Como medir quantos pacientes que fecharam a fase 1 do plano de tratamento seguem para a fase 2 na minha clínica, e qual taxa é saudável?
Meça a passagem da fase 1 para a fase 2 por coorte: quem concluiu a fase 1 num mês e quantos compareceram à primeira sessão da fase 2 numa janela fixa. Veja a fórmula, as exclusões legítimas, o modelo B2 do Ministério da Saúde, o que os estudos mediram, onde o paciente cai e o painel mensal que o dono precisa ver.
Divida quantos pacientes compareceram à primeira sessão da fase 2 numa janela fixa pelo total que concluiu a fase 1 no mesmo mês, sem contar orçamento aprovado como início; como não há benchmark privado, use a Nota B2 do Ministério da Saúde (que no SUS classifica a conclusão do plano inteiro como Bom acima de 50% até 75% e Ótimo acima de 75%) como modelo de método, não como meta, e compare suas próprias coortes.
- Meça por coorte, não por mês corrido: dos pacientes que concluíram a fase 1 num mês, conte quantos compareceram à primeira sessão da fase 2 numa janela fixa. O modelo público mais próximo é a Nota Metodológica B2 do Ministério da Saúde, que divide pessoas com tratamento concluído por pessoas com primeira consulta programática nas equipes de Saúde Bucal do SUS, numa janela de 12 meses.
- Não existe benchmark neutro de fase 1 para fase 2 em clínica privada brasileira. Os estudos mediram cenários diferentes: 69% de conclusão do tratamento proposto numa clínica-escola do Nordeste (775 prontuários, 2017 a 2023, International Journal of Science Dentistry/UFF) e 73,4% de pacientes que decidiram continuar o tratamento na escola quando o aluno responsável se formou, na Harvard School of Dental Medicine (1.894 pacientes, Dentistry Journal, 2019).
- Na coroa depois do canal, o atraso da fase 2 custa o dente, não só a receita. Em 438.487 tratamentos de canal iniciais de segurados da Delta Dental of Wisconsin (EUA), a probabilidade de extração foi menor quando a coroa foi colocada em até 90 dias após o canal (hazard ratio 0,50), segundo o Journal of Applied Oral Science (2021).
Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- O que conta como "saiu da fase 1" e "entrou na fase 2"
- Por que o plano é dividido em fases (e por que isso cria o risco)
- As fases clássicas do plano e onde cada uma vira ponto de queda
- Aceitação de caso não é continuidade entre fases
- Como calcular a taxa de continuidade passo a passo
- Quem sai do denominador: as exclusões legítimas
- O modelo público que você pode copiar: o indicador B2 do Ministério da Saúde
- Qual taxa é saudável? O que os estudos mediram
- Onde o paciente cai entre as fases
- Por que o paciente da fase 2 vale mais que um lead novo
- A janela clínica é a janela comercial
- Contrato e ética: o que protege a continuidade (e a clínica)
- A rotina da CRC que segura a fase 2
- O painel mensal mínimo do dono
- Erros de medição que escondem a queda
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Como medir quantos pacientes que fecharam a fase 1 do plano de tratamento seguem para a fase 2 na minha clínica, e qual taxa é saudável?"
Você fecha o plano. O paciente faz a fase 1 inteira, recebe alta da etapa e some antes da fase 2.
Não é lead perdido. É paciente que já confiou na clínica, já pagou uma parte e já tem diagnóstico no prontuário.
E quase nenhuma clínica mede essa passagem com método. Mede faturamento do mês, orçamento aprovado e agenda cheia. A queda entre fases fica invisível no meio desses números.
A resposta direta: a taxa de continuidade é o número de pacientes que compareceram à primeira sessão da fase 2 dividido pelo número de pacientes que concluíram a fase 1 no mesmo mês (a coorte), medido em janelas fixas de tempo.
Não existe benchmark neutro dessa passagem para clínica privada no Brasil. A régua pública mais próxima é o indicador de tratamento concluído do Ministério da Saúde (Nota Metodológica B2), que, para as equipes de Saúde Bucal do SUS, classifica como Bom o resultado acima de 50% até 75% e como Ótimo acima de 75%.
