Custos e ROI

Como montar o plano de contas da clínica pra que o DRE seja comparável mês a mês e entre unidades?

O DRE da clínica só compara mês a mês e entre unidades quando a mesma despesa cai sempre na mesma conta, pela mesma regra. Veja como montar o plano de contas gerencial: níveis e códigos estáveis, natureza separada da unidade, ordem das linhas, dicionário de contas, rateio da estrutura central, versionamento e fechamento mensal, com a lógica do CPC 26 e do CPC 22.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 9 de outubro de 2026 · 31 min de leitura
TL;DR

Monte um plano gerencial seu, ligado ao do contador por uma tabela de-para, classifique cada gasto pela natureza e registre a unidade como centro de custo, escreva a regra de cada conta e reclassifique o histórico sempre que o plano mudar.

Pontos-chave
  • Consistência é a regra que torna o DRE comparável: o CPC 26 (R1), item 45, manda manter a apresentação e a classificação de itens de um período para outro (salvo as exceções que prevê), e o item 41 manda reclassificar os comparativos quando a classificação muda, a menos que seja impraticável. O pronunciamento se dirige às demonstrações contábeis das entidades; no DRE gerencial da clínica, vale como princípio de referência.
  • Classifique o gasto pela natureza e marque a unidade em outra dimensão: o CPC 26 (R1), itens 102 e 103, separa a despesa por natureza da despesa por função e reconhece que a alocação por função pode exigir alocações arbitrárias e envolver considerável julgamento. Aplicando a mesma cautela ao DRE gerencial, o rateio da estrutura central fica numa linha própria, abaixo do resultado da unidade.
  • Cada unidade da rede pode ser lida como o segmento operacional do CPC 22: desenvolve atividades das quais pode obter receitas e incorrer em despesas, tem resultados revistos regularmente pelo principal gestor e informação financeira individualizada. A norma só é obrigatória para entidades com instrumentos negociados em mercado de capitais (ou em registro na CVM); para a clínica, é lógica de referência.

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Por que o DRE da sua clínica muda de forma todo mês
  4. Dois planos e uma tabela de-para: o contábil e o gerencial
  5. A estrutura em quatro níveis e o código que nunca muda
  6. Natureza e unidade: duas dimensões, nunca uma conta por unidade
  7. A ordem das linhas do DRE gerencial (modelo completo)
  8. Receita: particular x convênio, especialidade e produção x recebido
  9. Os três custos variáveis que mais quebram a comparação
  10. Folha e pró-labore: contas próprias (e o que o Simples tem a ver com isso)
  11. Marketing e aquisição de pacientes numa linha só dela
  12. Despesa pessoal do sócio: como tirar do DRE
  13. Itens não recorrentes: a linha que protege a leitura mês a mês
  14. Dicionário de contas: a regra escrita e o dono do plano
  15. Versionamento: mudou o plano, refaça o histórico
  16. Como comparar unidades: margem antes do rateio, rateio com critério fixo
  17. Normalize antes de comparar: % da receita, cadeira e dentista-hora
  18. Fechamento mensal com calendário fixo
  19. Implantação em 30 dias (roteiro semana a semana)
  20. Autoauditoria: sete sinais de que o seu plano atual não compara
  21. O que as normas dizem, e a quem se dirigem
  22. Seu próximo passo
  23. Perguntas frequentes

"Como montar o plano de contas da clínica pra que o DRE seja comparável mês a mês e entre unidades?"

Você abre o DRE de março, depois o de abril, e a margem da clínica parece ter mudado de patamar.

Só que nada mudou na operação. Mudou quem lançou.

Em março, o laboratório protético entrou em "suprimentos". Em abril, ganhou conta própria. Na unidade nova, a taxa da maquininha virou despesa financeira; na antiga, continua como dedução da receita.

O DRE não mente. Ele só responde a uma pergunta diferente a cada mês.

A resposta direta: o DRE fica comparável quando a mesma despesa cai sempre na mesma conta, em todas as unidades, pela mesma regra escrita. Isso exige um plano de contas gerencial com código estável, a natureza do gasto separada da unidade onde ele aconteceu, um dicionário de contas e disciplina de versão: mudou o plano, refaz o histórico.

É a mesma lógica que o CPC 26 (R1) aplica às demonstrações contábeis das entidades: manter a classificação de um período para outro, salvo as exceções que ele prevê (item 45), e reclassificar os comparativos quando ela muda, a menos que seja impraticável (item 41). No seu DRE gerencial, ninguém obriga. Mas sem isso não existe comparação.

Neste guia você vai ver:

  • Por que o DRE muda de forma todo mês, e onde está a causa
  • Como separar o plano do contador do plano de decisão, com uma tabela de-para
  • A estrutura em níveis, a codificação estável e a ordem das linhas do DRE gerencial
  • Como tratar receita, laboratório, materiais, comissão, folha, pró-labore, marketing e gasto do sócio
  • Como comparar unidades sem deixar o rateio decidir o ranking
  • O fechamento mensal, o roteiro de implantação em 30 dias e o que as normas dizem (e a quem se dirigem)

Por que o DRE da sua clínica muda de forma todo mês

Pensa num caso clássico: a conta "suprimentos".

