Custos e ROI

O que é a VRPO e a CBHPO na odontologia e minha clínica particular precisa seguir essas tabelas de preço?

VRPO e CBHPO são as tabelas referenciais da odontologia brasileira. Veja de onde vieram, como a FIPE-USP montou a escala em pontos, como virar ponto em reais no seu estado, o que a tabela não inclui, o que o Código de Ética e o CADE dizem sobre preço e por que ela serve de piso ético e régua de convênio, não de preço particular.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 30 de setembro de 2026 · 23 min de leitura
TL;DR

VRPO e CBHPO são referências de valor das entidades odontológicas nacionais, e a CBHPO só mede em pontos o peso relativo de cada procedimento: sua clínica particular não é obrigada a cobrar por elas, mas o Código de Ética pede evitar valores aviltantes abaixo delas.

Pontos-chave
  • A CBHPO não é tabela de preço. O Relatório Final da FIPE (março de 2009), hospedado no site do CRO-PE, diz que ela "não informa o preço dos procedimentos", só a proporção que os preços devem guardar entre si, com a consulta valendo 100 pontos de honorário.
  • Nenhuma das duas fixa o seu preço particular. O CRO-MG declara que não possui tabela de honorários, e o art. 19 do Código de Ética do CFO garante a liberdade para arbitrar honorários, vedado o aviltamento; o art. 21 pede evitar valores inferiores aos referenciais.
  • Onde a tabela pesa de verdade é no convênio. Estudo de pesquisadores da UNESP de Araçatuba (Arquivos em Odontologia, 2011) com cinco planos de abrangência nacional encontrou desconto médio de 54,51% sobre os preços sugeridos pelo CFO na tabela VRCC.

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. O que é a VRPO e o que é a CBHPO (resposta curta)
  4. De onde vieram essas tabelas: a linha do tempo de 1987 a 2021
  5. Quem faz a tabela e quem publica o valor do seu estado
  6. Como a FIPE montou a CBHPO: cinco atributos e a consulta valendo 100
  7. Por que a CBHPO não é uma tabela de preço
  8. Como transformar pontos em reais: o cálculo UH + UC na prática
  9. O que a tabela não inclui (e por que ela fica abaixo do preço particular)
  10. Minha clínica particular é obrigada a seguir a VRPO ou a CBHPO?
  11. A pegadinha do art. 21: o piso ético contra o aviltamento
  12. CADE e livre precificação: o que mudou de 2023 a 2025
  13. Publicidade de preço: o que a lei e o Código ainda dizem
  14. Onde a tabela realmente pesa: negociação com operadoras
  15. O abismo entre o que o convênio paga e a referência
  16. Como usar a VRPO e a CBHPO na clínica de R$ 100 mil+ por mês
  17. Onde encontrar a tabela do seu estado (e qual fonte evitar)
  18. Seu próximo passo
  19. Perguntas frequentes

"O que é a VRPO e a CBHPO na odontologia e minha clínica particular precisa seguir essas tabelas de preço?"

Você monta a tabela de preços da clínica e alguém solta: "mas e a VRPO?".

Aí vem a dúvida. Existe um preço oficial que você deveria respeitar? Cobrar acima dá problema? Cobrar abaixo dá problema?

A resposta curta: VRPO e CBHPO são tabelas referenciais, criadas pelas entidades nacionais de odontologia. A CBHPO, que substituiu a VRPO como referência, nem é uma tabela de preço: o Relatório Final da FIPE (março de 2009) diz que ela "não informa o preço dos procedimentos", só a proporção entre eles.

Sua clínica particular não é obrigada a cobrar por ela. Mas o Código de Ética usa os valores referenciais como piso contra o aviltamento, e no convênio ela é a régua de toda negociação.

Neste guia você vai ver:

  • A diferença entre VRPO e CBHPO (e por que todo mundo ainda fala "tabela VRPO")
  • A linha do tempo de 1987 até o portal do CFO em 2021
  • Como a FIPE-USP transformou o trabalho do dentista em pontos
  • Como virar ponto em reais no seu estado, com exemplo real da tabela do Paraná
  • O que a tabela não inclui e por que ela fica abaixo do preço particular
  • O que o Código de Ética, o CADE e a lei dizem sobre preço, desconto e anúncio
  • Como usar a tabela na clínica de R$ 100 mil+ por mês sem virar refém dela

O que é a VRPO e o que é a CBHPO (resposta curta)

VRPO significa Valores Referenciais para Procedimentos Odontológicos. Foi a tabela de valores de referência aprovada pelas entidades nacionais em 2002, com valor em reais calculado a partir de custo fixo, custo variável e remuneração do dentista.