Neste guia você vai ver:
- O que marca, no prontuário, a saída da fase 1 e a entrada na fase 2
- A fórmula por coorte, com janelas, exclusões legítimas e um exemplo calculado
- O modelo B2 do Ministério da Saúde e como adaptar à clínica privada
- O que os estudos mediram e por que a sua série histórica é a melhor régua
- Onde o paciente cai entre as fases, a janela clínica e o que contrato e ética dizem
- A rotina da CRC e o painel mensal mínimo do dono
O que conta como "saiu da fase 1" e "entrou na fase 2"
Antes de qualquer fórmula, defina os dois marcos. Sem isso, cada pessoa da equipe conta de um jeito e o número não significa nada.
Esse risco não é teórico. Uma revisão sistemática de 39 artigos sobre adesão à terapia periodontal e peri-implantar de suporte (Journal of Clinical Periodontology, 2020) não encontrou consenso na literatura sobre a definição de adesão, e o percentual de pacientes totalmente aderentes variou entre 3,3% e 86,8% nos estudos analisados.
Com definições diferentes, fica difícil saber o que cada número está medindo. Na sua clínica vale a mesma lógica.
Veja como fixar os marcos:
- Saída da fase 1: o último procedimento previsto para a fase 1, registrado como concluído no prontuário. Não é o último pagamento nem a última visita.
- Entrada na fase 2: a primeira sessão da fase 2 agendada e comparecida. Não é orçamento aprovado nem horário marcado.
- D0 (início do relógio): a data de saída da fase 1, ou a data de liberação clínica quando existe uma espera biológica planejada entre as fases (cicatrização, osseointegração, contenção).
| Evento no prontuário ou na agenda | Conta como fase 2 iniciada? | Por quê |
|---|---|---|
| Paciente aprovou o orçamento da fase 2 | Não | É intenção, não tratamento |
| Fase 2 agendada, sessão ainda não aconteceu | Não (vira indicador companheiro) | Agendamento sem comparecimento não muda o caso clínico |
| Paciente faltou à primeira sessão da fase 2 | Não | Ele continua pendente |
| Paciente compareceu à primeira sessão da fase 2 | Sim | É o único evento que prova a passagem |
| Fase 1 com procedimento ainda pendente | Paciente ainda não entra na coorte | A fase 1 não foi concluída |
Lembre: orçamento aprovado não é fase 2 iniciada. A fase 2 começa quando o paciente comparece à primeira sessão dela.
Por que o plano é dividido em fases (e por que isso cria o risco)
Faseamento é decisão clínica e comercial ao mesmo tempo. Os motivos mais comuns:
- Biológico: tratar a doença ativa (cárie, doença periodontal, infecção endodôntica) antes de reabilitar, e esperar cicatrização ou osseointegração.
- Financeiro: dividir o investimento em etapas que cabem no orçamento do paciente.
- Físico: limitar o tempo de cadeira e o número de procedimentos por sessão.
- Emocional: começar pelo que alivia e constrói confiança antes do procedimento maior.
O ponto de gestão é um só: planeje o caso inteiro e segmente só a execução. O paciente precisa sair da apresentação sabendo o que é a fase 2, quanto custa e quando ela começa.
Mas tem um detalhe: cada fase é uma porta de saída. Quanto mais fases, mais portas.
Se você quer manter as condições da fase 2 enquanto o paciente faz a fase 1, veja como travar o preço do plano completo entre as fases.
As fases clássicas do plano e onde cada uma vira ponto de queda
Na maioria das clínicas, "fase 1" é o controle de doença e "fase 2" é a reabilitação. Mas os nomes variam, e o método deste guia vale para qualquer passagem entre etapas.
| Fase | O que acontece | Ponto de queda típico | O que medir |
|---|---|---|---|
| Avaliação e diagnóstico | Exame clínico, imagem, plano | Paciente não volta para ouvir o plano | Aceitação de caso |
| Urgência | Alívio de dor | A dor passa e a motivação vai junto | % que agenda a etapa seguinte |
| Controle de doença (fase 1) | Raspagem, restaurações, canal, extrações | Etapa longa, com cirurgia e endodontia | Conclusão da fase 1 |
| Reavaliação | Confere a resposta dos tecidos e libera a reabilitação | Consulta "sem procedimento" que o paciente acha dispensável | Comparecimento à reavaliação |
| Fase definitiva ou reabilitadora (fase 2) | Prótese, implante, ortodontia, estética | Ticket mais alto e espera biológica | Continuidade da fase 1 para a fase 2 |
| Manutenção | Retornos periódicos | Ausência de sintoma | Adesão à manutenção |
O que isso significa na prática? A passagem do controle de doença para a reabilitação junta três fatores de risco: o paciente já não sente dor, o valor a pagar é maior e, muitas vezes, existe uma espera clínica no meio.