Num mês ela tem luva, resina e anestésico. No outro, alguém lança ali a nota do laboratório porque "é material da prótese". No terceiro, entra o café da recepção.

O total oscila, e você tira conclusões sobre custo de material que, na verdade, são conclusões sobre quem estava lançando.

Repare nas três causas, que costumam aparecer juntas:

  1. A regra mora na cabeça de alguém. Não existe definição escrita do que entra em cada conta. Troca a pessoa do financeiro, troca a classificação.
  2. O plano mistura dimensões. Contas que dizem o que é o gasto convivem com contas que dizem onde ele aconteceu ("Aluguel Unidade Centro") ou de quem foi comprado ("Fornecedor X").
  3. O plano muda sem levar o passado junto. Uma conta nova nasce em junho, o primeiro semestre fica no formato antigo, e a comparação com o ano anterior morre ali.

Entre unidades, piora. Cada gerente classifica do seu jeito, e a diferença de margem entre duas unidades pode ser só diferença de critério.

O conserto não é uma planilha mais bonita. É uma arquitetura de contas que deixa o mínimo possível para o julgamento de quem lança.

Lembre: o plano de contas não é um documento do contador. É o idioma em que a sua clínica conta a própria história todo mês. Se o idioma muda, a história não compara.

Dois planos e uma tabela de-para: o contábil e o gerencial

A primeira decisão é aceitar que existem dois planos de contas, com donos e finalidades diferentes.

O plano contábil é do escritório de contabilidade. Ele serve à escrituração, às obrigações fiscais e às demonstrações societárias. Segue a estrutura que o contador precisa, e você não deve brigar com ela.

O plano gerencial é seu. Ele serve à decisão: margem por unidade, peso do laboratório, custo de aquisição de paciente, resultado antes e depois da estrutura central. É ele que gera o DRE que você lê todo mês.

O que liga os dois é uma tabela de-para: cada conta analítica gerencial aponta para uma conta contábil. Assim o total gerencial do mês bate com o contábil, e as diferenças (provisões, ajustes de competência, reclassificações gerenciais) ficam conhecidas e explicadas.

É assim que fica, em formato de exemplo:

Conta gerencial (sua) Destino no plano contábil (do escritório) Por que o gerencial abre diferente
3.1.01.001 Laboratório - prótese fixa Serviços de terceiros O contábil não precisa separar laboratório; você precisa
3.1.03.001 Repasse a dentista associado Serviços de terceiros Mesmo destino contábil, linha gerencial própria
4.1.01.001 Mídia paga Propaganda e publicidade O gerencial separa mídia, agência e ferramentas
4.2.01.001 Agência e gestão de campanhas Propaganda e publicidade Idem
9.1.01.001 Retiradas pessoais do sócio Conta definida pelo contador Fica fora do DRE gerencial

Repare no padrão: o gerencial é mais aberto que o contábil nas linhas que mudam decisão, e pode ser mais enxuto nas que não mudam decisão nenhuma.

Dica: leve a tabela de-para para o contador validar. Quando os dois planos conversam, a conferência do mês deixa de ser discussão e vira conciliação.

A estrutura em quatro níveis e o código que nunca muda

Um plano comparável é uma árvore. Quatro níveis resolvem a operação de uma clínica ou de uma rede:

  1. Grupo: o bloco do DRE (receita, deduções, custos variáveis, despesas fixas).
  2. Subgrupo: a família dentro do bloco (custos clínicos, pessoal, ocupação).
  3. Conta sintética: o agrupador que aparece no relatório (laboratório protético, materiais).
  4. Conta analítica: a única que recebe lançamento (laboratório de prótese fixa, implantes e componentes).

A regra que sustenta tudo: só a conta analítica recebe lançamento. Grupo, subgrupo e sintética são soma. Se alguém lança direto num agrupador, a árvore perde a capacidade de abrir o número.

Veja um exemplo de codificação:

3              CUSTOS VARIÁVEIS DIRETOS                 grupo
3.1            Custos clínicos                          subgrupo
3.1.01         Laboratório protético                    sintética
3.1.01.001     Laboratório - prótese fixa               analítica
3.1.01.002     Laboratório - prótese removível          analítica
3.1.01.003     Laboratório - placas e guias             analítica
3.1.01.009     Laboratório - refação e garantia         analítica
3.1.02         Materiais e insumos                      sintética
3.1.02.001     Materiais de consumo clínico             analítica
3.1.02.002     Implantes e componentes protéticos       analítica

E as regras de codificação que mantêm a árvore estável:

  • Código não se reaproveita. Conta extinta fica inativa e o número dela nunca volta com outro significado.
  • Deixe intervalos. A numeração pula de propósito para caber conta nova sem renumerar as vizinhas.
  • Mesmo código em todas as unidades. É exatamente isso que permite somar e comparar.
  • O nome descreve a natureza. Nunca o fornecedor, nunca a unidade, nunca a pessoa.
  • "Outros" existe, mas tem dono. Cada subgrupo pode ter uma conta de outros, com revisão mensal e um teto de materialidade definido por você. Passou do teto, nasce conta nova.

Natureza e unidade: duas dimensões, nunca uma conta por unidade

Esse é o erro que mais trava a comparação entre unidades.

A conta responde o que é o gasto. O centro de custo responde onde ele aconteceu. São duas dimensões do mesmo lançamento, e nenhuma substitui a outra.

