepção, repetindo o mesmo recado
Insegurança sobre o novo "Ele é bom mesmo?" Recusa vem com pergunta sobre formação e experiência Credenciar o especialista com fatos antes da consulta Responder só "confia em mim"

Diagnostique antes de agir. A frase é idêntica; a causa, não.

O que o paciente está protegendo quando diz que só quer você

Vale entender o que está em jogo do lado dele, porque isso muda o argumento que você usa.

Confiança é comunicação somada a competência, não competência sozinha

No mesmo estudo canadense com 25 pacientes (coleta de julho de 2023 a junho de 2024), cerca de metade (48%) baseou a decisão de confiar no dentista na percepção da competência dele, incluindo habilidade técnica e reputação profissional, enquanto cerca de metade (52%) baseou na percepção de comunicação e empatia (Journal of Dental Education).

O que isso significa na prática? Anunciar o título do especialista trabalha só a competência percebida. A parte da comunicação e da empatia fica descoberta, e é justamente a que o paciente já construiu com você ao longo do tratamento.

O custo de recomeçar é real para ele, mesmo que seja invisível para você

Ainda no estudo qualitativo canadense (25 pacientes, 18 mulheres e 7 homens, de 22 a 68 anos, entrevistados entre julho de 2023 e junho de 2024), um participante descreveu assim o custo de trocar de dentista: a cada troca é preciso começar tudo de novo, e o novo profissional talvez esqueça algo que já havia sido feito (Journal of Dental Education).

Leia isso de novo pensando no seu paciente de reabilitação, que já contou a história do dente que trincou no casamento da filha.

Quando você transfere sem transferir o contexto, ele não está sendo difícil. Está calculando, com razão, que vai pagar o custo do recomeço.

Informação divergente dentro do time quebra a confiança mais rápido que preço

Esse é o gatilho que quase ninguém audita. No mesmo estudo de Toronto (25 pacientes, jul/2023 a jun/2024), um relato de quebra de confiança foi atribuído a informação divergente entre dois profissionais da mesma equipe: a higienista disse que gengiva e dentes estavam ótimos e, em seguida, o dentista disse que havia muito a fazer (Journal of Dental Education).

É uma amostra qualitativa pequena, então não trate como frequência de mercado. Trate como mecanismo, porque o mecanismo você reconhece: duas versões da mesma boca dentro da mesma clínica.

Se o seu especialista descreve o caso com outras palavras, outro prognóstico ou outro número de sessões, o paciente não conclui que um dos dois errou. Ele conclui que não dá para confiar em nenhum dos dois, e volta a pedir a única pessoa que ele já testou.

Lembre: a recusa do especialista quase nunca é sobre o especialista. É sobre o que o paciente acha que vai perder ao mudar de mãos.

Continuidade de cuidado é variável clínica, não capricho

Vale dizer com honestidade calibrada: continuidade com o mesmo profissional facilita acompanhamento longitudinal, reduz repetição de anamnese e concentra a responsabilidade do plano em alguém. Isso é razão legítima, não manha.

O que não é legítimo é usar a continuidade como argumento para executar o que você não domina. É aí que entra a parte que não se negocia.

O que o Código de Ética Odontológica já decide por você

Boa parte desse impasse parece dilema comercial e já está resolvida em norma. O Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012) trata de quatro pontos que importam aqui.

Você não executa o que não está capacitado a executar, mesmo que o paciente peça

O art. 11, V tipifica como infração ética "executar ou propor tratamento desnecessário ou para o qual não esteja capacitado".

Note o sujeito: o dever é do profissional que vai executar. O pedido do paciente não cria capacitação, não transfere risco e não serve de defesa. Ceder aqui é o único movimento desta lista que não tem versão elegante.

O Código alcança a pessoa jurídica, não só o profissional

O art. 1º é explícito: o Código regula os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos profissionais técnicos e auxiliares e das pessoas jurídicas que exerçam atividades na área da Odontologia, em âmbito público e/ou privado.

Você opera como clínica, com CNPJ e responsável técnico. A sua clínica não fica de fora do Código por ser empresa.