Aceitação de caso não é continuidade entre fases
As duas métricas parecem iguais e respondem perguntas diferentes.
- Aceitação de caso: dos planos apresentados, quantos viram tratamento agendado ou realizado. Mede a venda.
- Continuidade entre fases: dos pacientes que concluíram a fase 1, quantos começam a fase 2. Mede a execução do que já foi vendido.
A fase 2 já foi "aceita" na apresentação. E mesmo assim cai.
Por isso a aceitação alta não garante a continuidade: a clínica pode fechar bem e perder o caso no meio. Os donos de cada número também mudam: a aceitação depende de quem apresenta, a continuidade depende de quem agenda, acompanha e retoma.
Como calcular a taxa de continuidade passo a passo
A fórmula:
Taxa de continuidade (janela J) = pacientes da coorte que compareceram à primeira sessão da fase 2 em até J dias do D0 ÷ pacientes elegíveis da coorte × 100
Veja como montar:
- Monte a coorte. Todos os pacientes que concluíram a fase 1 no mês X, pela data do marco de saída.
- Defina o D0 de cada um. Data de conclusão da fase 1, ou data de liberação clínica quando há espera biológica planejada.
- Aplique as exclusões legítimas, documentadas (próxima seção).
- Conte uma vez por paciente. Se a fase 2 tem vários procedimentos (coroa e implante, por exemplo), vale a primeira sessão de qualquer um deles.
- Meça em janelas fixas. Exemplo de régua: 30, 60, 90 e 180 dias. O importante é usar a mesma régua todo mês.
- Quebre o resultado por tipo de fase 2, profissional responsável e forma de pagamento.
Por que coorte e não mês corrido
A conta de mês corrido ("quem iniciou a fase 2 em junho ÷ quem concluiu a fase 1 em junho") mistura pacientes de meses diferentes.
Um mês com muitas conclusões de fase 1 parece ruim. Um mês em que a CRC reativou casos antigos parece ótimo. Nenhum dos dois diz se a passagem melhorou.
A coorte acompanha o mesmo grupo até o fim da janela. O preço é esperar: na régua de exemplo, a taxa de 90 dias da coorte de março só fica pronta no fim de junho. É o custo de ter um número verdadeiro.
Exemplo calculado (números hipotéticos)
Exemplo: suponha a coorte de março de uma clínica. Os números abaixo são ilustrativos, só para mostrar a conta.
| Coorte de março (exemplo hipotético) | Pacientes | Taxa |
|---|---|---|
| Concluíram a fase 1 | 40 | |
| Saídas legítimas documentadas (mudança de cidade, desistência formalizada, contraindicação clínica) | 4 | |
| Denominador elegível | 36 | |
| Compareceram à primeira sessão da fase 2 em até 30 dias | 14 | 38,9% |
| Em até 60 dias | 20 | 55,6% |
| Em até 90 dias | 24 | 66,7% |
| Em até 180 dias | 26 | 72,2% |
Repare na curva, não só no último número. Neste exemplo, 12 dos 26 pacientes que iniciaram a fase 2 só entraram depois dos primeiros 30 dias, sinal de que boa parte sai da fase 1 sem a fase 2 já agendada e só volta depois de contato ativo.