Pensa no aluguel da Unidade Centro:

  • Errado: criar a conta "Aluguel Unidade Centro".
  • Certo: lançar na conta 5.2.01.001 Aluguel, com centro de custo "Unidade Centro".

O que o jeito errado faz com você:

  • O plano se multiplica pelo número de unidades a cada linha.
  • Toda inauguração exige criar dezenas de contas novas.
  • O consolidado vira soma manual, e cada unidade ganha a própria versão da mesma conta.

Com a dimensão separada, o plano é um só. Você filtra por unidade, soma a rede ou compara lado a lado sem mexer na estrutura.

Os centros de custo que costumam bastar:

  1. Uma por unidade, com o mesmo código em todos os sistemas.
  2. Central, para a estrutura compartilhada (central de agendamento, financeiro, marketing da rede, diretoria).
  3. Expansão, para o gasto de uma unidade que ainda não abriu, sem contaminar as que já operam.

Se você quiser ir além, uma terceira dimensão (profissional ou especialidade) abre a leitura por dentista sem criar conta nova. O detalhe de como desenhar os centros está no guia de centro de custo por unidade e consultório.

Mas tem um detalhe técnico que vale entender.

O CPC 26 (R1), itens 102 e 103, descreve duas formas de classificar a despesa no resultado: por natureza (depreciações, compras de materiais, benefícios aos empregados, publicidade, sem realocar entre as funções) e por função (custo dos serviços, despesas de vendas, administrativas). E reconhece que a alocação por função "pode exigir alocações arbitrárias e envolver considerável julgamento".

O DRE gerencial da clínica é um híbrido: os blocos são funcionais (custo variável, despesa fixa da unidade, estrutura central), mas cada linha dentro deles guarda a natureza. O item 104 do mesmo pronunciamento vai na mesma direção: quem apresenta por função deve divulgar informação adicional sobre a natureza das despesas.

Traduzindo para a sua planilha: nunca perca a natureza, e confine o julgamento arbitrário a uma linha só, a do rateio.

A ordem das linhas do DRE gerencial (modelo completo)

Com os níveis e as dimensões definidos, a ordem das linhas é o que transforma o plano em leitura de decisão.

Veja o modelo, de cima para baixo:

Linha do DRE gerencial O que entra Pergunta que responde
Receita bruta Produção executada no mês, particular e convênio Quanto a clínica produziu?
(-) Deduções Tributos sobre a receita, taxa de administração de cartão, glosas de convênio, descontos e cancelamentos Quanto da produção não fica com você?
= Receita líquida Qual é a base de todas as análises percentuais?
(-) Custos variáveis diretos Laboratório, materiais e insumos consumidos, implantes e componentes, repasse e comissão de dentista, comissão comercial Quanto custa produzir o que foi produzido?
= Margem de contribuição Quanto cada real produzido deixa para pagar a estrutura?
(-) Marketing e aquisição Mídia paga, agência, produção de conteúdo, ferramentas de captação e atendimento Quanto custa trazer o paciente até a cadeira?
(-) Despesas fixas da unidade Pessoal da unidade, ocupação, manutenção, esterilização, administrativas locais Quanto custa manter a unidade de portas abertas?
= Resultado da unidade A unidade se paga sozinha?
(-) Rateio da estrutura central Central de agendamento, financeiro, marketing da rede, diretoria e pró-labore de gestão Quanto da estrutura compartilhada cabe a ela?
= EBITDA recorrente A operação recorrente gera caixa?
(-) Itens não recorrentes Eventos atípicos, em linha separada O que distorceu este mês e não volta?
= EBITDA
(-) Depreciação e amortização Equipamentos, reformas, software Quanto do ativo foi consumido?
(+/-) Resultado financeiro Juros, tarifas bancárias, antecipação de recebíveis, rendimentos Quanto custa o dinheiro?
(-) Tributos sobre o lucro Só quando o regime tributário os separa da receita
= Resultado líquido Quanto sobrou de verdade?

Três escolhas desse modelo merecem uma regra escrita, porque são as que mais mudam de mês para mês:

  1. Taxa de cartão. A taxa de administração da adquirente vai para as deduções (ela acompanha a venda); a antecipação de recebíveis vai para o resultado financeiro (ela é decisão de caixa). Outra convenção é defensável. Alternar entre as duas não é.
  2. Tributos. No Simples Nacional, o DAS é calculado sobre a receita bruta e fica nas deduções. Se o regime da clínica separa tributos sobre o lucro, eles ganham linha própria no fim. A apuração é do contador; a posição da linha no DRE gerencial é sua.
  3. Marketing fora das despesas administrativas. Ele ganha bloco próprio logo abaixo da margem de contribuição, por motivos que você vai ver adiante.

Se você ainda está montando o primeiro DRE da clínica, vale começar pelo guia de como montar uma DRE para clínica odontológica e voltar aqui para a parte de padronização.

Receita: particular x convênio, especialidade e produção x recebido

A receita é onde a comparação quebra primeiro, porque existem três números diferentes que todo mundo chama de "faturamento".

Repare na diferença:

  • Vendido: orçamento aprovado. É número do comercial, não do DRE.
  • Produzido (executado): procedimento feito no mês. É a receita do DRE gerencial.
  • Recebido: dinheiro que entrou. É número do fluxo de caixa.