Um recorte específico ajuda a dimensionar isso: em matéria de publicidade e propaganda, o art. 45 determina que respondem solidariamente os proprietários, o responsável técnico e demais profissionais que tenham concorrido na infração, na medida de sua culpabilidade. O escopo do art. 45 é publicidade, não a conduta clínica em geral, e por isso ele não serve de fundamento para tudo. Mas serve como recado de que a responsabilidade não para na porta da sala.

O especialista atua na área requisitada e devolve o paciente a quem encaminhou

Esta é a parte que resolve boa parte do medo do paciente, e quase nunca é dita a ele.

O art. 23 determina que o especialista, atendendo a paciente encaminhado por cirurgião-dentista, atuará somente na área de sua especialidade requisitada. O parágrafo único completa: após o atendimento, o paciente será, com os informes pertinentes, restituído ao cirurgião-dentista que o encaminhou.

Traduzindo para a frase que o paciente precisa ouvir na cadeira: ele não está sendo entregue. Está sendo emprestado, com data de volta e com relatório.

Quando o impasse não tem saída: renúncia sim, abandono não

Existe um cenário em que o paciente não aceita o especialista, você não pode executar, e ninguém cede. O Código prevê a saída e também o erro.

A saída está no art. 5º, V, entre os direitos fundamentais do profissional: renunciar ao atendimento do paciente, durante o tratamento, quando da constatação de fatos que, a critério do profissional, prejudiquem o bom relacionamento com o paciente ou o pleno desempenho profissional. Nesses casos o profissional tem o dever de comunicar previamente, por escrito, ao paciente ou ao seu responsável legal, fornecendo ao cirurgião-dentista que lhe suceder todas as informações necessárias para a continuidade do tratamento.

O erro está no art. 11, VI, que considera infração ética "abandonar paciente, salvo por motivo justificável, circunstância em que serão conciliados os honorários e que deverá ser informado ao paciente ou ao seu responsável legal de necessidade da continuidade do tratamento".

A diferença entre as duas é processo, não intenção: comunicação prévia por escrito, honorários conciliados, informação sobre a necessidade de continuidade e repasse das informações ao sucessor. Sem isso, a mesma decisão muda de nome.

O protocolo de passagem de caso que a clínica importa da medicina hospitalar

Na medicina hospitalar, a passagem de plantão é tratada como procedimento formal, não como conversa de corredor, porque é ali que o contexto se perde. Dois formatos ficaram conhecidos e cabem na odontologia sem adaptação complicada.

SBAR organiza a entrega em quatro blocos: situação, background (histórico), avaliação e recomendação. É rápido e bom para caso pontual.

I-PASS é mais completo e serve para caso longo: gravidade do caso, resumo do paciente, lista de ações com responsável, consciência da situação com planos de contingência, e síntese pelo receptor.

O último item é o que quase toda clínica pula.

Síntese pelo receptor significa que quem recebe repete em voz alta o que entendeu, e quem entrega corrige. Sem isso, você não passou o caso: você falou sobre o caso.

Elemento do protocolo Como fica na clínica odontológica O que falha quando some
Situação Exemplo: "caso de reabilitação, fase de implante, paciente em acompanhamento desde o ano passado" O especialista começa do zero e o paciente percebe
Histórico Queixa inicial, o que já foi tentado, medos declarados, acordos combinados Some o combinado sobre prazo, valor e sessões
Avaliação Sua leitura clínica e o que ainda está em aberto O especialista dá outro prognóstico na frente do paciente
Ações com responsável Quem faz o quê e até quando Tarefa sem dono, caso parado entre duas agendas
Síntese pelo receptor O especialista devolve em voz alta o que entendeu Você descobre o mal-entendido semanas depois
Ambiente sem interrupção Passagem feita fora do corredor, sem telefone tocando Metade da informação se perde no meio da frase

O paciente não precisa entender o protocolo. Ele precisa assistir a ele acontecendo.

O roteiro da consulta em que você apresenta o especialista

Aqui é onde a recusa se resolve ou nasce. Cinco movimentos, na ordem.