Quem sai do denominador: as exclusões legítimas
Excluir demais maquia a taxa. Excluir de menos pune a clínica por decisão clínica correta. A regra é simples: só sai quem não poderia ou não deveria iniciar a fase 2, e toda saída precisa de registro.
| Situação | Como entra na conta | Evidência exigida |
|---|---|---|
| Espera biológica planejada (cicatrização, osseointegração, contenção) | Não exclui: o D0 passa a ser a data de liberação clínica | Previsão de liberação registrada no prontuário |
| Intercorrência clínica que adia a fase 2 | Suspende o relógio até a liberação | Registro do profissional |
| Contraindicação clínica nova à fase 2 | Sai do denominador | Registro clínico |
| Mudança de cidade | Sai do denominador | Contato registrado |
| Óbito | Sai do denominador | Registro |
| Desistência formalizada | Sai da taxa e entra na contagem de desistências | Termo ou registro datado |
| "Vai pensar", "agora não dá", "não respondeu" | Nunca sai: é exatamente o que a taxa mede | Não se aplica |
A espera biológica como justificativa legítima aparece até no modelo de contrato de prestação de serviços odontológicos publicado pelo CFO, que lista "interferências biológicas em resposta individual do organismo do paciente" entre as justificativas para dilatar o prazo do tratamento.
Dica: publique as exclusões ao lado da taxa, todo mês. Se elas crescem, alguém está limpando o denominador.
O modelo público que você pode copiar: o indicador B2 do Ministério da Saúde
O Brasil tem um indicador oficial de conclusão de tratamento odontológico. Ele não foi feito para clínica privada, mas o método é o melhor ponto de partida que existe.
A Nota Metodológica B2 do Ministério da Saúde define o indicador "Tratamento concluído por equipe de Saúde Bucal (eSB)" como o percentual de tratamentos concluídos em relação às primeiras consultas odontológicas programadas. O escopo são as equipes de Saúde Bucal da Atenção Primária do SUS.
Repare nestes pontos, que valem ouro para a sua clínica:
- Numerador e denominador explícitos: pessoas com tratamento concluído pela equipe, divididas por pessoas com primeira consulta odontológica programática.
- Conclusão amarrada ao prontuário: "o tratamento é considerado concluído quando o plano de tratamento inicial é cumprido, conforme planejamento descrito no prontuário do usuário".
- Janela definida: conta no numerador quem teve o tratamento concluído em até 12 meses após a primeira consulta programática.
- Contagem única: o usuário só pode ser contado uma vez para o mesmo dentista ao longo de 12 meses.
- Limitação assumida: a própria nota avisa que os resultados podem ser limitados por dificuldades de registro.
O parâmetro do indicador (ano de referência 2024) é:
| Classificação (Nota B2, SUS) | Faixa |
|---|---|
| Ótimo | Acima de 75% até 100% |
| Bom | Acima de 50% até 75% |
| Suficiente | Acima de 25% até 50% |
| Regular | Até 25% |
Como adaptar o B2 à clínica privada
| Elemento | Nota B2 (equipes de Saúde Bucal do SUS) | Adaptação na sua clínica |
|---|---|---|
| Evento de entrada | Primeira consulta odontológica programática | Conclusão da fase 1 (ou liberação clínica) registrada no prontuário |
| Evento de saída | Plano de tratamento inicial cumprido | Primeira sessão da fase 2 comparecida |
| Janela | Até 12 meses após a primeira consulta | Janelas fixas que você escolhe e não muda |
| Contagem | Uma vez por usuário e dentista em 12 meses | Uma vez por paciente em cada coorte |
| Acompanhamento | Monitoramento mensal, avaliação quadrimestral | Coorte mensal, revisão do dono todo mês |
| Régua | Ótimo, Bom, Suficiente, Regular | Sua série histórica, quebrada por tipo de fase 2 |
Mas não importe a régua cegamente. O B2 mede o plano inteiro concluído, num serviço em que o paciente não paga diretamente pelo tratamento, com população e janela diferentes das suas. Use a lógica; a meta numérica sai dos seus dados.
Qual taxa é saudável? O que os estudos mediram
Esta é a pergunta que todo dono faz. A resposta honesta: não encontramos estudo neutro que tenha medido a passagem da fase 1 para a fase 2 (reabilitação) numa clínica privada brasileira.