A regra do DRE é o regime de competência: a receita entra no mês em que o procedimento foi executado, não no mês em que o paciente pagou.

A referência legal dessa lógica está no art. 177 da Lei 6.404/1976, que se dirige à escrituração da companhia (sociedade por ações): ela deve observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. Para o DRE gerencial da clínica, é princípio, não obrigação. Mas é o princípio certo.

Na prática, isso significa:

  • O paciente que pagou o tratamento inteiro adiantado gera caixa hoje, mas a receita só aparece no DRE conforme o tratamento é executado. Até lá, é um compromisso com ele.
  • Mês com muito recebimento antigo e pouca produção parece ótimo no extrato e fraco no DRE. É o DRE que está certo sobre a produção do mês.

Agora, a abertura da receita:

  1. Particular e convênio em contas analíticas separadas. As deduções são diferentes (glosa só existe no convênio), o prazo é diferente e, muitas vezes, a régua de repasse ao dentista também.
  2. Especialidade como dimensão, não como conta. Marque a especialidade no sistema clínico (implante, ortodontia, estética, clínica geral) e filtre. Se o seu sistema não aceita essa marcação, use uma lista fechada de contas analíticas de receita, idêntica em todas as unidades.
  3. Desconto concedido em dedução própria, se o sistema registra preço de tabela e desconto. Assim você enxerga quanto da tabela se perde em cada unidade, em vez de ver só a receita já descontada.

Os três custos variáveis que mais quebram a comparação

Custos variáveis diretos são os que andam junto com a produção. Três deles costumam concentrar as distorções entre meses e entre unidades.

Laboratório protético

  • Conta própria, sempre. Nunca dentro de materiais ou suprimentos. É o caso clássico da conta que "às vezes inclui laboratório, às vezes não".
  • Competência do serviço, não data da nota nem do pagamento. O laboratório entra no mês do serviço vinculado ao paciente e ao procedimento, para casar com a receita que ele gerou.
  • Refação e garantia em analítica separada. É custo de qualidade, e misturado com o laboratório normal ele some.

Materiais e insumos: compra não é consumo

Comprar o estoque do trimestre num mês só joga o custo inteiro naquele mês e deixa os seguintes artificialmente baratos.

Você tem três caminhos, do mais completo ao mínimo aceitável:

  1. Estoque com inventário mensal dos itens de maior valor: consumo do mês = estoque inicial + compras - estoque final.
  2. Consumo padrão por procedimento (o kit de cada procedimento), com ajuste periódico pelo inventário.
  3. No mínimo, implantes e componentes protéticos por paciente, em conta própria. Costumam ser os itens de maior valor unitário e os mais fáceis de vincular ao procedimento.

Se a rede compra de forma centralizada, a central compra e transfere para as unidades a custo. A unidade registra o consumo; a central não vira "unidade que gasta muito com material".

Comissão e repasse do dentista

  • Repasse do associado é custo variável direto. Ele existe porque o procedimento existiu.
  • Base coerente com o DRE. Se o repasse é pago sobre o recebido, mas o DRE é por competência, provisione o repasse sobre a produção executada do mês. Senão a receita está num mês e o custo dela em outro.
  • Dentista com salário fixo vai para pessoal clínico, em despesa fixa da unidade, numa conta separada.

Esse último ponto tem uma consequência que pouca gente percebe.

Uma unidade com associados por repasse tem margem de contribuição menor e despesa fixa menor. Uma unidade com dentistas assalariados tem o contrário. Comparar as duas só pela margem de contribuição engana. Quando os modelos de remuneração diferem, a comparação justa é no resultado da unidade, depois das despesas fixas.

A comissão comercial (da CRC ou do time de fechamento) também é variável e merece analítica própria, separada do repasse clínico.

Folha e pró-labore: contas próprias (e o que o Simples tem a ver com isso)

Pessoal costuma ser uma das linhas mais pesadas da estrutura fixa, e é a mais fácil de virar um bolo único.

Abra em analíticas separadas, por centro de custo:

  • Salários
  • Encargos (contribuição previdenciária patronal, FGTS)
  • Provisão de 13º salário
  • Provisão de férias, com o adicional
  • Benefícios (vale-transporte, alimentação, plano de saúde)
  • Pró-labore dos sócios
  • Pessoal clínico assalariado, separado do administrativo

E deixe fora do DRE a distribuição de lucros: ela é destinação do resultado, não despesa para produzi-lo.

Existe ainda um motivo tributário para o pró-labore ter conta própria.

A Lei Complementar 123/2006, que rege as microempresas e empresas de pequeno porte do Simples Nacional, usa a relação entre folha de salários e receita bruta para decidir se a odontologia é tributada no Anexo III ou no Anexo V (art. 18, §§ 5º-B e 5º-M), e conta como folha as remunerações pagas, incluídas as retiradas de pró-labore, mais a contribuição patronal previdenciária e o FGTS (art. 18, § 24). O mercado chama essa relação de Fator R.

O cálculo e a decisão são do seu contador. O que cabe ao plano gerencial é entregar folha e pró-labore limpos, em contas próprias, todo mês, sem misturar pró-labore com distribuição de lucro nem com despesa pessoal do sócio.