  1. Você fala primeiro, e fala do caso, não da agenda. "Esse caso tem uma etapa que exige implantodontia. Eu continuo responsável pelo plano inteiro." O paciente precisa ouvir que você não está saindo.
  2. Credencie o especialista com fato, não com adjetivo. Formação, quantos casos como o dele, quanto tempo no seu time. "Ela é ótima" não credencia ninguém; quem diz isso é quem vende.
  3. Faça a entrega em voz alta, na frente do paciente. Você resume o caso no formato acima. O paciente ouve a própria história sendo transferida com precisão, incluindo o medo que ele declarou.
  4. Peça a síntese. O especialista devolve o que entendeu e faz uma pergunta técnica ao paciente. Nesse instante o paciente vê alguém que já sabe do caso dele.
  5. Marque o seu retorno antes de sair da sala. "Depois dessa fase, você volta comigo no dia X." Isso é o art. 23 em linguagem de paciente, e é o que desarma o medo de ser descartado.

Transferência na sala x recado da recepção

Essas duas coisas não são variações da mesma prática.

Critério Transferência presencial na sala Recado da recepção
Quem apresenta Você, dono do caso Alguém que não participou da consulta
O que o paciente ouve O caso dele sendo entregue com contexto Um nome e um horário
Contexto transferido Histórico, medos, acordos, plano Nome do procedimento
Custo de tempo Alguns minutos da sua agenda, dentro da consulta que já está acontecendo Zero
Resultado típico Aceite na hora "Prefiro esperar a sua agenda abrir"

Esses minutos parecem caros até você comparar com uma cadeira de especialista vazia e um caso parado.

Onde a recusa nasce antes da cadeira

Muita recusa que você vê na consulta já foi criada no agendamento, dias antes.

O padrão é este: o paciente pede a sua agenda, a CRC vê que está cheia e oferece outro profissional como alternativa de disponibilidade. "Com o doutor está só em novembro, mas tenho a doutora na quinta." A frase é honesta e destrói a transferência, porque enquadra o especialista como plano B.

Reescreva o script para enquadrar por indicação técnica, não por vaga livre:

  • Errado: "A agenda dele está cheia, quer com outro profissional?"
  • Certo: "Esse caso é de endodontia, então quem atende é a especialista da área. O doutor segue como responsável pelo plano."

Vale medir esse ponto do funil em vez de supor. Segundo dados internos da Odonto Results, no funil completo (IA, equipe e telefone) 20% a 40% dos leads viram agendamento e 20% a 50% dos agendados comparecem. Base: operação de atendimento das clínicas OR. É faixa operacional, não medição de recorte datado. O recado prático: entre marcar e a pessoa estar na cadeira existe uma perda real, e um agendamento que já nasce como segunda opção entra nessa perda com vantagem.

Se a sua clínica roteia lead por especialidade, o momento de acertar o enquadramento é o primeiro contato, não a consulta. Quem dá a primeira resposta decide se o especialista entra como indicação técnica ou como vaga sobrando.

O gargalo de capacidade: o preço de ser o único caminho

Agora a conta de negócio, que costuma ser o argumento que convence o dono mais rápido que qualquer outro.

Quando a sua agenda é o único caminho para o paciente, três coisas acontecem ao mesmo tempo:

  1. O prazo do tratamento estica. O caso avança na velocidade da sua disponibilidade, não da necessidade clínica.
  2. A cadeira do especialista fica ociosa. Você paga custo fixo de uma capacidade que ninguém usa.
  3. O ticket do caso reabilitador encolhe ou atrasa. Caso longo que depende de uma agenda só perde etapas pelo caminho e vira orçamento em aberto.

Não dá para cravar um percentual aqui, porque esse número é específico da sua operação. Mas ele é calculável, e vale a pena calcular: pegue as horas de especialista compradas por mês, subtraia as horas efetivamente ocupadas e multiplique pelo valor hora da cadeira.

O resultado costuma ser maior do que o desconto que você daria para fechar o mesmo caso.

Se esse é o seu cenário estrutural, o problema já não é um paciente teimoso. Veja como destravar o gargalo de um único especialista na agenda.

Quando ceder e atender pessoalmente, sem criar precedente

Existe hora de ceder. Ceder não é fracasso, desde que seja decisão consciente e documentada.

Ceda quando:

  • O procedimento está dentro da sua capacitação (essa condição não é negociável, pelo art. 11, V).
  • O caso está em fase crítica e a troca de mãos agora aumenta risco clínico real.
  • O paciente é âncora de indicação e a relação vale mais que a otimização da agenda neste caso específico.