O que existe são pontos de referência de cenários diferentes. Leia cada um com o escopo dele:
| Cenário | O que foi medido | Resultado | Fonte |
|---|---|---|---|
| Clínica-escola de Odontologia no Nordeste (775 prontuários, 2017 a 2023) | Conclusão do tratamento proposto | 69% (535 pacientes) | International Journal of Science Dentistry (UFF) |
| Harvard School of Dental Medicine, EUA (1.894 pacientes, turmas de 2012 e 2013) | Pacientes que decidiram continuar o tratamento na escola após a formatura do aluno responsável | 73,4% (1.390 pacientes) | Dentistry Journal, 2019 |
| Clínica geral rural na Virgínia Ocidental, EUA (219 pacientes de ortodontia, prontuários extraídos em julho de 2012) | Conclusão do tratamento ortodôntico prescrito | 49,8% (109 pacientes) | Frontiers in Public Health, 2017 |
| Clínica comunitária para pessoas em situação de rua, Reino Unido (89 pacientes atendidos até 18/02/2020) | Conclusão do tratamento | 47% concluíram, 26% em tratamento ativo, 27% deixaram o tratamento | Health Expectations, 2020 |
| Equipes de Saúde Bucal da APS no SUS | Parâmetro de conclusão do plano em 12 meses | Bom acima de 50% até 75%; Ótimo acima de 75% | Ministério da Saúde, Nota B2 |
Nenhum desses números é a sua meta. Clínica-escola, troca de aluno, ortodontia em área rural e população vulnerável têm barreiras que a sua clínica pode ter mais ou menos.
Então qual é a régua? A sua própria série histórica, por tipo de fase 2. Na prática, a taxa é saudável quando:
- Fica estável ou sobe de uma coorte para a outra, na mesma janela.
- A curva sobe cedo: a maior parte dos pacientes entra na fase 2 nas primeiras semanas, e não depois de várias rodadas de contato.
- Nenhum tipo de fase 2 fica muito abaixo dos demais. Uma taxa agregada boa pode esconder, por exemplo, a prótese sobre implante despencando.
- As exclusões ficam estáveis. Se a taxa sobe porque o denominador encolheu, nada melhorou.
Se você ainda não tem série, reconstrua as últimas coortes pelo prontuário antes de definir meta. Meta sem linha de base vira chute.
Onde o paciente cai entre as fases
Saber o tamanho da queda não basta. Você precisa saber onde ela acontece para atacar a causa certa.
Dinheiro e tempo
No estudo de Harvard (Dentistry Journal, 2019), a limitação financeira foi a barreira mais registrada pelos alunos, presente em 570 pacientes (30,1%), seguida da limitação de tempo, em 290 pacientes (15,3%).
O padrão aparece também em nível populacional. Segundo o ADA Health Policy Institute, a cada ano de 2013 a 2016, aproximadamente 15,2% da população dos EUA precisou de cuidado odontológico e não obteve, e os três principais motivos citados foram financeiros: não poder pagar, o convênio não cobrir e não querer gastar o dinheiro.
O que isso significa na prática? A condição de pagamento da fase 2 precisa estar resolvida antes de a fase 1 acabar, e não ser negociada do zero quando o paciente já não sente dor.
Retornos concentram as faltas
Num estudo de 50.918 consultas especializadas de um Centro de Especialidades Odontológicas regional numa região de saúde do Ceará (SUS), de janeiro de 2018 a fevereiro de 2021 (ROBRAC), houve 11.537 registros de não comparecimento (22,6%), e as consultas de retorno representaram 67% do total de faltas.
No mesmo estudo, a ortodontia teve o maior percentual de faltas às consultas de retorno (55,3%).
A lição para a sua clínica: nesse serviço, a maior parte das faltas aconteceu em consulta de retorno, e não na primeira consulta. A reavaliação entre as fases é um retorno e merece a mesma confirmação ativa que a primeira consulta.
Cirurgia e canal reduzem a conclusão
No estudo da clínica-escola do Nordeste (International Journal of Science Dentistry, UFF), necessitar de procedimento cirúrgico (razão de chances ajustada, ou odds ratio, de 0,2) e/ou endodôntico (razão de chances ajustada de 0,1) esteve associado a menor chance de concluir o tratamento.
Odds ratio não é percentual de queda. O recado é de direção: os casos com cirurgia e canal na fase 1 merecem acompanhamento mais próximo na passagem.
Troca de profissional
Na Harvard School of Dental Medicine, quando o aluno responsável se formou, 73,4% dos 1.894 pacientes decidiram continuar o tratamento na escola (Dentistry Journal, 2019).
Na sua clínica, a troca equivalente é a passagem do clínico geral para o especialista (protesista, implantodontista, ortodontista). Apresente o especialista ainda na fase 1, para que a fase 2 não comece com um desconhecido.