CBHPO significa Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Odontológicos. É a sucessora da VRPO: uma escala em pontos que mede o peso relativo de cada procedimento, separando honorário e custo operacional.

Por que muita gente ainda chama tudo de "tabela VRPO"? Hábito. A VRPO circulou por anos como "a tabela do CFO", e a CBHPO nasceu dela. O CRO-RS apresenta a CBHPO como substituta da tabela de referência VRPO.

VRPO CBHPO
Nome completo Valores Referenciais para Procedimentos Odontológicos Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Odontológicos
Quando Aprovada em setembro de 2002 Relatório FIPE em março de 2009; lançamento oficial em maio de 2010
Quem fez Entidades nacionais (ABO, CFO, FIO, FNO) CNCC (CFO, ABO, ABCD, FIO e FNO) com a FIPE-USP
O que entrega Valor por procedimento, com custo e remuneração embutidos Pontos relativos: UH (honorário) e UC (custo operacional)
Vira preço como Valor já calculado Pontos multiplicados pelo índice do estado
Status hoje Base histórica, substituída pela CBHPO Referência vigente, publicada por CROs e sindicatos

Fontes da tabela: apresentação oficial da CBHPO hospedada pelo CRO-PR, CFO e Relatório Final da FIPE.

Lembre: VRPO é o nome antigo que pegou. Quando alguém fala "tabela VRPO" hoje, quase sempre está falando da CBHPO.

De onde vieram essas tabelas: a linha do tempo de 1987 a 2021

A história explica o propósito. Essas tabelas nasceram para dar ao dentista um parâmetro de remuneração num mercado sem regra de valor, principalmente diante de convênios e credenciamentos.

Segundo a apresentação oficial da CBHPO divulgada pelo CRO-PR, a Comissão Nacional de Convênios e Credenciamentos (CNCC) foi criada em 1987 justamente pela "falta de regulamentação dos valores dos procedimentos odontológicos".

Quando O que aconteceu
1987 Criação da CNCC, durante o VIII CIORJ
Janeiro de 1988 Surge a TNCC, protótipo de tabela referencial para honorários
1994 A TNCC passa a se chamar VRCC
Setembro de 2002 No CIOGO, fórum de ABO, CFO, FIO e FNO aprova a VRPO, antiga VRCC
2007 Entidades da CNCC contratam a FIPE-USP para validar a VRPO e construir a CBHPO
Abril de 2008 Dentistas de todas as especialidades escolhem e ponderam, na FIPE, os atributos do trabalho odontológico
Dezembro de 2008 Conclusão do rol de procedimentos
Março de 2009 Relatório Final da FIPE
11 de maio de 2010 Lançamento oficial da CBHPO pela CNCC, em Brasília
Fevereiro de 2021 CFO lança um novo portal da CBHPO

Fontes: apresentação da CBHPO (CRO-PR), CFO, Relatório Final da FIPE e CRO-MT sobre o portal de 2021.

Repare no detalhe: a comissão que criou a tabela se chama Comissão Nacional de Convênios e Credenciamentos. Desde a origem, a tabela é um instrumento de negociação com terceiros pagadores. Não foi desenhada para dizer quanto uma clínica particular de alto ticket deve cobrar.

Quem faz a tabela e quem publica o valor do seu estado

São duas camadas diferentes, e confundir as duas gera boa parte da confusão.

Camada nacional: a escala de pontos. Quem constrói é a CNCC, que, segundo o CFO, é composta por CFO, ABO, ABCD, FIO e FNO. A metodologia foi feita pela FIPE, da USP, com representantes das especialidades.

Camada estadual: o valor em reais. A escala nacional só vira dinheiro quando alguém define quanto vale cada ponto no seu estado. Quem publica isso são os CROs e os sindicatos de odontologistas, como SOEPAR (PR) e SOERGS (RS).