Marketing e aquisição de pacientes numa linha só dela

Marketing enterrado em "despesas administrativas" é marketing que você não consegue ligar a resultado.

Abra o bloco em analíticas que respondem a perguntas diferentes:

  1. Mídia paga, por canal (Google, Meta), pelo mês de veiculação, não pelo mês do boleto ou da fatura do cartão.
  2. Agência e gestão de campanhas.
  3. Produção de conteúdo (foto, vídeo, edição).
  4. Ferramentas de captação e atendimento (CRM, atendimento automatizado, software de agendamento).

Lance cada uma no centro de custo da unidade quando a campanha é da unidade. Campanha da marca, que serve a todas, vai para a Central e entra no rateio pelo critério que você definiu.

O que isso destrava? A ligação direta entre o DRE e o funil:

  • Custo por agendamento: gasto de aquisição do mês na unidade ÷ agendamentos gerados.
  • Custo por paciente que compareceu: o mesmo gasto ÷ comparecimentos.
  • Peso da aquisição na receita líquida, unidade por unidade.

Sem a linha limpa, essas contas viram estimativa. Com ela, você compara unidades por quanto custa colocar o paciente na cadeira, não por quanto se gastou em "marketing" no genérico. Os detalhes de onde cada gasto entra estão no guia de custo de aquisição no DRE da clínica.

Despesa pessoal do sócio: como tirar do DRE

Escola dos filhos no cartão da empresa. Viagem de férias. O carro da família.

Cada um desses lançamentos faz a margem da clínica parecer menor do que é, e faz o DRE variar conforme a vida pessoal do dono.

A regra é simples de escrever: se o gasto não serve à operação da clínica, ele não é despesa. É retirada ou adiantamento ao sócio e vai para uma conta de controle fora do DRE gerencial. A classificação contábil final é decisão do seu contador.

Na prática:

  • Conta transitória "a classificar" para o que chega sem identificação, zerada em todo fechamento.
  • Critério escrito e fixo para o item misto (carro, celular, internet usados nos dois mundos). Sem critério, cada mês recebe um julgamento diferente.
  • Cartões e contas separados. É a única solução que elimina o problema na origem em vez de corrigi-lo todo mês.

Itens não recorrentes: a linha que protege a leitura mês a mês

Um mês com uma rescisão trabalhista atípica, uma reforma ou uma multa não diz nada sobre a operação. Mas, misturado nas linhas normais, ele parece dizer.

A solução é uma linha própria de itens não recorrentes, abaixo do EBITDA recorrente. Exemplos típicos:

  • Reforma e mudança de layout que não viram ativo
  • Indenizações e acordos fora do padrão
  • Multas e autuações
  • Perdas com sinistro
  • Custo de implantação de sistema ou consultoria pontual

Mas cuidado: essa linha vira esconderijo rápido. Três travas evitam isso:

  1. Critério escrito no dicionário de contas, com exemplos do que entra e do que não entra.
  2. Aprovação do dono para cada lançamento nessa linha.
  3. Leitura do total todo mês. Se aparece "não recorrente" todo mês, ele é recorrente e volta para a linha de origem.

Dicionário de contas: a regra escrita e o dono do plano

O plano de contas diz quais contas existem. O dicionário diz o que entra em cada uma. Sem dicionário, o plano mais bem desenhado volta a ser julgamento de quem lança.

Cada conta analítica ganha uma ficha com os mesmos campos. Veja o modelo:

Código e conta O que entra O que NÃO entra (e vai para onde) Exemplo Quem lança
3.1.01.001 Laboratório - prótese fixa Serviço de laboratório para coroa, ponte, faceta e protocolo, vinculado ao paciente Material de moldagem comprado pela clínica (3.1.02.001); refação por garantia (3.1.01.009) Nota do laboratório da coroa do paciente, com a ordem de serviço Financeiro, com a OS do dentista
2.2.01.001 Taxa de administração de cartão Valor retido pela adquirente sobre as vendas do mês Antecipação de recebíveis (resultado financeiro) Taxa de crédito e débito do extrato da adquirente Financeiro, na conciliação
4.1.01.001 Mídia paga Valor veiculado em plataforma de anúncio, pelo mês de veiculação Fee de agência (4.2.01.001); software de atendimento (4.4.01.001) Fatura mensal da plataforma Marketing, conferido pelo financeiro
9.1.01.001 Retiradas pessoais do sócio Gasto pessoal pago pela clínica Despesa operacional de fato (vai para a conta da natureza) Mensalidade escolar no cartão da empresa Financeiro, com aval do dono

Repare na coluna do meio. A linha "não entra aqui" é a mais importante do dicionário: é ela que resolve a dúvida antes que alguém invente uma resposta.

E todo plano precisa de um dono. Uma pessoa só (gerente financeiro, controller ou o próprio sócio) que:

  • Cria e inativa contas. Ninguém mais.
  • Responde às dúvidas de classificação e atualiza o dicionário com a resposta.
  • Revisa todo mês as contas de outros e a transitória "a classificar".
  • Mantém o sistema de gestão travado: as categorias do software são as contas analíticas, e usuário comum não cria categoria.

Versionamento: mudou o plano, refaça o histórico

O plano vai mudar. A clínica abre uma especialidade nova, troca o modelo de remuneração, internaliza o laboratório.