Não ceda quando o motivo é evitar a conversa difícil. É esse motivo que cria precedente.

E blinde o precedente com duas providências:

  1. Registre por que cedeu, em uma linha no prontuário. Exceção registrada continua sendo exceção; exceção informal vira regra rápido.
  2. Mantenha a etapa seguinte no especialista. Você atende esta fase, a próxima já vai com transferência presencial marcada.

Uma exceção nomeada não contamina a política. Uma exceção silenciosa contamina.

Quando o problema é o especialista, e não o paciente

Antes de treinar o paciente, audite o time. A recusa pode ser um sintoma honesto.

Olhe o padrão, não o caso:

  • A recusa se concentra num profissional específico? É integração dele, não apego a você.
  • Se concentra num turno? Olhe a recepção daquele turno e o script usado ali.
  • Se concentra numa especialidade? O enquadramento daquela etapa está sendo feito como custo extra, não como parte do plano.
  • Os pacientes voltam pedindo você depois da primeira consulta com o especialista? Aí não é medo do desconhecido: é experiência ruim vivida.

Um sinal recorrente: o especialista descreve o caso com outras palavras e outro prognóstico. Isso é o gatilho de informação divergente citado antes, e ele nasce de passagem de caso malfeita, não de má-fé.

A correção é alinhamento prévio, não conversa com o paciente. Esse alinhamento tem estrutura própria, e vale ver como orquestrar um time multiespecialista e definir quem é o dono do caso.

Há ainda o pano de fundo de mercado: especialista bom é disputado, e clínica que só apresenta o especialista como tapa-buraco de agenda não retém quem contratou. Retenção do especialista começa no jeito como você o apresenta ao paciente.

O que registrar em prontuário e no consentimento quando o paciente insiste

Se o paciente insiste em ser atendido por você contra a indicação técnica, a conversa precisa virar registro. Não por desconfiança: por rastreabilidade.

Registre, em linguagem objetiva:

  1. A indicação técnica dada, com a especialidade indicada e o motivo clínico.
  2. A recusa do paciente, com as palavras dele quando possível.
  3. Os riscos e alternativas esclarecidos, incluindo o que muda no prognóstico e no prazo.
  4. A decisão tomada e por quem, com data.
  5. O encaminhamento oferecido, mesmo que recusado.

No termo de consentimento, o ponto sensível é não transformar o documento em escudo. Ele descreve o procedimento, os riscos, as alternativas e a decisão informada. Ele não autoriza execução fora da capacitação do profissional, porque nenhuma assinatura de paciente supera o art. 11, V.

Se o seu prontuário não sustenta esse tipo de registro hoje, o problema é anterior ao caso. Vale rodar uma auditoria de prontuário odontológico antes que a próxima recusa vire discussão sem lastro documental.

Decisão compartilhada não é entregar o cardápio

Existe uma confusão cara aqui, e ela é a razão de muito "eu expliquei tudo e ele ainda recusou".

Prática defensiva é listar opções, registrar que listou e deixar o paciente decidir sozinho. Protege o profissional e não transfere confiança nenhuma, porque o paciente sai com mais dúvida do que entrou.

Decisão compartilhada é outra coisa: você apresenta as opções, diz qual recomenda e por quê, e assume a recomendação. Depois pergunta o que preocupa o paciente naquela recomendação, e responde àquilo especificamente.

A diferença aparece numa frase.

  • Cardápio: "Pode ser comigo ou com a especialista, você decide."
  • Decisão compartilhada: "Eu recomendo com a especialista, por esse motivo clínico. O que te preocupa nessa mudança?"

A segunda versão mantém você como autoridade do caso e dá ao paciente o espaço para dizer o medo real, que quase sempre é o de perder você.

E aí você responde a coisa certa: pelo art. 23, ele volta.

Os indicadores que dizem se a transferência funcionou

Sem medir, você troca uma impressão por outra. Quatro indicadores dão o quadro, e todos saem da agenda que você já tem.