O manual publicado pelo SOERGS resume a lógica:

  • A UH (unidade de honorário) tem valor relativo fixo, definido pela metodologia da FIPE.
  • O multiplicador da UH "pode variar de acordo com a realidade de cada Estado ou de profissional para profissional".
  • A UC (unidade de custo) usa um índice multiplicador nacional.
  • Cada estado atualiza anualmente o valor da sua UH em julho, e UH e UC são corrigidas anualmente em julho pelo INPC/IBGE.

O que isso significa na prática? Não existe "o preço da CBHPO" nacional. Existe a pontuação nacional e o multiplicador do seu estado, naquele ano.

Como a FIPE montou a CBHPO: cinco atributos e a consulta valendo 100

Aqui está a parte que quase ninguém explica e que muda como você lê a tabela.

Em abril de 2008, dentistas representando todas as especialidades se reuniram na FIPE e escolheram os atributos que definem o trabalho odontológico. Depois, deram um peso a cada um. O resultado, segundo o Relatório Final da FIPE:

Atributo do trabalho do dentista Peso
Tempo 30
Qualificação/atualização 20
Complexidade 20
Risco 15
Planejamento 15
Total 100

Em seguida, cada especialidade pontuou a intensidade de cada atributo em cada procedimento, sempre tomando a consulta inicial como referência de 100 pontos. No relatório final, "todas as consultas odontológicas têm 100 pontos na valoração dos honorários".

A FIPE então comparou essa pontuação com a percepção de valor dos próprios dentistas, especialidade por especialidade, e ajustou as distorções usando o tempo em minutos registrado na VRPO.

E o custo operacional? Para essa escala, a FIPE usou a VRPO como base: uma listagem de 521 procedimentos distribuídos entre 14 especialidades. E fez uma limpeza importante.

Veja o que saiu da conta de custo:

  • O salário do dentista. Segundo o relatório da FIPE, a VRPO embutia R$ 0,457 por minuto em todos os procedimentos, referentes ao salário médio do dentista. A FIPE excluiu esse valor da pontuação de custo, porque o trabalho do dentista já estava na escala de honorário.
  • Livros e revistas. Foram tratados como parte da qualificação do profissional, não como custo do procedimento.
  • Papelaria no diagnóstico. Desconsiderada, por ser valor pequeno demais para a precisão do resto.
  • Adicional de risco em prótese. Retirado do custo, porque o risco já está no honorário.

Por isso a CBHPO tem duas colunas separadas: UH para honorário e UC (chamada de CO no relatório da FIPE) para custo operacional. O relatório avisa que as duas "expressam pontuações em escalas diferentes" e devem ser negociadas separadamente.

Por que a CBHPO não é uma tabela de preço

Esse é o ponto que resolve metade da sua dúvida.

A CBHPO foi desenhada para dizer quanto um procedimento vale em relação a outro, não quanto ele custa em reais. O Relatório Final da FIPE é literal:

"A CBHPO não informa o preço dos procedimentos. Apenas mostra qual a proporção que os preços dos procedimentos devem guardar entre si."

O mesmo relatório diz que, desde o início, o projeto "se preocupou em obter valores relativos dos procedimentos e não preços absolutos". O CRO-PE repete a mesma frase ao explicar a classificação aos inscritos.

Pensa assim: a CBHPO é uma régua de proporção. Na tabela divulgada pelo CRO-PR em 2018, por exemplo, o implante ósseo integrado vale 400 pontos de honorário, quatro vezes a consulta. Quanto vale o ponto, e quanto o seu mercado paga pelo implante inteiro, é outra conversa.

Como transformar pontos em reais: o cálculo UH + UC na prática

A conta é simples. O que complica é saber qual multiplicador usar.