Informação e motivação
A revisão sistemática do Journal of Clinical Periodontology (2020) apontou informação e motivação inadequadas como o principal motivo, relatado pelo paciente, para não aderir à terapia de suporte.
Paciente que não entendeu por que a fase 2 existe trata a alta da fase 1 como fim do tratamento.
Particular x convênio
No estudo de ortodontia da Virgínia Ocidental (Frontiers in Public Health, 2017), concluíram o tratamento 74% dos pacientes particulares, contra 34% dos financiados pelo Medicaid/CHIP (programas públicos dos EUA) e 36% dos com convênio privado.
É um cenário específico, de outro país. Mas é razão suficiente para nunca olhar a taxa sem quebrar por forma de pagamento.
Por que o paciente da fase 2 vale mais que um lead novo
O paciente que concluiu a fase 1 já atravessou o funil inteiro de captação: viu o anúncio, respondeu, agendou, compareceu, fechou o plano e voltou várias vezes.
Segundo dados internos da Odonto Results, no funil completo (IA, equipe e telefone) 20% a 40% dos leads viram agendamento e 20% a 50% dos agendados comparecem. É uma faixa da operação, não uma medição de recorte datado: o fechamento por ligação não fica registrado na conversa. Base: operação de atendimento das clínicas OR.
Perder esse paciente entre as fases é jogar fora uma aquisição que já foi paga. Por isso a continuidade merece o mesmo olho que você dá ao custo por agendamento. Para quem já saiu da linha, veja como recuperar o paciente que começou o tratamento e abandonou.
A janela clínica é a janela comercial
Em alguns tipos de fase 2, o atraso não custa só receita. Custa o dente.
O exemplo mais bem documentado é a coroa depois do canal:
- Em 160.040 tratamentos de canal da base de sinistros da Delta Dental of Wisconsin (Journal of Endodontics, 2018), as taxas de falha foram maiores quando o núcleo ou pino foi colocado mais de 60 dias após o canal (hazard ratio ajustado de 1,08) e quando a coroa foi colocada mais de 60 dias após o núcleo ou pino (hazard ratio ajustado de 1,14).
- Em 438.487 tratamentos de canal iniciais de segurados da mesma operadora, num estudo retrospectivo de 13 anos (Journal of Applied Oral Science, 2021), a probabilidade de retratamento não cirúrgico (hazard ratio 0,93) e de extração (hazard ratio 0,50) foi menor quando a coroa foi colocada em até 90 dias após o canal.
Hazard ratio é uma razão de risco ao longo do tempo, não um "percentual a mais de falhas". Leia como direção: coroa no prazo protege o dente.
O que isso muda na gestão:
- A janela de medição respeita a janela clínica. Para coroa pós-endo, olhar só a janela mais longa esconde o paciente que entrou tarde demais.
- A fila de pendentes é priorizada por risco clínico, não só pelo valor do orçamento.
- O argumento para o paciente é clínico, não comercial. "Seu dente fica protegido com a coroa no prazo" convence mais que desconto.
Para apresentar essa próxima etapa sem soar como venda, veja como vender a fase seguinte do tratamento sem pressionar.
Contrato e ética: o que protege a continuidade (e a clínica)
A continuidade também se resolve no papel. Dois documentos do CFO ajudam, e é importante saber a natureza de cada um.
O modelo de contrato do CFO (cláusula sugerida, não obrigação)
O modelo de Contrato de Prestação de Serviços Odontológicos publicado no site do CFO é um modelo para o contrato entre o cirurgião-dentista ou a clínica e o paciente. Ele sugere cláusulas que conversam direto com o seu indicador:
- Abandono caracterizado: o paciente que faltar a 3 consultas consecutivas ou se ausentar por mais de 30 dias, independentemente de justificativa, salvo por recomendação profissional ou comum acordo com o profissional assistente.
- Prazo estimado: o prazo do plano é estimado em meses e pode ser diminuído ou aumentado em até 50%, de forma justificada pelo profissional ou pela clínica.
- Atraso sem justificativa pesa para os dois lados: o modelo prevê que o atraso na conclusão sem justificativa plausível pode levar, a pedido do paciente, à interrupção do tratamento e à devolução dos valores adiantados das etapas não concluídas.