A pergunta não é se muda. É como mudar sem destruir a comparação.

O CPC 26 (R1), que se dirige às demonstrações contábeis das entidades, organiza essa lógica em quatro itens:

  • Item 45: a apresentação e a classificação de itens devem ser mantidas de um período para outro, salvo se, após uma alteração significativa na natureza das operações ou uma revisão das demonstrações, outra apresentação for mais apropriada, ou se outro pronunciamento exigir a alteração.
  • Item 46: a apresentação só deve mudar se a modificação proporcionar informação confiável e mais relevante e se for provável que a estrutura revista continue, de modo que a comparabilidade não seja prejudicada.
  • Item 41: quando a classificação muda, os montantes comparativos devem ser reclassificados, a menos que seja impraticável, com divulgação da natureza, do montante e da razão da reclassificação.
  • Item 42: quando for impraticável reclassificar, divulga-se a razão e a natureza dos ajustes que teriam sido feitos.

Para o DRE gerencial, isso vira um procedimento:

  1. Registre a versão. Plano v1, v2, com data de vigência, o que mudou e por quê.
  2. Monte o de-para entre versões. Cada conta antiga aponta para a nova.
  3. Reprocesse o histórico no período que você usa para comparar (no mínimo, os mesmos meses do ano anterior).
  4. Anote no relatório que os comparativos foram reclassificados para a versão vigente.
  5. Prefira mudar na virada do ano. Mudança no meio do ano obriga a reclassificar os meses já fechados, e é aí que a disciplina costuma falhar.

Como comparar unidades: margem antes do rateio, rateio com critério fixo

Comparar unidades é a razão de existir de metade deste guia. E é onde o rateio mais engana.

O CPC 22 oferece uma lógica útil. Ele define segmento operacional como o componente da entidade que desenvolve atividades de negócio das quais pode obter receitas e incorrer em despesas, cujos resultados são regularmente revistos pelo principal gestor para decidir alocação de recursos e avaliar desempenho, e para o qual haja informação financeira individualizada (item 5).

Repare em quem a norma alcança: o CPC 22 se aplica às entidades com instrumentos negociados em mercado de capitais ou em processo de registro na CVM (item 2). Para a sua rede, é lógica de referência, não obrigação.

E a lógica serve bem. Cada unidade é um segmento. E a sede, segundo o próprio item 6, pode não ser segmento: a sede corporativa ou alguns departamentos funcionais podem não obter receitas. Na clínica, a Central é custo compartilhado, não unidade.

Daí saem três leituras, em ordem de importância:

  1. Margem de contribuição da unidade: a eficiência da produção.
  2. Resultado da unidade, antes do rateio: a unidade se paga sozinha? É este o número para comparar unidades.
  3. Resultado depois do rateio: a rede paga a própria estrutura? É uma pergunta sobre a rede, não sobre a unidade.

O rateio da estrutura central

Para cada tipo de custo central, escolha um critério ligado ao que gera aquele custo:

Custo da Central Critério de rateio sugerido Por quê
Central de agendamento e CRC Agendamentos gerados por unidade É o trabalho que ela faz para cada uma
Marketing da rede Leads ou agendamentos atribuídos Acompanha quem se beneficia da campanha
Financeiro e administrativo Receita líquida ou volume de lançamentos Acompanha o porte da operação
Diretoria e pró-labore de gestão Receita líquida Acompanha o peso da unidade no grupo
Sistemas e software Cadeiras ou usuários Acompanha o uso

As regras do rateio:

  • Critério escrito e fixo durante o ano. Critério que muda todo mês é ruído com cara de análise.
  • Linha própria. O rateio nunca entra nas contas de despesa da unidade, para não contaminar a natureza.
  • Mostre antes e depois. O dono da unidade é cobrado pelo que ele controla.

Veja por que isso importa num exemplo hipotético, em R$ mil, com uma Central que custa 50:

Linha (exemplo hipotético) Unidade A Unidade B
Receita líquida 300 200
(-) Custos variáveis diretos 120 70
= Margem de contribuição 180 (60%) 130 (65%)
(-) Marketing e aquisição 20 15
(-) Despesas fixas da unidade 100 60
= Resultado da unidade, antes do rateio 60 (20%) 55 (27,5%)
Resultado após rateio por receita líquida (A paga 30, B paga 20) 30 35
Resultado após rateio por agendamentos (A gerou 400, B gerou 600: A paga 20, B paga 30) 40 25

No exemplo, o ranking das unidades inverte conforme o critério de rateio, sem nenhuma mudança na operação. O CPC 26 (R1), item 103, trata da alocação de despesas às funções, não entre unidades, mas o problema é do mesmo tipo: alocar exige escolha, e a escolha muda o número. Antes do rateio, a leitura é estável: B é mais eficiente em percentual.

Ajustes gerenciais para comparar o que é comparável

  • Sócio atendendo sem repasse: se o sócio atende como dentista numa unidade e o pró-labore dele não reflete essa produção, a unidade parece mais rentável do que é. Lance um custo clínico gerencial equivalente ao repasse que um associado receberia, marcado como ajuste.
  • Imóvel próprio sem aluguel: lance um aluguel gerencial de referência, marcado como ajuste, ou a unidade com imóvel próprio sempre parecerá melhor.
  • Unidade em maturação: compare pelo tempo desde a abertura, não pelo mesmo mês do calendário.
  • Unidades em CNPJs diferentes: a cobrança entre elas (a Central faturando as unidades, por exemplo) é receita de um lado e despesa do outro e precisa ser eliminada no consolidado. O guia de como consolidar o financeiro de várias unidades mostra como montar essa visão.