Valor de referência = (UH × valor estadual da UH) + (UC × índice da UC)

Veja o exemplo real da tabela de valores da CBHPO divulgada pelo CRO-PR em 2018 (planilha do SOEPAR), com UH a 0,96 e UC a 0,46:

Procedimento UH UH × 0,96 UC UC × 0,46 Total na tabela Fica de fora
Consulta odontológica 100 R$ 96,00 10 R$ 4,60 R$ 100,60 Nada
Implante ósseo integrado (por unidade) 400 R$ 384,00 210 R$ 96,60 R$ 480,60 Outros insumos ("Negoc.")
Coroa metalocerâmica sobre implante 600 R$ 576,00 60 R$ 27,60 R$ 603,60 Laboratório ("Negoc.")
Protocolo Branemark para quatro implantes 1.200 R$ 1.152,00 240 R$ 110,40 R$ 1.262,40 Laboratório e insumos ("Negoc.")

Leia com atenção a última coluna. Nos procedimentos de maior ticket, as partes mais caras aparecem como "Negoc.", a negociar. O total da tabela não é o preço do tratamento: é só honorário mais custo operacional.

Dois cuidados antes de usar qualquer número:

  1. Confira o ano. Os valores acima são da tabela de 2018. Pelo manual do SOERGS, UH e UC são atualizadas todo ano em julho.
  2. Confira o estado. O multiplicador da UH é estadual. O valor do Paraná não serve para São Paulo nem para o Rio Grande do Sul.

Nota: a CBHPO tem uma oitava área, a de cirurgia hospitalar, em que os procedimentos usam 17 portes em vez de UH, segundo o Relatório Final da FIPE. Para a rotina de consultório, UH e UC resolvem.

O que a tabela não inclui (e por que ela fica abaixo do preço particular)

Se você comparar o valor da tabela com o seu preço particular e achar que está "caro demais", pare. Você está comparando coisas diferentes.

A tabela deixa de fora, por desenho, partes que pesam no seu custo real:

  • Laboratório. A FIPE não conseguiu acessar como a VRPO calculava esse item e recomendou tratá-lo à parte. Como sugestão, a CBHPO "poderá indicar o valor de 25% adicionais ao valor dos honorários", e, quando o laboratório passar disso, a negociação direta entre as partes (Relatório Final da FIPE).
  • Insumos de valor variável. O manual do SOERGS diz que não estão incluídos "a parte laboratorial e outros insumos que podem variar de valor na aquisição como, por exemplo, o implante odontológico".
  • Custo de aquisição de paciente. A UC mede o custo operacional do procedimento, segundo a FIPE. O custo de trazer o paciente de alto ticket até a cadeira (mídia, CRC comercial, follow-up de orçamento) é do seu negócio, e só entra no preço se você colocar.
  • Impostos e taxas financeiras. O relatório da FIPE não menciona tributo, taxa de cartão nem custo de financiamento ao paciente. Trate esses itens no seu preço, não na tabela.
  • Estrutura e posicionamento. A escala trabalha com médias. A depreciação de equipamentos, por exemplo, segue o cálculo padrão da VRPO sobre o valor médio investido na montagem do consultório, segundo o relatório da FIPE. Ela não enxerga tecnologia própria, planejamento digital, hotelaria nem o nível de especialização da sua equipe.

O implante é o exemplo mais claro. Na tabela do Paraná de 2018, o implante ósseo integrado somava R$ 480,60 de honorário e custo operacional, com os insumos marcados como "Negoc.". O implante e os componentes ficam fora da conta, a negociar.

Por isso o valor de referência parece "defasado" frente ao particular. Ele não foi feito para cobrir o pacote completo de um tratamento de alto ticket.

Se você ainda não sabe quanto custa uma hora da sua cadeira, comece por aí: veja como calcular o custo-hora de cadeira e como contabilizar laboratório e material por procedimento.

Minha clínica particular é obrigada a seguir a VRPO ou a CBHPO?

Não. Nenhuma das duas é uma tabela de preço de cumprimento obrigatório para o atendimento particular.

Três evidências diretas:

  1. O CRO-MG diz com todas as letras. Na página de perguntas frequentes do conselho: "O CRO-MG não possui nenhuma tabela de honorários estipulando o valor dos procedimentos odontológicos." Os honorários "devem ser estipulados pelo próprio Cirurgião-Dentista" com base no Código de Ética.
  2. O Código de Ética garante a liberdade de preço. O art. 19 do Código de Ética Odontológica lista o que considerar na fixação de honorários: condição socioeconômica do paciente, conceito do profissional, costume do lugar, complexidade, tempo, custo operacional e, no inciso X, "a liberdade para arbitrar seus honorários, sendo vedado o aviltamento profissional".
  3. As entidades tratam como referência. O CRO-PE divulga a "tabela de referência", e o SOERGS chama a CBHPO de "parâmetro seguro" e de "importante instrumento na negociação com as operadoras".