- Honorários por etapa: o modelo deixa claro o direito de receber os honorários relativos a cada etapa efetivamente concluída.
Use a definição de abandono do seu contrato como um status na fila de pendentes. Assim a CRC sabe quando um "pendente" virou "abandono contratual" e o que fazer com ele.
O Código de Ética Odontológica (norma que vale para a clínica também)
O Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012) tipifica como infração ética, no art. 11:
- Inciso IV: "deixar de esclarecer adequadamente os propósitos, riscos, custos e alternativas do tratamento". Na prática, a fase 2 precisa estar explicada, com custo e alternativas, desde a apresentação do plano.
- Inciso VI: "abandonar paciente, salvo por motivo justificável, circunstância em que serão conciliados os honorários e que deverá ser informado ao paciente ou ao seu responsável legal de necessidade da continuidade do tratamento". Quando é a clínica que encerra a relação, registre por escrito que o paciente foi informado da necessidade de continuar.
E a quem isso se aplica? O mesmo Código de Ética regula, no art. 1º, os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos profissionais técnicos e auxiliares e das pessoas jurídicas que exerçam atividades na Odontologia. O art. 29 estende suas disposições expressamente a clínicas e policlínicas, e o art. 30 prevê que os profissionais inscritos prestadores de serviço respondem solidariamente, nos limites de sua atribuição, pela infração ética praticada. A clínica não fica de fora por ser empresa.
A rotina da CRC que segura a fase 2
Medir sem rotina só documenta a perda. Esta é a sequência que transforma o indicador em ação:
- Apresente a fase 2 no plano inicial, com valor, alternativas e condição de pagamento definidos. O orçamento da fase 2 tem validade e condição escritas, não "a gente vê depois".
- Agende a fase 2 antes de o paciente sair da última sessão da fase 1. Quando há espera biológica, agende a reavaliação que libera a fase 2 e registre o D0 previsto.
- Mantenha uma fila de pendentes por idade. Exemplo de régua de ação (ajuste ao seu mix):
- D+7: confirmação e oferta de horário pela CRC
- D+30: contato do dentista com o motivo clínico da fase 2
- D+60: convite para uma consulta de revisão do plano
- D+90: reativação com motivo registrado e decisão sobre o caso
- Registre o motivo de cada não início em categorias fixas: financeiro, tempo, medo, contato perdido, troca de profissional, motivo clínico.
- Apresente o especialista na fase 1 quando a fase 2 for com outro profissional.
- Dê um dono ao indicador. Uma pessoa responde pela taxa da coorte, pela fila e pelos motivos. Sem dono, o pendente vira "alguém liga depois".
A fila de pendentes é o tipo de trabalho repetitivo que pode ser automatizado sem perder o toque humano. Veja como funciona uma IA que acompanha quem terminou uma fase e oferece a próxima.
O painel mensal mínimo do dono
Você não precisa de um painel cheio de gráficos. Precisa destes indicadores, sempre na mesma ordem, todo mês:
| Indicador | Como calcular | O que revela |
|---|---|---|
| Taxa de continuidade por coorte | Compareceram à 1ª sessão da fase 2 na janela ÷ elegíveis da coorte | Se a passagem está melhorando |
| Curva por janela | A mesma taxa em cada janela fixa da sua régua | Se o paciente entra cedo ou só depois de muito contato |
| Mediana de dias entre fases | Mediana do intervalo entre o D0 e a 1ª sessão da fase 2 | Velocidade da passagem, sem distorção de casos extremos |
| % que sai da fase 1 com a fase 2 agendada | Agendados na saída ÷ concluíram a fase 1 | Disciplina da rotina na cadeira e na recepção |
| Pendentes por idade | Pacientes sem fase 2 iniciada, por faixa de dias desde o D0 | Onde a fila está envelhecendo |
| Valor em aberto da fase 2 | Soma dos orçamentos de fase 2 aprovados e não iniciados | Quanto faturamento está parado |
| Taxa por tipo de fase 2 | Mesma conta, separada por coroa pós-endo, prótese sobre implante, ortodontia, cirurgia periodontal | Onde a queda se esconde |
| Taxa por forma de pagamento e profissional | Mesma conta, separada | Se o problema é financeiro ou de passagem de bastão |
| Saídas legítimas e motivos | Contagem por categoria | Se alguém está limpando o denominador |
Use mediana, e não média, para os dias entre fases. Um único paciente que voltou depois de muito tempo puxa a média e distorce a leitura.