Indicador Como calcular O que revela
Taxa de aceite do especialista Pacientes que aceitam a indicação / pacientes indicados Mede a qualidade da apresentação, não do especialista
Comparecimento na consulta transferida Pacientes que comparecem / pacientes agendados com o especialista Aceite verbal sem comparecimento é recusa educada
Abandono pós-transferência Pacientes que somem depois da primeira consulta com o especialista / total transferido Isola experiência ruim de medo prévio
Retorno ao responsável pelo plano Pacientes que voltam a você após a etapa / total transferido Mede se a devolução do art. 23 está acontecendo de fato

Quebre cada um por profissional e por origem da transferência (sala x recepção). É nesse recorte que o problema aparece com nome e endereço.

Meça também o intervalo entre a indicação e a consulta com o especialista. Intervalo grande é caso esfriando, e caso esfriado vira recusa retroativa: o paciente deixa de ver necessidade e volta a pedir a sua agenda.

Se a sua clínica já estruturou a passagem entre profissionais, a próxima camada é a transição de paciente entre especialistas na mesma clínica, que trata do caso que atravessa três ou quatro mãos.

Seu próximo passo

  1. Escolha os próximos 10 casos que exigem especialista e faça a transferência presencial. Você apresenta, entrega o caso em voz alta, o especialista devolve a síntese e você marca o seu retorno na frente do paciente. Sem recado de recepção nessa amostra.
  2. Reescreva o script do agendamento para enquadrar por indicação técnica. Tire "a agenda dele está cheia" do vocabulário da CRC e coloque "esse caso é da área X, e o responsável pelo plano continua sendo o doutor". Revise as gravações da semana seguinte para conferir se pegou.
  3. Meça aceite, comparecimento, abandono e retorno por profissional durante 60 dias. Compare transferência na sala com recado da recepção. O número vai dizer se você tem um problema de paciente, de protocolo ou de especialista, e cada um desses tem uma correção diferente.

Quer estruturar a captação e o atendimento da sua clínica para que o paciente chegue certo, aceite a indicação técnica e compareça? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

O paciente pode exigir ser atendido só por mim, mesmo que eu não seja especialista naquela área?

Ele pode pedir, e você não é obrigado a aceitar. O art. 11, V do Código de Ética Odontológica tipifica como infração ética executar ou propor tratamento para o qual o profissional não esteja capacitado. A vontade do paciente não cria capacitação técnica. O que você deve a ele é esclarecimento, não obediência.

Posso fazer o procedimento eu mesmo para não perder o paciente?

Não, quando o procedimento está fora da sua capacitação. Além de ser infração ética pelo art. 11, V, você assume o risco clínico e a responsabilidade de um caso que não domina. O paciente que você "não perdeu" vira o caso que você não consegue resolver. Perder um procedimento é barato; perder um caso mal executado, não.

O que o Código de Ética diz sobre o especialista que atende dentro da minha clínica?

O art. 23 determina que o especialista, atendendo paciente encaminhado por cirurgião-dentista, atue somente na área da especialidade requisitada. O parágrafo único completa: após o atendimento, o paciente será restituído, com os informes pertinentes, ao cirurgião-dentista que o encaminhou. Ou seja, encaminhar não é entregar o paciente para sempre.

Como apresentar o especialista sem o paciente achar que está sendo descartado?

Faça a transferência presencial, na sua cadeira, com você presente e falando primeiro. Você entrega o caso em voz alta na frente do paciente, o especialista devolve uma síntese do que entendeu, e você diz quando vai revê-lo. O paciente precisa ouvir que você continua dono do caso, não que está saindo dele.

Posso recusar continuar o tratamento se o paciente não aceitar o especialista?

O art. 5º, V do Código de Ética Odontológica coloca entre os direitos fundamentais do profissional renunciar ao atendimento do paciente durante o tratamento, quando constatar fatos que, a critério dele, prejudiquem o bom relacionamento ou o pleno desempenho profissional. A renúncia exige comunicação prévia por escrito e a entrega, ao cirurgião-dentista sucessor, de todas as informações necessárias à continuidade.

Como saber se o problema é o paciente ou o meu especialista?

Olhe o padrão, não o caso isolado. Se a recusa se concentra num profissional específico, num turno específico ou numa especialidade específica, o problema é de integração, não de apego. Se a taxa de aceite do especialista cai só quando a transferência sai por recado da recepção, o problema é o seu protocolo.