O parágrafo único do art. 19 acrescenta um dever prático: você deve arbitrar o valor e comunicar previamente ao paciente os custos dos honorários.

Então existe liberdade total? Quase. Tem uma pegadinha.

A pegadinha do art. 21: o piso ético contra o aviltamento

O art. 21 do Código de Ética Odontológica é onde os valores referenciais ganham peso ético:

"O cirurgião-dentista deve evitar o aviltamento ou submeter-se a tal situação, inclusive por parte de convênios e credenciamentos, de valores dos serviços profissionais fixados de forma irrisória ou inferior aos valores referenciais para procedimentos odontológicos."

Leia de novo e repare em três coisas.

Primeiro, é um piso, não um teto. O artigo manda evitar valores irrisórios ou abaixo da referência. Nada nele limita quanto você cobra para cima.

Segundo, vale para o convênio também. O texto cita expressamente "convênios e credenciamentos". Aceitar tabela de operadora muito abaixo da referência é exatamente a situação que o artigo descreve.

Terceiro, a quem ele se dirige. O art. 21 fala do cirurgião-dentista. Mas não trate isso como salvo-conduto para a clínica: o art. 1º diz que o Código regula os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos técnicos e auxiliares "e pessoas jurídicas que exerçam atividades na área da Odontologia". A clínica, como pessoa jurídica, também está dentro do Código.

E o art. 21 continua valendo depois das mudanças de 2025? Continua. A Resolução CFO-271/2025, que alterou o Código em cumprimento à decisão do CADE, mexeu nos arts. 20, 32 e 44. O art. 21 não foi tocado (detalhes na próxima seção).

Lembre: a tabela não diz quanto você pode cobrar. Ela diz abaixo de quanto o seu preço começa a parecer aviltamento.

CADE e livre precificação: o que mudou de 2023 a 2025

Se você acompanhou as notícias, sabe que o desconto na odontologia virou caso de defesa da concorrência. Veja a sequência, na fonte oficial de cada passo:

Data O que aconteceu Fonte
02/08/2023 O CADE celebra Termo de Compromisso de Cessação com o CRO-MG, investigado por proibir clínicas de aceitar cartão de desconto CADE
16/08/2023 O CADE condena o CFO por impedir dentistas de oferecer descontos, com multa de R$ 752,7 mil, e determina a alteração do Código de Ética CADE
13/03/2025 O CRO-RO comunica a medida preventiva do CADE no Inquérito Administrativo 05/2025, aberto por denúncia de "proibição de concessão de descontos e suposta interferência na livre precificação de serviços profissionais" CRO-RO
18/06/2025 O CFO publica a Resolução CFO-271/2025 e altera o Código de Ética CFO

Na medida preventiva do Inquérito 05/2025, comunicada pelo CRO-RO, o CADE determinou aos conselhos que excluíssem publicações que associassem a concessão de descontos a ilícito ou conduta antiética e suspendessem processos movidos contra profissionais por oferecer desconto.

O que a Resolução CFO-271/2025 mudou, artigo por artigo:

Dispositivo O que mudou
Art. 20, VIII Saiu "descontos" do rol; ficou vedado oferecer serviços como brinde, premiação e sorteios
Art. 20, X Saíram cartão de descontos, caderno de descontos e "gift card"; ficaram "vale presente" e similares e demais atividades mercantilistas
Art. 32, XIII Revogado (tratava da participação em cartões de desconto)
Art. 44, XIV Saíram cartão de descontos, caderno de descontos, mala direta via internet, sites promocionais ou de compras coletivas e stands promocionais; continua infração oferecer serviço com finalidade de aliciamento por telemarketing ativo, caixas de som, plaqueteiros e outros meios de concorrência desleal
Art. 21 Não alterado

O resumo prático para o dono de clínica:

  1. O desconto saiu do rol de infrações do art. 20. O texto anterior do inciso VIII citava "descontos"; o novo cita brinde, premiação e sorteios.
  2. O dever do art. 21 segue no texto. Fixar valores irrisórios ou inferiores aos referenciais continua sendo o que o Código manda evitar.
  3. O CADE protege a livre pactuação de preços. Na medida preventiva de agosto de 2022, citada na notícia do acordo com o CRO-MG, o CADE mandou CFO e CRO-MG cessarem atos contra a aceitação de cartões de desconto ou contra a "livre pactuação de preços". E o relator afirmou que se presume poder de mercado dos conselhos profissionais, pela possibilidade de aplicarem sanções disciplinares.