Normalize antes de comparar: % da receita, cadeira e dentista-hora

Mesmo com plano idêntico, uma unidade grande e uma pequena não se comparam em reais. E fevereiro não se compara com março sem ajustar os dias úteis.

Quatro normalizações resolvem:

  1. Análise vertical: cada linha como percentual da receita líquida. Laboratório de uma unidade em R$ não diz nada; em % da receita, diz.
  2. Por dia útil: receita e margem divididas pelos dias úteis do mês. Feriado e emenda param de parecer queda de desempenho.
  3. Por cadeira-dia: receita líquida ÷ (cadeiras × dias úteis). Mede o uso da capacidade instalada.
  4. Por dentista-hora: margem de contribuição ÷ horas clínicas disponíveis. Mede quanto cada hora de agenda deixa para a estrutura.

Continuando o exemplo hipotético da seção anterior:

Indicador (exemplo hipotético) Unidade A Unidade B
Cadeiras × dias úteis 4 × 22 = 88 6 × 22 = 132
Receita líquida por cadeira-dia R$ 3,4 mil R$ 1,5 mil
Horas clínicas disponíveis no mês 600 520
Margem de contribuição por dentista-hora R$ 300 R$ 250

No exemplo, B tem a melhor margem percentual, mas usa muito menos a estrutura que tem. A análise vertical sozinha diria "B é melhor"; a normalização por capacidade mostra onde está o espaço de crescimento. Uma métrica nunca basta.

Para a comparação no tempo, some a análise horizontal: o mesmo mês do ano anterior, para não confundir sazonalidade com tendência.

Fechamento mensal com calendário fixo

Plano bom com fechamento solto produz DRE inconsistente do mesmo jeito. O corte de competência precisa acontecer sempre do mesmo jeito, no mesmo dia.

Veja um exemplo de calendário (ajuste os prazos à sua operação):

Dia útil após o fim do mês Tarefa Responsável
D+1 Corte de competência: produção do mês fechada no sistema clínico Coordenação clínica
D+2 Conciliação de cartão: vendas x recebíveis x taxas da adquirente Financeiro
D+3 Laboratório e repasses apurados pela produção do mês; provisões de 13º, férias e encargos Financeiro
D+4 Revisão de "outros" e da transitória "a classificar"; despesas do sócio reclassificadas Dono do plano
D+5 DRE gerencial por unidade fechado e congelado Financeiro
D+6 Reunião de resultado: realizado x orçado, unidade por unidade Sócio e gestores

Três hábitos fazem o calendário funcionar:

  • Provisione 13º e férias todo mês. Sem provisão, dezembro e os meses de férias parecem desastres e os outros parecem ótimos.
  • Congele o mês fechado. Ajuste descoberto depois entra no mês corrente, identificado, em vez de reabrir o passado sem registro.
  • Orce no mesmo plano. O orçamento usa as mesmas contas e os mesmos centros de custo. Só assim "realizado x orçado" compara linha com linha.

Implantação em 30 dias (roteiro semana a semana)

Não precisa parar a clínica nem trocar de sistema. Um roteiro em quatro semanas:

  1. Semana 1: inventário. Exporte os lançamentos do último ano, liste todas as categorias em uso, por unidade, e marque duplicadas, contas por fornecedor, contas por unidade e o tamanho de "outros".
  2. Semana 2: desenho. Monte a árvore em quatro níveis, os códigos, os centros de custo e a ordem do DRE gerencial. Escreva o dicionário das contas analíticas, com a coluna "não entra aqui".
  3. Semana 3: integração. Valide a tabela de-para com o contador, parametrize o sistema de gestão (categorias = contas analíticas), defina os critérios de rateio e o calendário de fechamento. Nomeie o dono do plano.
  4. Semana 4: histórico e paralelo. Reclassifique o histórico para a versão nova pelo de-para, rode o primeiro fechamento no modelo novo e compare com o antigo. Congele a versão 1.

A partir do mês seguinte, o plano só muda pelo dono e pela regra de versionamento.

Autoauditoria: sete sinais de que o seu plano atual não compara

Antes de redesenhar, olhe o DRE que você já tem. Cada sintoma aponta para a peça do plano que falta.

Sinal no DRE Causa provável Peça que resolve
A conta "outros" ou "diversos" cresce mês a mês Falta conta ou falta regra Dicionário de contas e dono do plano
Contas com nome de fornecedor Plano organizado por quem vende, não pelo que é Nome pela natureza
A mesma conta repetida com o nome de cada unidade Dimensão de unidade misturada à natureza Centro de custo
Laboratório zerado num mês e dobrado no seguinte Lançamento pela data da nota ou do pagamento Competência do serviço
A unidade só dá prejuízo depois do rateio Critério de rateio, não a operação Resultado antes do rateio e critério fixo
"Não dá para comparar com o ano passado, o plano mudou" Mudança sem reclassificação Versionamento e de-para entre versões
Margem oscila sem mudança na operação Despesa pessoal do sócio ou evento atípico misturado Conta fora do DRE e linha de não recorrentes

Se vários desses sinais aparecem juntos no seu DRE, o problema não é a leitura do relatório. É a estrutura do plano.