Erros de medição que escondem a queda
Estes são os erros que fazem a taxa parecer boa enquanto a agenda da fase 2 esvazia:
- Contar orçamento aprovado como fase 2 iniciada. Infla a taxa com intenção.
- Medir por mês corrido. Mistura coortes e transforma sazonalidade em "melhora".
- Excluir adiamento clínico em vez de mover o D0. O paciente de implante some da conta e nunca é cobrado.
- Não excluir nada. Pune a clínica pela decisão clínica certa e desacredita o indicador na equipe.
- Olhar só o agregado. A média esconde o tipo de tratamento que está despencando.
- Contar o mesmo paciente duas vezes. Coroa e implante do mesmo paciente são uma passagem, não duas.
- Mudar a janela todo mês. Sem régua fixa, não existe série histórica.
- Confiar em prontuário incompleto. Até a Nota B2 admite que o resultado pode ser limitado por dificuldades de registro. Se a conclusão da fase 1 não é registrada, a coorte não existe.
Seu próximo passo
- Defina os marcos no prontuário esta semana. Escreva, em uma linha cada, o que fecha a fase 1, o que conta como fase 2 iniciada, qual é o D0 e quais saídas são legítimas. Mostre para a equipe inteira.
- Reconstrua as últimas coortes. Puxe do prontuário quem concluiu a fase 1 nos últimos meses e calcule a curva por janela, quebrada por tipo de fase 2. Essa é a sua linha de base, e a sua régua de "saudável".
- Instale a rotina e o dono. Fase 2 agendada antes da saída da fase 1, fila de pendentes por idade, motivo registrado e um responsável pela taxa no painel mensal.
Quer que o paciente que já confiou na sua clínica chegue à fase 2 sem depender da memória da equipe? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
Orçamento da fase 2 aprovado já conta como fase 2 iniciada?
Não. A fase 2 começa quando o paciente comparece à primeira sessão dela, registrada no prontuário. Orçamento aprovado mede intenção, e contar intenção como início infla a taxa e esconde justamente o paciente que aprovou, não agendou e sumiu.
A régua do Ministério da Saúde serve para clínica particular?
Serve como modelo de método, não como meta. A Nota Metodológica B2 mede o plano inteiro concluído em até 12 meses nas equipes de Saúde Bucal do SUS, com parâmetro Bom acima de 50% até 75% e Ótimo acima de 75%. Copie a lógica de numerador, denominador e contagem única; a meta sai da sua própria série histórica por tipo de fase 2.
Paciente de convênio segue menos para a fase seguinte?
Pode seguir menos, e é por isso que a taxa precisa ser quebrada por forma de pagamento. Num estudo de ortodontia numa clínica geral rural dos EUA (Frontiers in Public Health, 2017), concluíram o tratamento 74% dos pacientes particulares, contra 36% dos com convênio privado e 34% dos financiados pelo Medicaid/CHIP. É um cenário americano: meça o seu antes de tirar conclusão.
O que fazer com quem passou da última janela sem iniciar a fase 2?
Ele continua no denominador da coorte como não iniciado e entra na fila de reativação, com o motivo registrado. Só sai da conta com desistência formalizada, contraindicação clínica, mudança de cidade ou óbito, e essas saídas são contadas à parte para não maquiar a taxa.
Qual a diferença entre taxa de aceitação de caso e taxa de continuidade entre fases?
A aceitação mede quantos planos apresentados viram tratamento agendado ou realizado; a continuidade mede quantos pacientes que já concluíram a fase 1 começam a fase 2. O paciente pode ter aceitado o plano inteiro e mesmo assim parar entre as fases, então uma métrica não substitui a outra.
Com quanto tempo de atraso a fase 2 vira problema clínico?
Depende do tipo de fase 2, mas na coroa depois do canal há dado. Na base de sinistros da Delta Dental of Wisconsin, a falha foi maior quando a coroa foi colocada mais de 60 dias após o núcleo ou pino (hazard ratio ajustado 1,14), segundo o Journal of Endodontics (2018). Por isso a janela de medição da fase 2 deve respeitar a janela clínica.