As duas coisas convivem. E, se o seu modelo é particular de alto ticket, vale olhar também o risco oposto: usar o valor da tabela como âncora e deixar de cobrar o que o seu custo e o seu posicionamento exigem.

Publicidade de preço: o que a lei e o Código ainda dizem

A liberdade de precificar não é a mesma coisa que liberdade de anunciar preço. São regras diferentes.

Lei 5.081/1966, que regula o exercício da odontologia. O art. 7º, alínea "g" veda ao cirurgião-dentista "anunciar preços de serviços, modalidades de pagamento e outras formas de comercialização da clínica que signifiquem competição desleal". A regra é dirigida ao profissional.

Código de Ética, art. 44, I. O texto do Código publicado pelo CFO define como infração fazer publicidade enganosa ou abusiva, inclusive "com preços, serviços gratuitos, modalidades de pagamento, ou outras formas que impliquem comercialização da Odontologia". A Resolução CFO-271/2025 não alterou esse inciso.

E a clínica, como empresa? O art. 46 do Código estende as normas do capítulo de publicidade a pessoas físicas ou jurídicas, "tais como: clínicas, policlínicas, operadoras de planos". E o art. 45 diz que, pela publicidade em desacordo com o Código, "respondem solidariamente os proprietários, responsável técnico e demais profissionais que tenham concorrido na infração".

Em outras palavras: o que mudou com o CADE foi o tratamento do desconto. A regra sobre anunciar preço em publicidade continua no texto da lei e do Código.

Dica: antes de colocar preço ou condição de pagamento em anúncio, alinhe a peça com o responsável técnico e com a assessoria jurídica. Proprietário e RT respondem juntos.

Onde a tabela realmente pesa: negociação com operadoras

No particular, a CBHPO é referência. No convênio, ela é a régua de toda a conversa.

Três motivos:

  • A nomenclatura é a mesma. Segundo a apresentação oficial da CBHPO hospedada pelo CRO-PR, as reuniões com a ANS em 2009 unificaram a nomenclatura, e "a TUSS odontológica contempla a integralidade da CBHPO". O CFO compara valores de operadoras usando o código TUSS de cada procedimento.
  • O contrato é obrigatório. A Lei 13.003/2014 incluiu o art. 17-A na Lei 9.656/1998, a lei dos planos de saúde: as condições de prestação de serviços aos planos "serão reguladas por contrato escrito", com a definição dos valores, dos critérios, da forma e da periodicidade do reajuste. O reajuste é anual, no prazo de 90 dias do início de cada ano; vencido o prazo, a ANS, quando for o caso, define o índice. A regra alcança o profissional pessoa física e o estabelecimento pessoa jurídica.
  • O art. 21 cita o convênio. O dever de evitar valores inferiores aos referenciais inclui, expressamente, "convênios e credenciamentos".

Repare no que a lei não diz: o art. 17-A exige contrato com valores e reajuste, mas não fixa a CBHPO como piso. É por isso que o CFO fala em "continuar lutando para que a CBHPO seja cumprida pelas operadoras em sua integralidade".