O que as normas dizem, e a quem se dirigem

Muita confusão nasce de citar norma sem dizer para quem ela foi escrita. Esta tabela resume as referências usadas neste guia e o alcance de cada uma:

Referência O que diz A quem se dirige Como usar na clínica
CPC 26 (R1), itens 41, 42, 45 e 46 Manter apresentação e classificação; reclassificar comparativos quando mudar; mudar só se for mais relevante e duradouro Demonstrações contábeis das entidades Princípio de versionamento do plano gerencial
CPC 26 (R1), itens 102 a 104 Despesa por natureza x por função; a alocação por função pode exigir alocações arbitrárias Demonstrações contábeis das entidades Natureza no plano, rateio em linha própria
CPC 22, itens 2, 5 e 6 Define segmento operacional; a sede pode não ser segmento Entidades com instrumentos negociados em mercado de capitais ou em registro na CVM Cada unidade como segmento; a Central como custo compartilhado
Lei 6.404/1976, art. 177 Critérios contábeis uniformes no tempo e regime de competência Escrituração da companhia (sociedade por ações) Uniformidade e competência como regra do DRE gerencial
LC 123/2006, art. 18, §§ 5º-B, 5º-M e 24 Relação folha x receita bruta, com as retiradas de pró-labore na folha Microempresas e empresas de pequeno porte do Simples Nacional Pró-labore e folha em contas próprias

Nota: a contabilidade societária da clínica segue a norma que o porte e o tipo societário dela pedem (as normas simplificadas do Conselho Federal de Contabilidade, como a NBC TG 1002 para microentidades, ou outra), e esse enquadramento é decisão do seu contador. O DRE gerencial não é regido por nenhuma delas. Ele é seu, e é exatamente por isso que precisa de regra escrita.

Seu próximo passo

  1. Faça a autoauditoria esta semana. Abra os últimos DREs e procure os sete sinais da tabela. Liste quais aparecem e em quais unidades.
  2. Escreva o dicionário das contas que mais pesam. Laboratório, materiais, repasse, pessoal, aluguel, mídia, taxa de cartão. Com a coluna "não entra aqui". Só isso já muda a qualidade do próximo fechamento.
  3. Separe a unidade da natureza e fixe o rateio. Centro de custo por unidade, Central como custo compartilhado, critério de rateio escrito para o ano, e o resultado antes do rateio como número oficial de comparação.

Quando o DRE passa a comparar, a pergunta seguinte é quanto custa colocar cada paciente na cadeira em cada unidade, e o que fazer com esse número. Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre o plano de contas contábil e o plano de contas gerencial?

O contábil é do escritório e serve à escrituração, ao fisco e às demonstrações societárias; o gerencial é seu e serve à decisão (margem por unidade, peso do laboratório, custo de aquisição). Os dois convivem, ligados por uma tabela de-para em que cada conta analítica gerencial aponta para uma conta contábil, e o total do mês precisa bater entre eles, com as diferenças explicadas.

Devo criar uma conta para cada unidade da clínica?

Não. A conta diz o que é o gasto (aluguel, laboratório, mídia) e a unidade entra como centro de custo, uma segunda dimensão do mesmo lançamento. Conta por unidade multiplica o plano, obriga a criar contas a cada inauguração e quebra a comparação, porque cada unidade acaba com a sua própria versão da mesma conta.

Taxa de cartão entra como dedução da receita ou como despesa financeira?

As duas convenções são defensáveis; o que destrói a comparação é alternar entre elas. Uma convenção gerencial possível é levar a taxa de administração da maquininha para as deduções da receita e a antecipação de recebíveis para o resultado financeiro, porque a primeira acompanha a venda e a segunda é decisão de caixa. Escolha uma, escreva no dicionário de contas e aplique igual em todas as unidades.

O que fazer com o histórico quando eu mudo o plano de contas?

Reclassifique os meses anteriores para a estrutura nova, com uma tabela de-para entre a versão antiga e a nova, e registre o que mudou, quanto e por quê. É a lógica do CPC 26 (R1), item 41, que se dirige às demonstrações contábeis: quando a classificação muda, os comparativos são reclassificados, salvo se for impraticável.

Como ratear os custos da central (agendamento, marketing, financeiro) entre as unidades?

Escolha um critério por tipo de custo central, ligado ao que gera aquele custo (por exemplo, agendamentos para a central de agendamento), escreva e mantenha fixo durante o ano. Mostre sempre o resultado da unidade antes do rateio e use esse número para comparar unidades; o resultado depois do rateio responde outra pergunta (se a rede paga a própria estrutura).

Despesa pessoal do sócio paga pela clínica entra no DRE?

Não no DRE gerencial. Gasto que não serve à operação da clínica é retirada ou adiantamento ao sócio e vai para uma conta de controle fora do resultado; a classificação contábil final é decisão do seu contador. Se ficar misturado nas despesas administrativas, a margem da clínica parece menor do que é e varia conforme a vida pessoal do dono.