O abismo entre o que o convênio paga e a referência

Quanto os convênios pagam em relação à tabela? A resposta honesta: os dados disponíveis são estudos pontuais, com recortes e anos diferentes, que apontam na mesma direção:

Estudo (ano) Recorte O que encontrou
Arquivos em Odontologia, pesquisadores da UNESP de Araçatuba (2011) Tabelas de cinco planos de abrangência nacional comparadas à VRCC do CFO Desconto médio de 54,51% sobre os preços sugeridos pelo CFO; nos preventivos, 57,09% em média
CFO, comparativo de operadoras (2012) Autogestão, cooperativas e odontologia de grupo Autogestão não chegava a 50% da CBHPO; odontologia de grupo nem chegava a 20%; diferença de até 200% entre operadoras em alguns procedimentos
Odontologia Clínico-Científica, Maceió (2015) Três planos de Maceió, procedimentos de dentística, comparados à VRPO Maiores descontos na resina fotopolimerizável: 81 a 87%, em média
Revista da APCD, Maceió (2016) Três planos de Maceió, todas as categorias, comparados à VRPO No plano que pior remunerou, defasagem média geral de 65%
Cuadernos de Educación y Desarrollo (2024) Tabelas de seis instituições comparadas à CBHPO Restauração de resina de uma face paga a R$ 23,00, contra R$ 166,00 na CBHPO (diferença de 86,14%); nenhum convênio cobria implante

Duas leituras importantes.

Primeiro, o recorte manda. Os números de Maceió valem para três planos de uma cidade; o de 2011, para cinco planos nacionais; o de 2024, para seis instituições. Não dá para transformar nenhum deles em "o convênio paga X% da tabela" no Brasil inteiro.

Segundo, a direção é consistente. Em todos os recortes, o convênio pagou abaixo da referência, às vezes muito abaixo.

Se a sua clínica ainda depende de convênio e você pensa em migrar para o particular, veja como reposicionar a clínica de convênio para particular de alto ticket.

Como usar a VRPO e a CBHPO na clínica de R$ 100 mil+ por mês

A tabela é útil. Só não do jeito que a maioria usa.

Use a tabela para quatro coisas, nesta ordem:

1. Como piso ético. Nenhum procedimento da sua tabela particular deveria ficar abaixo do valor de referência do seu estado, no ano vigente. Se ficar, você está no território que o art. 21 manda evitar.

2. Como checagem de coerência entre procedimentos. A escala de pontos é boa para achar distorção interna. Exemplo com a tabela do Paraná de 2018: o implante ósseo integrado tem 400 UH, quatro vezes a consulta. Se, na sua tabela, a relação entre dois procedimentos estiver muito fora da proporção da CBHPO, investigue: um deles pode estar mal precificado.

3. Como régua de convênio. Antes de assinar ou renovar credenciamento, compare procedimento a procedimento o que a operadora paga com o valor de referência. Esse é o uso para o qual a tabela nasceu.

4. Como argumento de negociação, nunca como âncora de venda. A tabela ajuda a mostrar a uma operadora que o valor proposto é aviltante. Na conversa com o paciente particular, ela não agrega: o paciente de alto ticket não compra pela tabela do conselho.

E de onde sai o preço particular? De outra conta:

O que compõe o preço Onde aparece na tabela da CBHPO De onde vem no seu preço
Honorário profissional Coluna UH, em pontos relativos Seu posicionamento e especialização
Custo operacional da cadeira Coluna UC, pela média da metodologia Seu custo-hora real
Laboratório Coluna própria, muitas vezes "Negoc." Seu contrato com o laboratório
Implante, componentes e insumos variáveis Coluna "Outros insumos", muitas vezes "Negoc." Seu fornecedor
Custo de aquisição do paciente Sem coluna própria Custo por paciente que comparece e fecha
Impostos e taxas financeiras Sem coluna própria Seu regime tributário e meios de pagamento
Margem Sem coluna própria Sua meta de resultado

O método é o inverso do que a tabela sugere. Você parte do custo real (custo-hora, laboratório, insumos, aquisição, tributos), soma a margem que o negócio precisa e ajusta pelo valor percebido que o seu posicionamento sustenta. Depois, confere se o resultado passa no piso da referência.

Para a parte de valor percebido, veja como precificar por valor percebido em vez de custo.

Lembre: o paciente de alto ticket compara confiança, resultado e experiência. A tabela do conselho não entra nessa conversa. Seu preço precisa pagar o custo de trazer esse paciente até a cadeira, e a CBHPO não tem linha para isso.

Onde encontrar a tabela do seu estado (e qual fonte evitar)

Procure sempre a fonte que publica o multiplicador local:

  1. O CRO do seu estado. Vários conselhos mantêm páginas sobre a CBHPO, como o CRO-PE e o CRO-RS.
  2. O sindicato de odontologistas do estado. É comum que ele publique a planilha com a UH estadual, como o SOERGS e o SOEPAR, cuja tabela o CRO-PR divulgou em 2018.
  3. O ano da planilha. Tabela sem data não serve. Segundo o SOERGS, a UH muda todo ano em julho.

E qual fonte evitar? O antigo portal cbhpo.com.br. Foi nesse endereço que o CFO lançou, em fevereiro de 2021, o novo portal da CBHPO: é para ele que aponta a notícia do CRO-MT. Mas, na checagem feita para este guia, o endereço cbhpo.com.br aparecia como domínio estacionado, sem a tabela. Páginas de conselhos regionais, como a do CRO-AL, ainda apontam para ele.

Também desconfie de tabelas "prontas" em sites de software ou blogs sem data, sem estado e sem indicação de UH e UC. Sem esses três dados, o número não diz nada.

Seu próximo passo

  1. Baixe a tabela vigente do seu estado no CRO ou no sindicato e confira o ano. Marque os procedimentos em que o seu preço particular fica abaixo da referência: esses são os únicos que merecem revisão por causa da tabela.
  2. Refaça o preço dos seus cinco procedimentos de maior ticket a partir do custo real: custo-hora de cadeira, laboratório, implante e componentes, custo de aquisição do paciente, tributos e margem. Use a CBHPO só para checar a coerência entre eles.
  3. Meça quanto custa trazer esse paciente até a cadeira. Se o seu preço não sabe o custo por paciente que comparece e fecha, ele está incompleto, com ou sem tabela.

Quer que o preço do seu alto ticket seja sustentado por uma agenda previsível de pacientes que comparecem? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

A tabela VRPO ainda existe?

Como nome, sim, mas a referência nacional hoje é a CBHPO. A VRPO foi aprovada em setembro de 2002 e serviu de base para a CBHPO, que a FIPE-USP construiu a partir de 521 procedimentos da VRPO. O CRO-RS apresenta a CBHPO como substituta da tabela de referência VRPO, e muita gente ainda chama tudo de "tabela VRPO" por hábito.

Minha clínica particular é obrigada a cobrar pela CBHPO?

Não. A CBHPO é uma classificação de valores relativos, e o CRO-MG informa que não possui tabela de honorários: o preço é arbitrado pelo profissional com base nos critérios do art. 19 do Código de Ética. O limite é o aviltamento, que o art. 21 associa a valores irrisórios ou inferiores aos referenciais.

Posso cobrar abaixo da CBHPO ou dar desconto?

O art. 21 do Código de Ética pede ao cirurgião-dentista que evite valores irrisórios ou inferiores aos referenciais, e a Resolução CFO-271/2025 não mexeu nesse artigo. Ao mesmo tempo, a mesma resolução tirou o desconto do rol de infrações do art. 20, VIII, depois da condenação do CFO pelo CADE em 2023. O desconto saiu do rol do art. 20; fixar valores irrisórios ou inferiores aos referenciais continua sendo o que o art. 21 manda evitar.

Como calculo o valor da CBHPO no meu estado?

Multiplique os pontos de honorário (UH) pelo valor estadual da UH e os pontos de custo (UC) pelo índice da UC, e some. Na tabela divulgada pelo CRO-PR em 2018, a consulta tinha 100 UH vezes 0,96 mais 10 UC vezes 0,46, o que dava R$ 100,60. Laboratório e insumos marcados como "Negoc." ficam fora da conta.

Onde encontro a tabela CBHPO atualizada?

No site do CRO ou do sindicato de odontologistas do seu estado, que publicam o multiplicador local. O SOERGS informa que cada estado atualiza a UH anualmente em julho. O antigo portal cbhpo.com.br não é uma fonte confiável hoje: na checagem feita para este guia, o endereço aparecia como domínio estacionado.

A operadora de plano odontológico é obrigada a pagar a CBHPO?

A Lei 13.003/2014 exige contrato escrito com a operadora, com valores, critérios e periodicidade de reajuste definidos, e reajuste anual, mas não fixa a CBHPO como piso. O próprio CFO, em comparativo de 2012, falava em continuar lutando para que a CBHPO fosse cumprida pelas operadoras em sua integralidade.